
O Adhyāya 54 inicia com Brahmā narrando como os Saptarṣis se dirigem a Himagiri (Himālaya), instando-o a organizar para sua filha, a deusa Girijā, uma jornada/saída cerimonial apropriada. Himagiri, compreendendo a intensidade da separação (viraha) e comovido por grande afeição, entristece-se por um momento, mas recupera a compostura e consente. Ele envia uma mensagem a Menā, que responde com alegria e tristeza misturadas e se dispõe a agir. Menā, conforme a śruti e os costumes da linhagem, organiza diversas festividades e ritos, e adorna Girijā com vestes finas, joias e um conjunto completo de ornamentos digno de majestade real. Percebendo a intenção de Menā, uma virtuosa esposa de brâmane (dvija-patnī) assume a instrução de Girijā, ensinando-lhe o voto supremo do pātivratya. Em seguida, profere uma exortação centrada no dharma: pede a Girijā que escute com afeto palavras que aumentam o dharma e trazem alegria neste mundo e no além. Ela louva a mulher pātivratā como singularmente digna de veneração, capaz de purificar os mundos e destruir acúmulos de pecado. Afirma ainda que a esposa que serve o marido com amor—considerando-o Parameśvara—goza de prosperidades mundanas e, por fim, alcança com ele o estado de Śiva. O capítulo inteiro (até o verso 84) prossegue nesse arco didático e cerimonial, unindo preparação ritual e instrução normativa para enquadrar o destino nupcial-divino iminente no dharma e na devoção disciplinada.
Verse 1
ब्रह्मोवाच । अथ सप्तर्षयस्ते च प्रोचुर्हिमगिरीश्वरम् । कारय स्वात्मजा देव्या यात्रामद्योचितां गिरे
Brahmā disse: Então aqueles Sete Sábios dirigiram-se ao senhor do Himālaya, dizendo: “Ó rei das montanhas, providencia já a jornada de peregrinação, digna e apropriada, para tua própria filha, a Deusa.”
Verse 2
इति श्रुत्वा गिरीशो हि बुद्ध्वा तद्विरहम्परम् । विषण्णोभून्महाप्रेम्णा कियत्कालं मुनीश्वर
Ó senhor dos sábios, ao ouvir isso e compreender o extremo daquela separação, Girīśa (o Senhor Śiva) entristeceu-se; por seu grande amor, permaneceu assim por algum tempo.
Verse 3
कियत्कालेन सम्प्राप्य चेतनां शैलराट् ततः । तथास्त्विति गिरामुक्त्वा मेनां सन्देशमब्रवीत्
Depois de algum tempo, o rei das montanhas (Himālaya) recobrou a consciência. Dizendo: «Assim seja», e dando seu assentimento em palavras, transmitiu então uma mensagem a Menā.
Verse 4
शैलसन्देशमाकर्ण्य हर्षशोकवशा मुने । मेना संयापयामास कर्त्तुमासीत्समुद्यता
Ó sábio, ao ouvir a mensagem enviada pela Montanha (Himālaya), Menā—tomada alternadamente por júbilo e tristeza—começou a acalmar o próprio coração e ficou pronta para agir conforme a circunstância exigisse.
Verse 5
श्रुतिस्वकुलजाचारं चचार विधिवन्मुने । उत्सवम्विविधन्तत्र सा मेना क्षितिभृत्प्रिया
Ó sábio, Menā, a amada esposa do rei das montanhas, seguiu devidamente as ordenanças sagradas dos Vedas e os justos costumes de sua linhagem; e ali realizou, conforme o rito, diversos festivais auspiciosos.
Verse 6
गिरिजाम्भूषयामास नानारत्नांशुकैर्वरैः । द्वादशाभरणैश्चैव शृंगारैर्नृपसम्मितैः
Ele adornou Girijā (Pārvatī) com vestes excelentes incrustadas de muitas joias, e também com doze ornamentos—enfeites dispostos com primor, dignos de uma rainha.
Verse 7
मेनामनोगम्बुद्ध्वा साध्व्येका द्विजकामिनी । गिरिजां शिक्षयामास पातिव्रत्यव्रतम्परम्
Compreendendo a intenção nobre e sincera de Menā, aquela senhora virtuosa—zelosa pelo bem dos dvija—começou a instruir Girijā no voto supremo de fidelidade devocional ao esposo (pātivratya).
Verse 8
द्विजपत्न्युवाच । गिरिजे शृणु सुप्रीत्या मद्वचो धर्मवर्द्धनम् । इहामुत्रानन्दकरं शृण्वतां च सुखप्रदम्
A esposa do brâmane disse: “Ó Girijā, ouve com alegre atenção as minhas palavras, que fazem crescer o dharma. Elas concedem júbilo neste mundo e no outro, e dão felicidade a todos os que as escutam.”
