Uttarabhaga
विभूतिविस्तरप्रश्नः / Inquiry into the Expansion of Śiva’s Vibhūti
O Adhyāya 1 inicia-se com uma invocação reverente a Śiva, marcada por uma imagem icónica (o peito de Śiva trazendo a marca açafranada deixada pelos seios de Gaurī), estabelecendo a devoção e o foco teológico. Sūta narra que, após Upamanyu obter o favor de Śiva, Vāyu se ergue de sua observância ao meio-dia e se aproxima dos sábios na floresta de Naimiṣa. Os ṛṣi residentes, tendo concluído seus deveres diários, veem Vāyu chegar e o fazem sentar no assento preparado no centro da assembleia. Reverenciado pelo mundo, Vāyu se acomoda, recorda a majestade gloriosa do Senhor e começa tomando refúgio em Mahādeva—onisciente e invencível—cuja vibhūti é todo o cosmos, móvel e imóvel. Ao ouvirem essas palavras auspiciosas, os sábios purificados pedem uma exposição mais ampla do “vibhūtivistara” e ligam a pergunta a narrativas anteriores: a realização de Upamanyu por meio do tapas e do voto Pāśupata, incluindo exemplos relacionados a Vāsudeva Kṛṣṇa. Assim, o capítulo funciona como uma dobradiça, passando do enquadramento narrativo para um pedido doutrinal de descrição sistemática das manifestações de Śiva e dos meios de realizá-las.
पाशुपतज्ञानप्रश्नः — Inquiry into Pāśupata Knowledge (Paśu–Pāśa–Paśupati)
O Adhyāya 2 inicia-se com os ṛṣis pedindo esclarecimentos sobre o pāśupata-jñāna e sobre os sentidos doutrinais de Paśupati (Śiva), paśu (os seres vinculados) e pāśa (os laços/ataduras). Sūta apresenta Vāyu como expositor competente e ancora o ensinamento numa revelação anterior: Mahādeva (Śrīkaṇṭha) ensinou a Devī, no Mandara, esse supremo conhecimento Pāśupata. Em seguida, Vāyu liga essa revelação a uma cena pedagógica posterior, na qual Kṛṣṇa (Viṣṇu na forma de Kṛṣṇa) se aproxima respeitosamente do sábio Upamanyu e solicita a exposição completa—tanto do conhecimento divino quanto das vibhūti (poderes e glórias manifestas) de Śiva. As perguntas de Kṛṣṇa delineiam o quadro doutrinal: quem é Paśupati, quem são chamados paśus, por quais pāśas estão presos e como são libertos. Upamanyu, após reverenciar Śiva e Devī, começa sua resposta, preparando uma soteriologia śaiva estruturada, fundada na análise de cativeiro e libertação e na autoridade do ensinamento original de Śiva.
शिवस्य विश्वव्याप्तिः—अष्टमूर्तिः पञ्चब्रह्म च | Śiva’s Cosmic Pervasion: Aṣṭamūrti and the Pañcabrahma Forms
Upamanyu instrui Kṛṣṇa que todo o carācarajagat, o universo móvel e imóvel, é permeado e sustentado por Maheśa/Śiva como Paramātman por meio de Suas próprias mūrtis. O capítulo enquadra o cosmos como constituído e repousando na aṣṭamūrti de Śiva, como contas enfiadas num fio. Em seguida, especifica formas divinas principais e concentra-se nas tanūs do pañcabrahma—Īśāna, Tatpuruṣa, Aghora, Vāmadeva, Sadyojāta—como pervasores completos da realidade, sem deixar nada não permeado. Cada forma é apresentada como adhiṣṭhātṛ (princípio regente) de domínios ontológicos e cognitivos: Īśāna rege a dimensão kṣetrajña/bhoktṛ; Tatpuruṣa rege o avyakta e os objetos de fruição baseados nos guṇas; Aghora rege o buddhi-tattva com dharma etc.; Vāmadeva rege o ahaṃkāra; Sadyojāta rege o manas. O discurso ainda correlaciona essas formas com faculdades sensoriais, órgãos, seus objetos e elementos (śrotra–vāk–śabda–vyoman; tvak–pāṇi–sparśa–vāyu; cakṣus–caraṇa–rūpa–agni; rasanā–pāyu–rasa–āpas; ghrāṇa–upastha–gandha–bhū). Conclui afirmando a fama e a dignidade de culto dessas mūrtis como causa única do bem auspicioso (śreyas).
शिवशक्त्यैक्य-तत्त्वविचारः / Inquiry into the Unity of Śiva and Śakti (Para–Apara Ontology)
O Adhyāya 4 inicia com a pergunta de Kṛṣṇa sobre como o universo é permeado pelas formas (mūrti) do supremamente luminoso Śarva (Śiva) e como um mundo marcado pela polaridade feminino–masculino (strī–puṃbhāva) é “presidido” pelo Par divino. Upamanyu responde que apresentará apenas em resumo a śrīmad-vibhūti (majestade de poder/presença) e a natureza essencial (yāthātmya) de Śiva e Śivā, pois uma descrição exaustiva é impossível. Ele define Śakti como Mahādevī e Śiva como o possuidor de Śakti, afirmando que todo o cosmos, móvel e imóvel, é apenas uma fração (leśa) de sua vibhūti. Em seguida, distingue categorias da realidade—cit e acit, puro e impuro, para e apara—e vincula o saṃsāra ao complexo apara/impuro, onde a consciência se associa ao não consciente. Contudo, tanto para quanto apara estão sob o senhorio natural (svāmya) de Śiva e Śivā. O capítulo enfatiza sua soberania cósmica (o mundo está sob Eles, não Eles sob o mundo) e afirma sua não-diferença por analogia: assim como a lua e o luar são inseparáveis, Śiva sem Śakti não se manifesta como “luminoso” no mundo. O restante aponta para implicações em cosmologia, teologia da manifestação e a lógica da unidade na dualidade divina.
शिवस्य परापरब्रह्मस्वरूपनिर्णयः / Determination of Śiva as Higher and Lower Brahman
O Adhyāya 5 inicia com a instrução de Upamanyu: todo o universo, móvel e imóvel, é o próprio “corpo-forma” (vigraha) de Devadeva, Śiva, mas os seres presos não o reconhecem devido ao peso do laço (pāśa). Em seguida, aborda-se a tensão hermenêutica entre unidade e pluralidade: a única Realidade é dita de muitos modos, mesmo por sábios que ainda não alcançam o estado supremo não conceitual (avikalpa). O capítulo distingue apara e para Brahman: apara como o conjunto de elementos, sentidos, órgão interno (antaḥkaraṇa) e domínios objetivos; para como consciência pura (cidātmaka). “Brahman” é explicado etimologicamente (bṛhattva/bṛhaṇatva), e ambos os níveis são afirmados como formas do Senhor que preside sobre Brahman. O ensinamento reinterpreta o cosmos como estruturado por vidyā/avidyā: vidyā é cognição consciente alinhada à verdade; avidyā é a apreensão equivocada inconsciente/insensível. Contrapõem-se bhrānti (erro) e yathārtha-saṃvitti (cognição correta), culminando na afirmação de que Śiva, senhor de sat e asat, governa esses pares e suas consequências no conhecer.
