
Tema principal: restaurar e defender a ordem (ṛta) por meio da cura, da reversão do dano e da proteção das fronteiras sagrado‑sociais. Subtemas: prosperidade pela fala correta e pelo favor divino; acendimento de Agni e instalação do rito doméstico; antídoto e apaziguamento de doenças com ervas investidas de poder; repulsão da feitiçaria (kṛtyā-pratiṣedha) e de forças hostis; expiação e restituição por grave transgressão social; proteção da propriedade bramânica e da pureza comunitária.
AV 5.11 é um hino paustika de «sampat-karman» que busca a conclusão bem-sucedida de um rito e a chegada constante da abundância (rādhas) pelo favor de Varuṇa. A prosperidade é apresentada como fruto da fala correta (stotra), da dádiva correta (dakṣiṇā, especialmente a vaca malhada Pṛśnī) e da supervisão discernente de Varuṇa, que faz com que o ritual «assente» corretamente no mundo.
Este hino é uma liturgia de Agni em estilo Ṛgvedico, inserida no Atharvaveda, destinada a acender Agni como Jātavedas e a instalá-lo na morada humana como Hotṛ e mensageiro divino. Ao invocar Agni juntamente com os Vasus e alinhar o rito com ṛta, assegura que as oferendas sejam eficazmente «levadas» aos deuses, que o ritual transcorra sem obstáculos e que prosperidade e ordem se acumulem para o patrono.
AV 5.13 é um encanto bhaiṣajya antiveneno que confronta o veneno (viṣa) como uma força hostil inteligente, ligada por parentesco, e o constrange a afrouxar e partir. Ao nomear as formas e os agentes personificados do veneno (p. ex., Āligī, Viligī; «negro», «castanho», «sem água» etc.), o hino transforma o saber em domínio, «desatando» a vítima como se solta a corda do arco. A autoridade soberana e desatadora de Varuṇa garante a expulsão do veneno, esteja ele incrustado, não incrustado ou aderente.
AV 5.14 é um hino de kṛtyā-pratiṣedha que trata a feitiçaria hostil (kṛtyā) como uma força apreensível e transferível, e lhe ordena que se retire da pessoa afligida. Seu poder central é a reversão: o encanto é apreendido, redirecionado e instalado «face a face» sobre o agente original (kartṛ), de modo que o dano ricocheteia de volta ao seu remetente.
AV 5.15 é um encanto de cura e proteção que vivifica a erva medicinal (Oṣadhi) como aliada consciente, comissionando-a a repelir a doença, forças hostis e a desventura. Por meio de uma amplificação numérica conduzida por refrões (2/20, 4/40, 8/80 etc.) e do pedido repetido de «madhu» (doçura melíflua), o hino visa restaurar o paciente a um estado agradável e sustentador da vida. Ṛta funciona como o fundamento legitimador do hino: a erva é declarada «nascida de Ṛta» e, portanto, de eficácia segura.
Este hino de cura é uma capacitação gradual de um agente medicinal: ele é interpelado como um «touro» de força crescente e como seiva (rasa) que corre, para que apazigue a aflição chamada vṛṣa-roga. Por meio de fala identificatória («se tu és…»), o remédio é tornado potente, culminando numa resolução refrescante e purificadora em que o agente se torna «doador de águas» (apodaka), restaurando o equilíbrio e a vitalidade.
AV 5.17 é um hino expiatório e de estabilização do reino que sacraliza a restituição: a tomada injusta da esposa de um brâmane é desfeita ao devolvê-la, fazendo com que a culpa «afunde» e se dissipe sob supervisão divina. Ao narrar agentes exemplares, divinos e régios (Soma, Mitra–Varuṇa, Agni, os reis que se mantêm em satya) e culminar no culto a Urugāya (Viṣṇu), o sukta converte uma reparação sociojurídica numa purificação cósmica que restaura a ūrj — a vitalidade sustentadora da Terra — à comunidade.
AV 5.18 é um hino admoestatório da tradição atharvânica que resguarda a propriedade bramânica —sobretudo a vaca do brâmane— ao declará-la ritualmente incomestível e perigosa para quem ousar tomá-la. Dirigindo-se diretamente ao rei/rajanya, enquadra a transgressão como quebra do Brahman (lei sacral), testemunhada pelos deuses, e, de modo dissuasório, «arma» o brahma-tejas, que se volta contra o infrator como veneno, como pele e como flecha.
AV 5.19 é um hino de sanção social e ritual que estigmatiza o brahmajya (agressor/assassino de um brâmane) como poluído e inapto para a prosperidade e a purificação da comunidade. Ao invocar as Águas (Āpas) como o grande meio de limpeza e os Devas como árbitros, ele nega ao culpado a «parte das águas», isto é, o acesso aos ritos, à boa sorte e à reintegração. A força do hino está em tornar o pecado visível e consequente: uma brahmahatyā personificada e monstruosa é descrita como abalando o mundo, impondo exclusão e/ou expiação.
AV 5.20 é um encanto marcial que sacraliza o tambor de guerra (dundubhi) como uma arma de trovão viva, nascida da madeira, cujo bramido quebra o ânimo do inimigo e dispersa as fileiras hostis. Ao equiparar o som do tambor à reverberação cósmica e à força de combate de Indra, o hino visa tornar o próprio lado destemido, coeso e vitorioso, enquanto o adversário é abalado, confundido e posto em debandada.
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