Verse 9
धन्या पतिव्रता नारी नान्या पूज्या विशेषतः । पावनी सर्वलोकानां सर्वपापौघनाशिनी
Bem-aventurada é a mulher devotada ao esposo; nenhuma outra é, de modo especial, mais digna de veneração. Ela purifica todos os mundos e destrói a torrente acumulada de pecados.
Verse 10
सेवते या पतिम्प्रेम्णा परमेश्वरवच्छिवे । इह भुक्त्वाखिलाम्भोगान न्ते पत्या शिवां गतिम्
Ó Śivā! Aquela que serve o marido com amorosa devoção, considerando-o como o Senhor Supremo, desfruta neste mundo de todas as realizações dignas; e, ao fim, junto do esposo, alcança o estado auspicioso que conduz a Śiva.
Verse 11
पतिव्रता च सावित्री लोपामुद्रा ह्यरुन्धती । शाण्डिल्या शतरूपानुसूया लक्ष्मीस्स्वधा सती
Sāvitrī, Lopāmudrā e Arundhatī são afamadas como pativratās, esposas de fidelidade consagrada. Do mesmo modo, Śāṇḍilyā, Śatarūpā, Anasūyā, Lakṣmī, Svadhā e Satī são celebradas pela constância e pela pureza de conduta.
Verse 12
संज्ञा च सुमतिश्श्रद्धा मेना स्वाहा तथैव च । अन्या बह्व्योऽपि साध्व्यो हि नोक्ता विस्तरजाद्भयात्
Saṁjñā, Sumati, Śraddhā, Menā e, do mesmo modo, Svāhā — estas mulheres virtuosas foram nomeadas. Muitas outras senhoras justas não são mencionadas, por receio de que o relato se torne demasiado extenso.
Verse 13
पातिव्रत्यवृषेणैव ता गतास्सर्वपूज्यताम् । ब्रह्मविष्णुहरैश्चापि मान्या जाता मुनीश्वरैः
Pelo próprio poder de sua firme devoção conjugal (pātivratya), elas alcançaram o estado de serem dignas de veneração por todos. Até Brahmā, Viṣṇu e Hara (Śiva), juntamente com os grandes sábios, vieram honrá-las.
Verse 14
सेव्यस्त्वया पतिस्तस्मात्सर्वदा शङ्करः प्रभुः । दीनानुग्रहकर्ता च सर्वसेव्यस्सतां गतिः
Portanto, teu Senhor e esposo, Śaṅkara —o Mestre soberano— deve ser servido por ti sempre. Ele concede graça aos aflitos, é digno de serviço por todos, e é o refúgio e o fim supremo dos virtuosos.
Verse 15
महान्पतिव्रताधर्म्मश्श्रुतिस्मृतिषु नोदितः । यथैष वर्ण्यते श्रेष्ठो न तथान्योऽस्ति निश्चितम्
Este grande dharma da pativratā — a fidelidade consagrada ao esposo — não é prescrito nas Śruti e nas Smṛti do mesmo modo. Tal como aqui é descrito como o mais excelente, certamente não há outro dharma que lhe seja igual.
Verse 16
भुंज्याद्भुक्ते प्रिये पत्यौ पातिव्रत्यपरायणा । तिष्ठेत्तस्मिंञ्छिवे नारी सर्वथा सति तिष्ठति
A esposa devota, inteiramente dedicada ao voto de pativratā, deve comer somente depois que o amado esposo tiver comido. Estabelecida em Śiva presente no marido, a mulher permanece no estado de Satī em todos os aspectos—firme na virtude e na auspiciosidade.
Verse 17
स्वप्यात्स्वपिति सा नित्यं बुध्येत्तु प्रथमं सुधीः । सर्वदा तद्धितं कुर्यादकैतवगतिः प्रिया
Esteja ela dormindo ou desperta, o sábio deve sempre ser o primeiro a despertar e permanecer atento. Em todo tempo, deve agir pelo bem de sua amada, cuja natureza e conduta são livres de engano.
Verse 18
अनलंकृतमात्मानन्दर्शयेन्न क्वचिच्छिवे । कार्यार्थम्प्रोषिते तस्मिन्भवेन्मण्डनवर्जिता
Ó Śivā (Pārvatī), quando o marido se ausenta por algum dever, a esposa virtuosa não deve mostrar-se em lugar algum adornada; deve permanecer sem enfeites.