Śiva’s Freedom from Bondage and His Cosmic Support (शिवस्य अबन्धत्वं तथा सर्वाधिष्ठानत्वम्)
Este capítulo, apresentado como uma exposição doutrinal de Upamanyu, desenvolve uma análise apofática de Śiva: Śiva não está sujeito a qualquer forma de cativeiro—seja āṇava, māyīya, prākṛta, cognitivo/psicológico, sensorial, elemental ou sutil (tanmātra). O discurso também nega determinantes limitadores como o tempo (kāla), kalā, vidyā, niyati, e aflições afetivas como rāga e dveṣa, bem como o enredamento kármico, sua maturação (vipāka) e o prazer-dor resultante. Ao rejeitar predicados relacionais—amigo/inimigo, controlador/impulsionador, senhor/mestre/protetor—o capítulo estabelece a não dependência e a não contingência de Śiva. Conclui afirmando que Śiva, como Paramātman, é plenamente auspicioso e permanece como o suporte inabalável (adhiṣṭhāna) de tudo, estabelecido em sua própria natureza por sua śakti; por isso é lembrado como Sthāṇu, o Imóvel e Firme.
शक्तितत्त्ववर्णनम् / Exposition of the Principle of Śakti
O Adhyāya 7 é um ensinamento doutrinário em que Upamanyu descreve a Śakti svābhavikī de Śiva como o princípio universal, sutil e de consciência-bem-aventurada, que se manifesta como uma e como muitas, tal qual a luz do sol. O capítulo enumera as inumeráveis modalidades da Śakti—icchā (vontade), jñāna (conhecimento), kriyā (ação)—e associa as categorias cósmicas às suas emanações, comparadas a faíscas que saltam do fogo. Coloca os senhores de vidyā e avidyā, os puruṣas e a prakṛti no seu campo, e afirma que todos os evolutos desde o mahat em diante são seus efeitos. Śiva é identificado como «Śaktimān» (o possuidor da Śakti), enquanto a Śakti é apresentada como fundamento de Veda/Śruti/Smṛti, da cognição, da firmeza e das potências operativas de conhecer, querer e agir. O discurso inclui māyā, jīva, vikāra/vikṛti e a totalidade de sat/asat como permeados por ela. A līlā da Śakti tanto ilude quanto liberta; com ela, Sarveśa permeia o universo de modo múltiplo (aqui, «vinte e sete vezes»), e a libertação procede desse entendimento.
शिवज्ञान-प्रश्नः तथा सृष्टौ शिवस्य स्वयमाविर्भावः (Inquiry into Śiva-knowledge and Śiva’s self-manifestation in creation)
O Adhyāya 8 inicia com Kṛṣṇa pedindo um relato preciso da “essência védica” (vedasāra) ensinada por Śiva, que concede libertação aos que nela se refugiam. A doutrina é apresentada como profunda e resguardada: inacessível ao não devoto ou ao despreparado, e dotada de sentidos em múltiplos níveis. Kṛṣṇa então faz perguntas prático-rituais: como realizar a pūjā dentro desse ensinamento, quem possui o devido adhikāra, e como jñāna e yoga se relacionam com o caminho. Upamanyu responde enfatizando uma formulação śaiva condensada, conforme à intenção dos Vedas, livre de retórica de louvor ou censura, e capaz de gerar convicção imediata; como sua expansão completa é impossível, ele a resumirá. Em seguida, o discurso passa à cosmogonia: antes da criação manifesta, Śiva (Sthāṇu/Maheśvara) auto-manifesta-se como o Senhor dotado da base causal de efeitos reais, e depois faz surgir Brahmā como o primeiro entre os devas. A narrativa destaca o reconhecimento recíproco—Brahmā contempla seu progenitor divino, e o Progenitor contempla o Brahmā que surge—estabelecendo uma hierarquia teológica em que a agência criadora procede da auto-revelação prévia de Śiva.
योगाचार्यरूपेण शर्वावताराः (Śarva’s manifestations as Yoga-Teachers)
O Adhyāya 9 inicia com Kṛṣṇa perguntando a Upamanyu sobre Śarva (Śiva): ao longo das revoluções dos yugas, Śiva desce sob o disfarce sagrado de mestres de yoga (yoga-ācāryas) e também estabelece discípulos. Upamanyu responde enumerando vinte e oito mestres de yoga situados no Vārāha-kalpa e, em especial, no sétimo Manvantara, apresentados segundo a sequência dos yugas. Em seguida, afirma-se que cada ācārya possui quatro discípulos de mente serena, e começa-se a listar esses discípulos em ordem, a partir de Śveta, prosseguindo com agrupamentos de nomes como Śvetāśva, Śvetalohita, vikośa/vikeśa e o grupo de Sanatkumāra. O capítulo tem caráter de catálogo e linhagem, como um diretório purânico da transmissão ióguica śaiva.
श्रद्धामाहात्म्यं तथा देवीप्रश्नः (The Greatness of Śraddhā and Devī’s Question to Śiva)
O Adhyāya 10 é apresentado como uma transmissão didática em cadeia: Kṛṣṇa dirige-se ao sábio Upamanyu, reconhecendo-o como supremo conhecedor do śiva-jñāna, e declara que, após provar o “néctar” desse saber, sua sede permanece insaciável. Upamanyu narra então uma cena paradigmática no monte divino Mandara, onde Mahādeva está sentado com Devī em íntima contemplação, cercado por deusas assistentes e pelos gaṇas. No momento oportuno, Devī formula uma pergunta soteriológica: por que meio os humanos de entendimento limitado, não firmados no ātma-tattva, podem “conquistar” Mahādeva? Īśvara responde dando primazia à śraddhā (fé devocional) acima de rito, austeridade, japa, disciplinas posturais ou mesmo conhecimento abstrato; sem fé, nada disso torna o Divino acessível. Ele acrescenta que a śraddhā é cultivada e protegida pelo próprio dharma, explicitamente ligado à regulação do varṇāśrama. Assim, o capítulo estabelece uma hierarquia de meios: práticas externas são insuficientes sem fé interior, e a fé se estabiliza por uma ordem ético-social disciplinada, abrindo o caminho para a graça de Śiva e sua proximidade (vê-lo, tocá-lo, adorá-lo e dialogar com ele).
भक्ताधिकारि-द्विजधर्म-योगिलक्षणवर्णनम् / Duties of Qualified Devotees and Marks of Yogins
Śiva instrui Devī dizendo que resumirá o varṇa-dharma e a disciplina esperada dos devotos qualificados e dos dvija eruditos. O capítulo enumera um regime que combina regularidade ritual (banho três vezes ao dia, agni-kārya, culto sequencial do liṅga), virtudes sócio-religiosas (dāna, compaixão, īśvara-bhāva) e restrições morais (verdade, ahiṃsā para com todos os seres). Acrescenta compromissos pedagógicos e ascéticos: estudo, ensino, explicação, brahmacarya, escuta (śravaṇa), austeridade (tapaḥ), paciência (kṣamā), pureza (śauca). Descreve ainda sinais visíveis e observâncias: śikhā, upavīta, uṣṇīṣa, uttarīya; uso de bhasma e rudrākṣa; e culto especial nos dias de parvan, sobretudo em caturdaśī. Regras de dieta e pureza aparecem por meio de ingestões periódicas prescritas (por exemplo, brahma-kūrca) e da evitação de alimentos proibidos ou impuros (comida velha, certos grãos, intoxicantes e até o seu odor, e algumas oferendas). Em seguida, o discurso condensa os “liṅga” ióguicos (sinais) como kṣamā, śānti, santoṣa, satya, asteya, brahmacarya, conhecimento de Śiva, vairāgya, bhasma-sevana e o afastamento de todos os apegos, incluindo condutas austeras como alimentar-se de esmolas durante o dia. No conjunto, o capítulo funciona como um código de conduta śaiva estruturado, ligando observância externa, pureza ética e desapego ióguico.
पञ्चाक्षर-षडक्षरमन्त्र-माहात्म्यम् | The Greatness of the Pañcākṣara/Ṣaḍakṣara Mantra
O Adhyāya 12 inicia com Śrī Kṛṣṇa pedindo um relato verdadeiro (tattvataḥ) sobre a grandeza do pañcākṣara. Upamanyu responde que sua exposição completa é imensurável mesmo ao longo de tempos vastíssimos, e por isso ensina de modo conciso. O capítulo afirma a autoridade do mantra tanto no Veda quanto no Śivāgama e o apresenta como instrumento completo para os devotos de Śiva, capaz de realizar todos os objetivos. Ele é descrito como curto em sílabas, porém rico em significado: essência do Veda, doador de libertação, certo e intrinsecamente o próprio Śiva. É louvado como divino, portador de siddhi e atraente à mente dos seres, permanecendo profundo e sem ambiguidade. Em seguida, explicita-se a forma do mantra como “namaḥ śivāya” e trata-se dela como fórmula primordial (ādya). Um ponto doutrinal central liga o ekākṣara “oṃ” à presença onipenetrante de Śiva e coloca realidades sutis de uma só sílaba (relacionadas a Īśāna e ao complexo pañcabrahma) dentro da sequência do mantra. Assim, o mantra é ao mesmo tempo significante e significado: Śiva, como pañcabrahma-tanu, habita no sutil ṣaḍakṣara por meio do vācyavācaka-bhāva (identidade entre som e sentido).
पञ्चाक्षरीविद्यायाḥ कलियुगे मोक्षोपायः | The Pañcākṣarī Vidyā as a Means of Liberation in Kali Yuga
O Adhyāya 13 é estruturado como um diálogo doutrinal no qual Devī diagnostica a condição do Kali‑yuga: o tempo está “kaluṣita” (maculado), difícil de transpor; o dharma é negligenciado; a conduta do varṇāśrama se esgota; prevalece uma crise sócio‑religiosa; e a transmissão de ensinamentos entre guru e śiṣya é interrompida. Ela pergunta como os devotos de Śiva podem alcançar a libertação sob tais limitações. Īśvara responde prescrevendo a confiança em sua “paramā vidyā”—a pañcākṣarī que deleita o coração—e afirma que aqueles cuja vida interior é moldada pela bhakti obtêm a liberação mesmo em Kali. Em seguida, o problema se torna mais agudo: as pessoas estão manchadas por faltas de mente, fala e corpo; podem ser inaptas para o karma e até “patita” (caídas), levantando a questão de se qualquer ato que pratiquem só as conduz ao inferno. Śiva reafirma seu voto repetido na terra: até um devoto caído pode ser libertado por essa vidyā; e revela o “rahasya” guardado—que a adoração a ele com o mantra (samaṃtraka‑pūjā) funciona como uma intervenção salvífica decisiva. O arco do capítulo vai do diagnóstico do Kali‑yuga → incapacidade ritual/ética → solução mantra‑bhakti → garantia divina → autorização esotérica do culto com mantra para os caídos.
मन्त्रसिद्ध्यर्थं गुरुपूजा–आज्ञा–पौरश्चर्यविधिः / Guru-Authorization, Offerings, and Puraścaraṇa for Mantra-Siddhi
O Adhyāya 14 apresenta um protocolo śaiva, de caráter técnico, para alcançar a mantra-siddhi. Īśvara declara que o japa sem autorização (ājñā), sem execução ritual correta (kriyā), sem fé (śraddhā) e, sobretudo, sem a dakṣiṇā/oferta pretendida, torna-se niṣphala (sem fruto). Em seguida, descreve-se como o discípulo deve aproximar-se de um guru/ācārya qualificado (tattvavedit, dotado de virtudes e disciplina contemplativa), enfatizando a pureza de intenção (bhāvaśuddhi) e o serviço por meio da fala, da mente, do corpo e dos bens. Prescreve-se guru-pūjā contínua e doações generosas conforme a capacidade, com advertência explícita contra a fraude financeira (vittaśāṭhya). Uma vez satisfeito o guru, o discípulo passa por purificação (snāna, água purificada por mantra, substâncias auspiciosas), adorna-se adequadamente e o rito é realizado em local sagrado e limpo (rio, beira-mar, curral de vacas, templo ou casa pura) em tempo propício (tithi, nakṣatra, yoga sem defeitos). O guru então transmite o “mantra supremo” com entoação correta e concede a ājñā. Tendo recebido mantra e ordem, o discípulo realiza japa regular segundo o regime de puraścaraṇa, com metas quantificadas de recitação e vida disciplinada (contenção, alimentação regulada). O capítulo conclui que quem completa o puraścaraṇa e mantém japa diário torna-se siddha e capaz de conceder êxito, ancorado na lembrança interior de Śiva e do guru.
शिवसंस्कार-दीक्षानिरूपणम् (Śivasaṃskāra and the Typology of Dīkṣā)
Este capítulo se inicia com Śrī Kṛṣṇa pedindo um relato preciso do “Śivasaṃskāra”, após a instrução anterior sobre a grandeza e o uso do mantra. Upamanyu responde definindo saṃskāra como o rito que autoriza a pessoa para a pūjā e disciplinas correlatas; caracteriza-o como purificação do ṣaḍadhvan e como o meio pelo qual o conhecimento é concedido e o vínculo do pāśa é reduzido, razão pela qual também é chamado dīkṣā. Em seguida, a dīkṣā é classificada, no idioma do Śivāgama, em três formas: Śāṃbhavī, Śāktī e Māṃtrī. A Śāṃbhavī é descrita como instantânea e mediada pelo guru, podendo atuar por mero olhar, toque ou palavra, e subdivide-se em tīvrā e tīvratarā conforme o grau de dissolução do pāśa: a última concede quietude/libertação imediata, enquanto a primeira purifica ao longo da vida. A Śāktī dīkṣā é apresentada como uma descida de poder portador de conhecimento, realizada pelo guru por meios ióguicos e pelo “olho do conhecimento”, entrando no corpo do discípulo.
समयाह्वय-संस्कारः — Rite of ‘Samayāhvaya’ and the Preparatory Layout (Maṇḍapa, Vedi, Kuṇḍas, Maṇḍala, Śiva-kumbha)
O Adhyāya 16 inicia-se com Upamanyu prescrevendo o ato consagratório inicial chamado samayāhvaya-saṃskāra, a ser realizado em dia auspicioso, num local limpo e sem defeitos. Em seguida, descreve-se o exame do terreno (bhūmi-parīkṣā) por sinais sensoriais e qualitativos — cheiro, cor, sabor etc. —, após o qual se deve construir o maṇḍapa conforme os padrões do śilpi-śāstra. Estabelece-se a vedi e dispõem-se vários kuṇḍas segundo as oito direções, com sequência especial voltada ao quadrante Īśāna (nordeste); opcionalmente, um kuṇḍa principal pode ser colocado no lado oeste, e o arranjo central é embelezado. A vedi é adornada com dosséis, bandeiras e guirlandas, e no centro desenha-se um maṇḍala auspicioso com pós coloridos: materiais luxuosos (pós dourados/vermelhos) para os abastados e substitutos acessíveis (como sindūra, pó de arroz/śālī ou de nivāra) para os pobres, indicando acessibilidade ritual graduada. O texto fixa as proporções do maṇḍala de lótus (medida de uma ou duas mãos), as dimensões do pericarpo (karṇikā), dos estames (kesarāṇi) e das pétalas, e prescreve colocação e ornamento especialmente no setor Īśāna. Por fim, espalham-se grãos, gergelim, flores e erva kuśa, e prepara-se um Śiva-kumbha devidamente marcado, sinalizando a passagem da preparação do espaço para a invocação formal e os ritos subsequentes.