Verse 19
पत्युर्नाम न गृह्णीयात् कदाचन पतिव्रता । आक्रुष्टापि न चाक्रोशेत्प्रसीदेत्ताडितापि च । हन्यतामिति च ब्रूयात्स्वामिन्निति कृपां कुरु
A esposa devotada não deve jamais proferir o nome do marido de modo desrespeitoso. Mesmo insultada, não deve insultar de volta; mesmo golpeada, deve permanecer branda e conciliadora. Se ele disser: “Matem-na”, ainda assim ela suplicará: “Meu senhor, tende compaixão.”
Verse 20
आहूता गृह कार्याणि त्यक्त्वा गच्छेत्तदन्तिकम् । सत्वरं साञ्जलिः प्रीत्यां सुप्रणम्य वदेदिति
Quando for chamado, deve deixar as tarefas domésticas e ir imediatamente à presença dessa pessoa venerável. Depressa, com as mãos postas e com devoção amorosa, deve inclinar-se bem e então falar como convém.
Verse 21
किमर्थं व्याहृता नाथ स प्रसादो विधीयताम् । तदादिष्टा चरेत्कर्म सुप्रसन्नेन चेतसा
«Com que propósito me dirigiste assim, ó Senhor? Concede-me essa graça. Por Teu comando, cumprirei a ação prescrita, com o coração inteiramente sereno por Teu favor.»
Verse 22
चिरन्तिष्ठेन्न च द्वारे गच्छेन्नैव परालये । आदाय तत्त्वं यत्किंचित्कस्मै चिन्नार्पयेत्क्वचित्
Não se deve demorar muito à porta, nem ir aos aposentos interiores e privados de outrem. Tendo tomado posse de algum ponto essencial ou verdade confidencial, não se deve entregá-lo em lugar algum a qualquer pessoa.
Verse 23
पूजोपकरणं सर्वमनुक्ता साधयेत्स्वयम् । प्रतीक्षमाणावसरं यथाकालोचितं हितम्
Sem que lhe fosse ordenado, ela mesma preparou todos os requisitos do culto, aguardando com paciência a ocasião oportuna—fazendo o que era benéfico e adequado ao tempo certo.
Verse 24
न गच्छेत्तीर्थयात्रां वै पत्याज्ञां न विना क्वचित् । दूरतो वर्जयेत्सा हि समाजोत्सवदर्शनम्
Ela não deve empreender peregrinação aos tīrthas sagrados em lugar algum sem a permissão do marido. De fato, deve também manter-se bem afastada da visão de ajuntamentos públicos e assembleias festivas.
Verse 25
तीर्थार्थिनी तु या नारी पतिपादोदकम्पिबेत् । तस्मिन्सर्वाणि तीर्थानि क्षेत्राणि च न संशयः
A mulher que busca o mérito da peregrinação—se beber a água que lavou os pés de seu marido—então, sem dúvida, nesse ato estão contidos todos os tīrthas e todos os santuários sagrados (kṣetras).
Verse 26
भुंज्यात्सा भर्तुरुच्छिष्टमिष्टमन्नादिकं च यत् । महाप्रसाद इत्युक्त्वा पतिदत्तम्पतिव्रता
A esposa devotada (pativratā) deve partilhar o alimento e o que mais restar da refeição do marido, considerando-o “mahāprasāda”, e assim receber com reverente devoção o que o esposo lhe concede.
Verse 27
अविभज्य न चाश्नीयाद्देव पित्रतिथिष्वपि । परिचारकवर्गेषु गोषु भिक्षुकुलेषु च
Não se deve comer sem antes fazer a devida distribuição, mesmo quando as oferendas são para os Devas, os Pitṛs (antepassados) e os hóspedes. Deve-se também repartir com justiça (alimento e serviço) entre servos e dependentes, às vacas e à comunidade de mendicantes.
Verse 28
संयतोपस्करा दक्षा हृष्टा व्ययपराङ्मुखी । भवेत्सा सर्वदा देवी पतिव्रतपरायणा
Ela deve manter bem regulados os meios e bens da casa, ser capaz e diligente, permanecer alegre e afastar-se do gasto desperdiçador. Assim, essa nobre senhora torna-se sempre dedicada ao voto de fidelidade ao esposo (pativratā).
Verse 29
कुर्यात्पत्यननुज्ञाता नोपवासव्रतादिकम् । अन्यथा तत्फलं नास्ति परत्र नरकम्व्रजेत्
A esposa não deve assumir jejuns, votos (vrata) e observâncias semelhantes sem a permissão do marido. Caso contrário, seu fruto se perde e, no além, ela iria ao inferno.
Verse 30
सुखपूर्वं सुखासीनं रममाणं यदृच्छया । आन्तरेष्वपि कार्येषु पतिं नोत्थापयेत्क्वचित्
Quando o marido está sentado com alegria e conforto, deleitando-se naturalmente, a esposa jamais deve fazê-lo levantar-se, nem mesmo por tarefas domésticas internas.