षडध्व-शुद्धिः (Purification of the Six Adhvans / Sixfold Cosmic Path)
O Adhyāya 17 inicia com Upamanyu ensinando que o guru, após examinar a aptidão e o adhikāra do discípulo (yogyatā/adhikāra), deve realizar ou transmitir a ṣaḍadhvā-śuddhi para a libertação completa de todos os vínculos (sarva-bandha-vimukti). Em seguida, o capítulo define, em sequência concisa, os seis adhvan—kalā, tattva, bhuvana, varṇa, pada e mantra—como “caminhos” ou estratos da manifestação. Especifica as cinco kalā começando por Nivṛtti e explica que os outros cinco adhvan são permeados por essas kalā. Enumera o tattvādhvan como uma série de 26 níveis, de Śiva-tattva até Bhūmi, caracterizados como puros, impuros e mistos. O bhuvanādhvan é descrito de Ādhāra a Unmanā com o total de sessenta (sem contar subdivisões). O varṇādhvan é apresentado como cinquenta formas de Rudra (as letras), enquanto o padādhvan é múltiplo em suas diferenciações. O mantrādhvan é permeado pela vidyā suprema, e o texto oferece uma analogia: assim como Śiva, senhor dos tattva, não é contado entre os tattva, do mesmo modo o mantra-nāyaka não é contado dentro do mantrādhvan. O capítulo enfatiza que, sem o verdadeiro conhecimento do adhvan sêxtuplo e da lógica do “permeante–permeado” (vyāpaka–vyāpya), ninguém está apto para a adhva-śodhana; por isso, a natureza do adhvan e sua estrutura de permeação devem ser compreendidas antes da prática.
Maṇḍala–Pūjā–Homa Krama (Maṇḍala Worship and Homa Sequence for the Disciple)
O Adhyāya 18 apresenta um fluxo ritual rigorosamente ordenado sob o comando do ācārya. Após as purificações preliminares, como o banho, o discípulo aproxima-se do Śiva-maṇḍala com as mãos unidas e a mente recolhida em meditação. O guru revela o maṇḍala até a etapa de vendar os olhos (netrabandhana); em seguida, o discípulo realiza o lançamento de flores (puṣpāvakiraṇa), e o local onde elas caem torna-se um sinal pelo qual o mestre designa ao discípulo um nome e uma atribuição. Depois, ele é conduzido ao nirmālya-maṇḍala, presta culto a Īśāna (Śiva) e oferece oblações no fogo de Śiva (śivānala). O capítulo inclui ainda um rito reparador: se o discípulo tiver visto um sonho inauspicioso, prescreve-se um homa de 100, 50 ou 25 oferendas com o mantra-raiz (mūla-vidyā) para apaziguar a falta. As etapas seguintes integram marcas corporais (um fio atado ao coque e deixado cair), a adoração fundamental (ādhāra-pūjā) ligada ao esquema de nivṛtti-kalā, e culminam no culto a Vāgīśvarī e numa sequência conduzida pelo homa. O ato mental de yojana do guru e o uso de mudrā aprovadas permitem ao discípulo um “acesso” ritual simultâneo a todos os estados de nascimento (sarva-yoniṣu), indicando uma reconfiguração metafísica de identidade e elegibilidade. No conjunto, é um manual procedimental de consagração centrada no maṇḍala, em que mantra, gesto e oferendas ao fogo operam purificação, designação e integração espiritual.
साधक-दीक्षा तथा मन्त्रसाधन (Puraścaraṇa and the Discipline of the Mantra-Sādhaka)
O Adhyāya 19 apresenta, de modo procedimental, como o guru estabelece um sādhaka qualificado e lhe transmite a vidyā/mantra śaiva. Upamanyu descreve a sequência ritual: adoração no maṇḍala, instalação no kumbha, homa, posicionamento do discípulo e conclusão dos preliminares na ordem já indicada. O guru realiza o abhiṣeka e concede formalmente o “mantra supremo”, encerrando o vidyopadeśa com uma entrega ritual e tangível do saber śaiva: verte água com flores (puṣpāmbu) na palma da criança/do discípulo. O mantra é louvado por conceder realizações neste mundo e no próximo pela graça de Parameṣṭhin (Śiva). Com a permissão de Śiva, o guru instrui o sādhaka em sādhana e em Śiva-yoga. O discípulo então empreende a mantra-sādhana com atenção ao viniyoga; essa prática disciplinada é identificada como o puraścaraṇa do mūla-mantra. O capítulo também esclarece que, para o mumukṣu (buscador de libertação), não é obrigatório um esforço ritual excessivo, embora realizá-lo permaneça auspicioso.
शिवाचार्याभिषेकविधिः / Rite of Consecrating a Śiva-Teacher (Śivācārya Abhiṣeka)
O Adhyāya 20 descreve a sequência formal de consagração (abhiṣeka) pela qual um discípulo devidamente preparado—purificado pelos saṃskāra e observante do Pāśupata-vrata—é instalado como ācārya (Śivācārya) conforme sua qualificação ióguica e ritual. O rito começa com a construção do maṇḍala “como anteriormente” e a adoração de Parameśvara. Cinco kalaśa são colocados nas direções e no centro, com a atribuição das potências/kalā śaivas: Nivṛtti no leste/frente, Pratiṣṭhā no oeste, Vidyā no sul, Śānti no norte e Parā no centro. Realizam-se ritos de proteção (rakṣā), a mudrā dhainavī, a consagração mantra dos vasos e as oferendas até a pūrṇāhuti segundo a tradição. O discípulo é conduzido ao maṇḍala (cabeça descoberta), completando-se o mantra-tarpaṇa e os preliminares. O mestre o assenta para o abhiṣeka, executa o sakalīkaraṇa (tornar completo), vincula/manifesta a forma das cinco kalā e, ritualmente, “entrega” o discípulo a Śiva. O abhiṣeka prossegue em ordem a partir do vaso de Nivṛtti; depois o mestre coloca a “mão de Śiva” sobre a cabeça do discípulo e o investe formalmente como Śivācārya. O capítulo segue com mais adoração e um homa prescrito de 108, concluindo com a oblação plena final.
शिवाश्रम-नित्यनैमित्तिककर्मविधिः / Śaiva Āśrama-Duties: Daily and Occasional Rites (Morning Purity & Bath Procedure)
O Adhyāya 21 inicia com Kṛṣṇa pedindo uma exposição precisa dos deveres do praticante do Śaiva-āśrama, conforme o próprio śāstra de Śiva, distinguindo karma nitya (diário) e naimittika (ocasional). Upamanyu responde com um procedimento matinal: levantar-se ao amanhecer, meditar em Śiva junto de Ambā (Śakti) e, então, atender às necessidades corporais em local reservado. O capítulo descreve a purificação (śauca) e a higiene dental, incluindo substituições quando não há palitos dentais ou quando são proibidos em certos dias lunares; prescreve também a purificação da boca por enxágues repetidos com água. Em seguida detalha o “vāruṇa snāna” (banho ritual com água) em rio, tanque, lago ou em casa: manejo dos materiais de banho, remoção de impurezas externas, aplicação de terra (mṛd) para limpeza e saneamento após o banho. Vêm depois instruções de vestimenta e re-purificação, enfatizando roupas limpas. O texto estabelece restrições: categorias como brahmacārin, asceta e viúva devem evitar banhos perfumados e práticas afins ao adorno. A sequência do banho é ritualizada com upavīta e śikhā amarrada, imersão, ācamanā, colocação de um “tri-maṇḍala” na água, japa de mantras submerso, lembrança de Śiva e, por fim, auto-abluição (abhiṣeka) com a água santificada—apresentando a rotina corporal como disciplina śaiva centrada no mantra.
न्यासत्रैविध्य-भूतशुद्धि-प्रक्रिया (Threefold Nyāsa and the Procedure of Elemental Purification)
O Adhyāya 22 expõe, por Upamanyu, o nyāsa como uma disciplina tríplice alinhada ao processo cósmico: sthiti (estabilização), utpatti (manifestação) e saṃhṛti (reabsorção). O capítulo primeiro classifica o nyāsa segundo a orientação dos āśrama (gṛhastha, brahmacārin, yati, vānaprastha) e depois define a lógica direcional e a sequência de sthiti-nyāsa e utpatti-nyāsa (sendo saṃhṛti a ordem inversa). Em seguida descreve uma sequência ritual técnica: colocar as unidades fonêmicas/varṇa com bindu, instalar Śiva nos dedos e nas palmas, realizar astranyāsa nas dez direções e meditar nas cinco kalā identificadas com os cinco elementos. Elas são situadas nos centros do corpo sutil (coração, garganta, palato, entrecenho, brahmarandhra) e “atadas” por seus respectivos bīja; a purificação é sustentada pelo japa da pañcākṣarī-vidyā. Vêm então operações ióguicas: conter o prāṇa, cortar o bhūtagranthi com a astra-mudrā, conduzir o ser pela suṣumnā para sair pelo brahmarandhra e unir-se ao Śiva-tejas. Uma série de secagem por vāyu, queima por kālāgni, reabsorção das kalā e “amṛta-plāvana” (inundação de néctar) reconstrói um corpo vidyā-maya (formado por mantra). O capítulo culmina com karanyāsa, dehanyāsa, aṅganyāsa, varṇanyāsa nas articulações, ṣaḍaṅga-nyāsa com conjuntos associados e digbandha, oferecendo também uma alternativa abreviada. O objetivo é a purificação de corpo e si (dehātma-śodhana) que conduz a śivabhāva, possibilitando o culto correto a Parameśvara.
पूजाविधान-व्याख्या (Pūjāvidhāna-vyākhyā) — Exposition of the Procedure of Worship
O Adhyāya 23 inicia com Upamanyu apresentando uma exposição concisa do pūjā-vidhāna, conforme transmitido no próprio ensinamento de Śiva a Śivā. O capítulo delineia uma sequência ritual em que o praticante completa o sacrifício interior (ābhyantara-yāga), podendo concluir com elementos do rito do fogo, e então prossegue para o culto exterior (bahir-yāga). Enfatiza-se a disposição mental e a purificação das substâncias rituais, seguidas de dhyāna e da adoração formal a Vināyaka para remover obstáculos. O adepto honra mentalmente as figuras acompanhantes, especialmente Nandīśa e Suyaśas, colocadas ao sul e ao norte, e prepara um āsana apropriado—assento de leão/yóguico ou lótus puro caracterizado pelos “três tattvas”. Sobre esse assento, realiza-se uma visualização detalhada de Sāmbā Śiva: forma suprema, ornamentada, de quatro braços e três olhos, com gestos/atributos como varada/abhaya, o mṛga e o ṭaṅka, adornos de serpente e o fulgor da garganta azul. A passagem culmina dirigindo a contemplação a Maheśvarī à esquerda de Śiva, afirmando a teologia litúrgica do par Śiva–Śakti.
पूजास्थानशुद्धिः पात्रशोधनं च — Purification of the Worship-Space and Preparation of Ritual Vessels
O Adhyāya 24 apresenta uma sequência ritual para estabelecer um ambiente adequado à Śiva-pūjā. Upamanyu descreve: (1) a purificação do local de culto por aspersão com o mūla-mantra e a colocação de flores umedecidas com água perfumada de sândalo; (2) a remoção de obstáculos (vighna) com o astra-mantra, seguida do “cobrimento” protetor (avaguṇṭhana), do selamento como armadura (varma) e do direcionamento do astra às direções para delimitar o campo ritual; (3) a disposição da relva darbha e a limpeza por aspersão e atos correlatos, depois a purificação de todos os recipientes e a dravya-śuddhi (purificação das substâncias); (4) a prescrição de quatro vasos—prokṣaṇī, arghya, pādya e ācamanīya—lavados, aspergidos e consagrados com “água de Śiva”; (5) a inserção de itens auspiciosos disponíveis, como metais e gemas, fragrâncias, flores, grãos, folhas e darbha; (6) a adequação dos aditivos conforme a função: aromas frescos e agradáveis para a água do banho e de beber; uśīra e sândalo para o pādya; pós aromáticos como elā e cânfora; e, no arghya, pontas de kuśa, akṣata, cevada/trigo/gergelim, ghee, mostarda, flores e bhasma. A lógica do capítulo é uma santificação ordenada: espaço → proteção → vasos → água → oferendas, garantindo eficácia ritual e correção doutrinal.
आवरणपूजाविधानम् / The Procedure of Āvaraṇa (Enclosure) Worship
Este adhyāya apresenta um suplemento técnico ao pūjā, introduzido por Upamanyu como matéria antes “não exposta por completo”: o momento e o método para realizar a āvaraṇa-arcana (adoração dos recintos/envoltórios) em relação à oferta de havis, à oferenda da lâmpada e ao nīrājana. O capítulo descreve um programa ritual concêntrico centrado em Śiva (e Śivā), começando com a recitação de mantras para o primeiro recinto e expandindo-se para fora por meio de colocações segundo as direções. Enumera a sequência direcional (aiśānya, pūrva, dakṣiṇa, uttara, paścima, āgneya etc.), identifica o ‘garbha-āvaraṇa’ (recinto mais interno) como uma coleção de mantras e situa no anel externo divindades e potências, incluindo guardiões de loka/dik como Indra (Śakra), Yama, Varuṇa, Kubera (Dhanada), Agni (Anala), Nirṛti, Vāyu/Māruta e figuras associadas. O método prescreve postura reverente e atenção contemplativa (palmas unidas, sentado com serenidade) ao invocar cada divindade do recinto pelo nome com fórmulas de “namas”. No conjunto, o capítulo funciona como uma cartografia ritual, convertendo a ordem cosmológica numa sequência litúrgica passo a passo em torno do foco central Śiva–Śakti.
पञ्चाक्षरमाहात्म्यम् / The Greatness of the Pañcākṣarī (Five-Syllable) Mantra
O Adhyāya 26, ensinado por Upamanyu, coloca a devoção ao mantra de Śiva acima de outros caminhos de ascese ou de sacrifício. O capítulo começa listando transgressões extremas—brahmahatyā, embriaguez, roubo, violação do leito do guru, matricídio e parricídio, matar um herói ou um embrião—e afirma que a adoração de Śiva como causa suprema (paramakāraṇa) por meio do mantra, sobretudo o pañcākṣarī, promove libertação progressiva desses pecados, descrevendo uma purificação em etapas ao longo de doze anos. Em seguida, prescreve o perfil devocional ideal: Śiva-bhakti exclusiva, contenção dos sentidos e sustento mínimo e regulado (como viver de esmolas), suficiente até para quem é tido como “caído”. O discurso intensifica o contraste ao declarar que votos severos—viver só de água, só de ar e outras austeridades—não garantem por si mesmos a comunhão com Śivaloka, ao passo que um único ato de culto feito com devoção ao pañcākṣarī pode conduzir à morada de Śiva pela potência inerente do mantra. Por fim, relativiza tapas e yajña (mesmo oferecendo toda a riqueza como dakṣiṇā) como incomparáveis à adoração da mūrti de Śiva, e insiste que o devoto que adora com o pañcākṣara é libertado—esteja ainda preso ou venha a ser solto depois—sem necessidade de mais deliberação. O capítulo também reconhece molduras mantricas variantes (hinos rudra/não rudra, ṣaḍakṣara, sūkta-mantra), mantendo a Śiva-bhakti como fator decisivo.
अग्निकार्य-होमविधिः (Agnikārya and Homa Procedure)
O Adhyāya 27 apresenta, pela instrução de Upamanyu, uma exposição procedimental do agnikārya: como estabelecer e santificar o fogo ritual e, em seguida, realizar o homa como culto a Mahādeva. O capítulo começa especificando os locais e recipientes permitidos: kuṇḍa (cova/fogueira ritual), sthaṇḍila (solo preparado), vedi (altar) ou vasos de ferro e de argila nova e auspiciosa. Após instalar o fogo conforme o vidhāna e concluir as consagrações preliminares (saṃskāra), o praticante é orientado a adorar Mahādeva e prosseguir com as oferendas. Em seguida, o texto trata do desenho ritual: dimensões recomendadas do kuṇḍa (um ou dois hasta), formas admitidas (circular ou quadrada) e a construção da vedi e do maṇḍala. Introduz elementos internos como o lótus de oito pétalas (aṣṭadalāmbuja) no centro, medidas de relevo em aṅgula e a convenção de medida (24 aṅgula = um kara/hasta). Outras instruções abrangem uma a três mekhalā (faixas circundantes), construção de terra bela e firme, formas yoni alternativas e detalhes de colocação e orientação. Menciona-se também materiais e purificação: untar kuṇḍa/vedi com esterco de vaca e água, preparar o maṇḍala com água de esterco de vaca, indicando que algumas medidas de recipientes não são fixas. No conjunto, o capítulo funciona como um plano ritual-arquitetônico do homa śaiva centrado em Mahādeva.
नैमित्तिकविधिक्रमः (Occasional Rites and Their Procedure)
O Adhyāya 28 apresenta a exposição prescritiva de Upamanyu sobre as observâncias naimittika (ritos ocasionais) para os adeptos do Śiva-āśrama, afirmando explicitamente que a prática deve apoiar-se no caminho autorizado pelo Śivaśāstra. O capítulo organiza o tempo sagrado como um calendário ritual: observâncias mensais e quinzenais (notadamente nos dias de aṣṭamī, caturdaśī e parvan) e culto intensificado em intervalos de forte carga cósmica, como as transições de ayana, o viṣuva (equinócio) e os eclipses. Introduz uma disciplina mensal recorrente: preparar o brahmakūrca, banhar Śiva com ele, jejuar e consumir o restante—louvada como expiação (prāyaścitta) excepcional, mesmo para faltas graves como a brahmahatyā. Em seguida enumera ritos e doações conforme mês–nakṣatra: nīrājana em Pauṣa sob Puṣya; doação de uma manta de ghṛta em Māgha sob Maghā; início de um mahotsava no fim de Phālguna; rito do balanço (dolā) na lua cheia de Caitra sob Citrā; celebrações florais em Vaiśākha sob Viśākhā; oferta de um pote de água refrescante em Jyeṣṭha sob Mūlā; pavitrāropaṇa em Āṣāḍha sob Uttarāṣāḍhā; preparativos de maṇḍala em Śrāvaṇa; e, depois, ritos de brincadeira com água e aspersões ablucionais em torno de nakṣatras específicos. No conjunto, o capítulo funciona como um plano de calendário litúrgico que combina vrata, intensificação de pūjā, dāna e modalidades festivas.
काम्यकर्मविभागः — Taxonomy of Kāmya (Desire-Motivated) Śaiva Rites
O Adhyāya 29 inicia com Śrī Kṛṣṇa pedindo a Upamanyu que explique se os praticantes qualificados do Śiva-dharma (śivadharmādhikāriṇaḥ) possuem também kāmya-karmas, além dos deveres nitya/naimittika já ensinados. Upamanyu responde classificando os frutos em aihika (deste mundo), āmūṣmika (do outro mundo) e combinados; e descreve uma tipologia das práticas por modalidade: kriyā-maya (ação/rito), tapaḥ-maya (austeridade), japa–dhyāna-maya (repetição de mantras e meditação) e sarva-maya (integrativa, combinando modos), subdividindo a kriyā em sequências como homa, dāna e arcana. Ele enfatiza que a ação ritual concede resultados plenos principalmente a quem possui śakti (competência/empoderamento), pois śakti é identificada com a ājñā, o comando/autorização de Śiva, o Paramātman; portanto, quem porta a autorização de Śiva deve empreender os ritos kāmya. Em seguida, apresenta ritos que concedem frutos aqui e no além, realizados por Śaivas e Māheśvaras numa ordem interior/exterior. Esclarece que “Śiva” e “Maheśvara” não são, em última instância, diferentes, e assim Śaiva e Māheśvara não se separam em essência: os Śaivas, apoiados em Śiva, dedicam-se ao jñāna-yajña (sacrifício do conhecimento), enquanto os Māheśvaras se dedicam ao karma-yajña (sacrifício da ação). Desse modo, os Śaivas enfatizam o interior e os Māheśvaras o exterior, mas o procedimento do rito é o mesmo em princípio; apenas varia a ênfase (antar/bahiḥ).
द्वितीयतृतीयावरणपूजाक्रमः | The Sequence of the Second and Third Enclosure Worship (Āvaraṇa-pūjā)
O Adhyāya 30 expõe de modo técnico a āvaraṇa-pūjā no contexto do culto mandálico śaiva. O capítulo inicia prescrevendo uma adoração preliminar junto a Śiva e Śivā: primeiro são honrados Gaṇeśa (Heramba) e Ṣaṇmukha/Skanda (Kārttikeya) com gandha (perfumes) e oferendas correlatas. Em seguida descreve o primeiro recinto (prathamāvaraṇa) como uma sequência delimitada: começando por Īśāna e seguindo a ordem das direções, realiza-se a adoração de cada divindade acompanhada de sua śakti (saśaktika), culminando em Sadyānta. Elementos auxiliares — como os ṣaḍaṅga (coração etc.) — são venerados tanto para Śiva quanto para Śivā, alinhados à direção do fogo e a outras colocações direcionais. Os oito Rudras, a partir de Vāma, com suas respectivas Vāmā-Śaktis, podem ser adorados em ordem ao redor dos quadrantes. Concluído o primeiro recinto, o texto passa ao segundo (dvitīyāvaraṇa), instalando formas de Śiva com suas śaktis em pétalas direcionais (dikpatra): Ananta no leste, Sūkṣma no sul, Śivottama no oeste e Ekanetra no norte; e depois outras colocações em direções intermediárias: Ekarudra, Trimūrti, Śrīkaṇṭha e Śikhaṇḍīśa com suas śaktis/posições. O capítulo assinala ainda que o segundo recinto inclui soberanos do tipo cakravartin como objetos de culto, e que o terceiro recinto (tṛtīyāvaraṇa) venera as Aṣṭamūrtis juntamente com suas śaktis. No conjunto, funciona como um mapa ritual: codifica a hierarquia dos recintos, a teologia das direções e o princípio de que cada manifestação divina só se completa ritualmente quando unida à sua śakti.
पञ्चावरणमार्गस्थं योगेश्वरस्तोत्रम् (Pañcāvaraṇa-mārga Stotra to Yogeśvara Śiva)
O Adhyāya 31 inicia com Upamanyu dirigindo-se a Kṛṣṇa e anunciando um hino piedoso a Yogeśvara Śiva, ensinado segundo o esquema do pañcāvaraṇa-mārga, um caminho de culto em cinco “envoltórios” ou camadas. Os versos apresentados estabelecem o tom dominante: um stotra de epítetos densos, com repetidas fórmulas de vitória “jaya jaya” e saudações “namaḥ”. O hino realiza uma indexação teológica sistemática: Śiva é louvado como o único Senhor do cosmos, consciência intrinsecamente pura, e realidade que excede o alcance da fala e até da mente. Ele é descrito como nirañjana (sem mancha), nirādhāra (sem apoio e, contudo, sustentáculo de tudo), niṣkāraṇodaya (origem sem causa), nirantaraparānanda (bem-aventurança suprema ininterrupta) e nirvṛtikāraṇa (causa da paz e da libertação). O stotra enfatiza ainda soberania, poder incomparável, onipresença sem obstrução e imperishabilidade, apresentando Śiva como o Absoluto metafísico e, ao mesmo tempo, o auspicioso objeto de devoção. Como capítulo, funciona como liturgia de recitação e condensação doutrinal, guiando a mente do devoto por contemplação estruturada e em camadas rumo à consumação kármica e ao fruto espiritual.
मन्त्रसिद्धिः, प्रतिबन्धनिरासः, श्रद्धा-नियमाः (Mantra Efficacy, Removal of Obstacles, and the Role of Faith/Discipline)
O Adhyāya 32 abre com Upamanyu dirigindo-se a Kṛṣṇa, passando de um relato geral da prática que traz êxito “aqui e no além” para uma exposição focada dos frutos śaivas alcançáveis nesta vida por uma disciplina composta de pūjā, homa, japa, dhyāna, tapas e dāna. O capítulo estabelece uma hierarquia de procedimento: primeiro, quem compreende de fato o mantra e seu sentido deve realizar a preparação/consumação do mantra (mantra-saṃsādhana), pois a ação ritual só frutifica com essa base. Em seguida, introduz o problema do pratibandha: poderosos impedimentos invisíveis (adṛṣṭa) que podem obstruir os resultados mesmo quando o mantra já está “siddha”. Ao surgirem sinais de obstrução, o sábio não age com pressa; examina presságios e indícios (śakuna-ādi) e realiza expiações corretivas. Vem então uma advertência: executar ritos de modo incorreto ou em delusão leva à ausência de frutos e ao escárnio social; do mesmo modo, empreender ritos de fruto visível (dṛṣṭa-phala) sem confiança revela falta de śraddhā, e o sem fé não obtém resultado. Esclarece-se que o fracasso não é “culpa” da divindade, pois os que agem conforme a prescrição de fato veem os frutos. Por fim, delineiam-se condições favoráveis: o sādhaka realizado, com obstáculos removidos, atua com confiança e fé; e, opcionalmente, pode adotar brahmacarya e dieta regulada (haviṣya à noite, pāyasa, frutas) para assegurar a realização.
केवलामुष्मिकविधिः — The Rite for Exclusive Otherworldly Attainment (Liṅga-Abhiṣeka and Padma-Pūjā Protocol)
Upamanyu anuncia uma observância sem igual, descrita como um método puramente amuṣmika (voltado ao alcance no além), afirmando que não há karma comparável nos três mundos. Ele valida o rito ao listar sua adoção universal: foi praticado por todos os deuses—especialmente Brahmā, Viṣṇu e Rudra—, por Indra e os lokapālas, pelos nove grahas a começar por Sūrya, por maharṣis versados em Brahmavidyā como Viśvāmitra e Vasiṣṭha, e por sábios devotos de Śiva (Śveta, Agastya, Dadhīca). O alcance inclui gaṇeśvaras como Nandīśvara, Mahākāla e Bhṛṅgīśa, e também classes do submundo e liminares: daityas, grandes nāgas como Śeṣa, siddhas, yakṣas, gandharvas, rākṣasas, bhūtas e piśācas. O capítulo afirma sua eficácia: por meio dele, os seres alcançam seus devidos lugares e os deuses tornam-se verdadeiramente “deuses”; enumeram-se estabilizações de identidade—Brahmā obtém brahmatva, Viṣṇu viṣṇutva, Rudra rudratva, Indra indratva e Gaṇeśa gaṇeśatva. Em seguida vem a liturgia: banhar o liṅga com água perfumada com sândalo branco (sita-candana-toya), adorar com lótus brancos em flor, prostrar-se e construir um belo assento de lótus (padmāsana) com as marcas corretas; se houver recursos, usar ouro e gemas e colocar um liṅga menor no centro, entre a rede de filamentos do lótus (kesarajāla).
लिङ्गप्रतिष्ठा-माहात्म्यम् / The Greatness of Liṅga Installation
O Adhyāya 34 apresenta a liṅga-pratiṣṭhā (e a correlata instalação de um bera/ícone) como um rito de eficácia imediata, capaz de conceder siddhis nitya, naimittika e kāmya. Upamanyu afirma um axioma cosmológico: “o mundo é formado como liṅga; tudo está estabelecido no liṅga”, e sustenta que, ao se instalar o liṅga, estabelecem-se também estabilidade, ordem e auspiciosidade. Diante das perguntas de Kṛṣṇa, esclarece-se o que é o liṅga, como Maheśvara é o ‘liṅgī’ e por que Śiva é adorado nessa forma: o liṅga é avyakta (inmanifesto), ligado aos três guṇas, princípio de origem e dissolução, sem começo nem fim, e upādāna-kāraṇa (causa material) do universo. Dessa raiz semelhante a prakṛti/māyā surge o mundo móvel e imóvel; introduzem-se as distinções śuddha/aśuddha/śuddhāśuddha, pelas quais se explicam as grandes divindades. Assim, o capítulo une a prescrição ritual—instalar o liṅga com pleno empenho para o bem-estar aqui e no além—à razão metafísica que faz da instalação um ato cósmico de re-fundamentar a realidade sob o comando (ājñā) de Śiva.
प्रणवविभागः—वेदस्वरूपत्वं लिङ्गे च प्रतिष्ठा (The Division of Oṃ, Its Vedic Forms, and Its Placement in the Liṅga)
O Adhyāya 35 apresenta um relato mito-doutrinal, de caráter técnico, sobre o Pranava (Oṃ) como o signo sonoro primordial de Brahman/Śiva e a semente da revelação védica. Upamanyu narra a manifestação de um som ressonante marcado por ‘Oṃ’, inicialmente incompreendido por Brahmā e Viṣṇu devido à força veladora de rajas e tamas. Em seguida, a sílaba única é analisada como quádrupla: A, U, M (três mātrās) e uma ardhamātrā adicional identificada com nāda. O capítulo mapeia essas unidades fonêmicas no simbolismo espacial do liṅga (A ao sul, U ao norte, M ao centro; o nāda é ouvido no topo) e as correlaciona com os Vedas (A=Ṛg, U=Yajus, M=Sāman, nāda=Atharvan). Também vincula tais correspondências a categorias cosmológicas e rituais (guṇas, funções criadoras, tattvas, lokas, kalā/adhvan e poderes do tipo siddhi), revelando uma semiótica em camadas na qual mantra, Veda e estrutura cósmica se interpretam mutuamente sob o horizonte metafísico śaiva.
लिङ्ग-बेर-प्रतिष्ठाविधिः / The Procedure for Installing the Liṅga and the Bera (Icon)
O Adhyāya 36 é apresentado como um diálogo instrutivo: Kṛṣṇa pede o método de pratiṣṭhā “mais excelente” para instalar tanto o Liṅga quanto o Bera (a forma icônica consagrada), conforme ensinado por Śiva. Upamanyu responde com uma sequência prescritiva: escolher um dia auspicioso (quinzena clara, sem influência hostil), confeccionar o Liṅga segundo as medidas do śāstra e selecionar um local favorável após examinar o solo. Ele descreve os upacāras preliminares, começando com o culto a Gaṇeśa, seguido da purificação do sítio e do traslado do Liṅga para a área de banho. Marcas são traçadas/inscritas conforme o śilpaśāstra com um estilete de ouro e pigmento como o kuṅkuma. O Liṅga e a piṇḍikā são purificados com misturas de terra e água e com o pañcagavya. Após a adoração com o pedestal/vedikā, o Liṅga é levado a um reservatório de água divina e colocado para o adhivāsa (repouso ritual/infusão). O salão de adhivāsa é equipado com toranas, cercamentos, guirlandas de darbha, oito elefantes direcionais, oito vasos dos Dikpālas e emblemas aṣṭamaṅgala; os Dikpālas são venerados. No centro, estabelece-se um amplo pīṭha marcado com o motivo do assento de lótus, feito de material radiante ou de madeira, preparando a continuação da consagração.
योगप्रकारनिर्णयः (Classification and Definition of Yoga)
O Adhyāya 37 inicia-se com Śrī Kṛṣṇa pedindo uma exposição precisa do yoga “sumamente raro” (parama-durlabha): a elegibilidade (adhikāra), os membros (aṅga), o método (vidhi), o propósito (prayojana) e a análise causal da morte, para que o praticante evite a autodestruição e obtenha eficácia imediata. Upamanyu responde definindo o yoga, em termos śaivas, como a estabilização das modificações da mente fixada em Śiva, após refrear as flutuações internas. Em seguida, o capítulo apresenta uma tipologia quíntupla e hierárquica: mantra-yoga, sparśa-yoga (ligado ao prāṇāyāma), bhāva-yoga, abhāva-yoga e o transcendente mahā-yoga. Cada um é descrito pelo seu suporte operativo—repetição do mantra e foco no sentido, disciplina do prāṇa, contemplação do bhāva e dissolução das aparências no Real—conduzindo da concentração com apoio a uma absorção cada vez mais sutil até o yoga supremo.
अन्तराय-उपसर्ग-विवेचनम् / Analysis of Yogic Obstacles (Antarāyas) and Upasargas
Upamanyu apresenta uma exposição técnica sobre os impedimentos enfrentados pelos praticantes de yoga (antarāya). Ele enumera dez obstáculos principais: preguiça, doença grave, negligência, dúvida quanto ao caminho ou ao local da prática, instabilidade mental, falta de fé (śraddhā), percepção iludida, sofrimento, abatimento e inquietação diante dos objetos dos sentidos. Em seguida, define cada um com precisão: a doença é analisada por causas corporais e kármicas; a dúvida é uma cognição dividida entre alternativas; a instabilidade é a mente sem fundamento; a falta de fé é uma disposição sem bhāva no curso do yoga; a ilusão é um juízo invertido. O sofrimento é classificado em três: ādhyātmika (interno), ādhibhautika (físico/oriundo de seres) e ādhidaivika (divino/elemental). O abatimento nasce do desejo frustrado; a inquietação é a dispersão da mente por muitos objetos. Apaziguados esses vighna, o yogin devotado pode experimentar upasarga “divinos”, sinais de proximidade dos siddhi, mas que podem distrair se mal interpretados. São seis: pratibhā (lampejo de intuição), śravaṇa (audição supranormal), vārtā (recebimento de notícias), darśana (visões), āsvāda (sabor extraordinário) e vedanā (sensibilidade tátil intensificada). O capítulo orienta a interpretar e regular tais sinais para que a sādhanā se dirija à libertação, e não ao fascínio pelos poderes.
ध्यानप्रकारनिर्णयः / Determination of the Modes of Meditation (on Śrīkaṇṭha-Śiva)
O Adhyāya 39 é um tratado técnico sobre o dhyāna como disciplina graduada centrada em Śrīkaṇṭha (Śiva). Upamanyu afirma que os yogins meditam em Śrīkaṇṭha porque a simples lembrança d’Ele concede de imediato a realização dos objetivos. O capítulo distingue o sthūla-dhyāna (meditação “grossa”, apoiada em objeto) praticado para estabilizar a mente, das orientações sūkṣma e nirviṣaya. Sustenta que contemplar Śiva diretamente traz todos os siddhis e que, mesmo quando se medita em outras formas, deve-se recordar a forma de Śiva como referente interior. O dhyāna é descrito como repetição que produz firmeza, começando com saviṣaya (com conteúdo/objeto) e avançando para nirviṣaya (sem objeto). A ideia de “meditação sem objeto” é matizada: redefine-se como uma continuidade, uma corrente de buddhi (buddhi-santati) que tende à autoconsciência sem forma (nirākāra). A prática é ainda enquadrada em sabīja (com “semente”/suporte) e nirbīja (sem semente), recomendando-se sabīja no início e nirbīja no ápice para a realização completa; menciona-se o prāṇāyāma como gerador de conquistas sucessivas, como śānti (paz) e estados correlatos.
अवभृथस्नान-तीर्थयात्रा-तेजोदर्शनम् | Avabhṛtha Bath, Tīrtha-Pilgrimage, and the Vision of Divine Radiance
O Adhyāya 40 passa do ensinamento anterior para a realização ritual e a peregrinação. Sūta narra que, após Vāyu transmitir aos munis reunidos o relato do yoga do conhecimento (ligado a Yādava e Upamanyu) e então desaparecer, os sábios de Naimiṣa, ao amanhecer, realizam o banho conclusivo de avabhṛtha do seu satra. Por ordem de Brahmā, a deusa Sarasvatī manifesta-se como um rio auspicioso de águas doces, permitindo completar o rito; os sábios banham-se e encerram o sacrifício. Em seguida, propiciam os devas com águas associadas a Śiva e, recordando acontecimentos anteriores, partem rumo a Vārāṇasī. No caminho encontram Bhāgīrathī (Gaṅgā) fluindo para o sul desde Himavat, banham-se e prosseguem. Chegando a Vārāṇasī, imergem na Gaṅgā que corre para o norte e veneram o liṅga de Avimukteśvara conforme a ordenança. Ao prepararem-se para partir, contemplam no céu um vasto tejas divino, extraordinário, brilhante como milhões de sóis e difundido em todas as direções. Numerosos siddhas pāśupatas—cobertos de cinzas e perfeitos—chegam às centenas e se fundem nessa radiância, indicando uma realização śaiva superior e a presença de um locus transcendente do poder de Śiva.
स्कन्दसरः (Skandasara) — तीर्थवर्णनम् / Description of the Skandasara Sacred Lake
O Adhyāya 41, enquadrado pela narração de Sūta, apresenta-se como uma descrição centrada num tīrtha. O capítulo inicia localizando e caracterizando o lago sagrado chamado Skandasara, vasto como um oceano, porém de águas doces, frescas, límpidas e de fácil acesso. A paisagem é descrita com detalhe: margens cristalinas, flores sazonais, lótus e plantas aquáticas, e ondas como nuvens, criando uma estética de “céu na terra”. Em seguida, o texto passa da topografia à vida ritual: munis e muni-kumāras disciplinados realizam banhos sagrados e ritos de coleta de água, com insígnias ascéticas śaivas como bhasma e tripuṇḍra, vestes brancas e conduta regulada (ācāra). Enumeram-se os recipientes e instrumentos para recolher e transportar a água (ghaṭa, kalaśa, kamaṇḍalu, vasilhas de folhas) e as motivações para obtê-la: para si, para outros e, sobretudo, para os deuses. O arco do capítulo traça espaço sacral → conduta prescrita → economia ritual da água do tīrtha, sugerindo mérito, pureza e religiosidade centrada em Śiva.