Verse 31
क्लीबम्वा दुरवस्थम्वा व्याधितं वृद्धमेव च । सुखितं दुःखितं वापि पतिमेकं न लंघयेत्
Quer o marido seja impotente, caído na desventura, doente ou idoso—quer esteja alegre ou aflito—a esposa não deve transgredir o único esposo a quem se consagrou, mas permanecer fiel somente a ele.
Verse 32
स्त्रीधर्मिणी त्रिरात्रं च स्वमुखं नैव दर्शयेत् । स्ववाक्यं श्रावयेन्नापि यावत्स्नानान्न शुध्यति
A mulher, durante o seu período mensal, por três noites, não deve mostrar o rosto nem fazer ouvir suas palavras, até purificar-se pelo banho.
Verse 33
सुस्नाता भर्तृवदनमीक्षेतान्यस्य न क्वचित् । अथवा मनसि ध्यात्वा पतिम्भानुम्विलोकयेत
Depois de se banhar bem, ela deve olhar apenas para o rosto do marido e jamais para outro lugar. Ou então, tendo meditado no seu Senhor (o esposo) no coração, deve contemplar o Sol, mantendo o marido como objeto interior de contemplação.
Verse 34
हरिद्राकुङ्कुमं चैव सिन्दूरं कज्जलादिकम् । कूर्पासकञ्च ताम्बूलं मांगल्याभरणादिकम्
Cúrcuma e kuṅkuma, sindūra (vermelhão), kohl e semelhantes; algodão também; preparos de tāmbūla (betel); e ornamentos auspiciosos e afins—tudo isso deve ser disposto/oferecido nas observâncias sagradas do culto a Devī, realizadas em bhakti ao lar divino de Śiva.
Verse 35
केशसंस्कारकबरीकरकर्णादिभूषणम् । भर्तुरायुष्यमिच्छन्ती दूरयेन्न पतिव्रता
A esposa devotada (pativratā), desejando a longevidade do marido, não deve entregar-se a penteados e adornos excessivos—como a kabarī (trança/coque), ornamentos das mãos, das orelhas e semelhantes—mas manter tais enfeites à distância.
Verse 36
न रजक्या न बन्धक्या तथा श्रवणया न च । न च दुर्भगया क्वापि सखित्वं कारयेत्क्वचित्
Nunca, em tempo algum, se deve firmar laço de amizade com mulher de conduta impura, nem com a enganadora, nem com aquela conhecida apenas por boatos e mexericos; e em lugar nenhum se cultive intimidade com quem é de má sorte ou de disposição inauspiciosa.
Verse 37
पतिविद्वेषिणीं नारीं न सा संभाषयेत्क्वचित् । नैकाकिनी क्वचित्तिष्ठेन्नग्ना स्नायान्न च क्वचित्
Que ela jamais converse com uma mulher que nutre ódio pelo próprio marido. Nem deve permanecer em lugar algum totalmente sozinha; e nunca deve banhar-se nua em tempo algum.
Verse 38
नोलूखले न मुसले न वर्द्धन्यां दृषद्यपि । न यंत्रके न देहल्यां सती च प्रवसेत्क्वचित्
Uma mulher virtuosa não deve sentar-se nem permanecer sobre o lagar de óleo, o pilão, o cesto de joeirar, nem mesmo sobre a pedra de moer; nem sobre uma prensa/máquina, nem sobre o umbral—não deve ficar em tais lugares em tempo algum.
Verse 39
विना व्यवायसमयं प्रागल्भ्यं नाचरेत्क्वचित् । यत्रयत्र रुचिर्भर्तुस्तत्र प्रेमवती भवेत्
Exceto no tempo apropriado para a união conjugal, ela jamais deve agir com ousadia ou desenvoltura. Onde quer que se incline o agrado do marido, ali seja ela amorosa e devotada.
Verse 40
हृष्टाहृष्टे विषण्णा स्याद्विषण्णास्ये प्रिये प्रिया । पतिव्रता भवेद्देवी सदा पतिहितैषिणी
Quando o esposo amado não está alegre, ela deve entristecer-se; quando seu rosto está abatido, que se torne a mais querida ao consolá-lo. Assim, a Deusa é verdadeiramente pativratā—sempre buscando o bem do marido—mostrando que o serviço devocional ao Pati (o Senhor) é um voto sagrado que firma o dharma e purifica o coração rumo à libertação (moksha).
Verse 41
एकरूपा भवेत्पुण्या संपत्सु च विपत्सु च । विकृतिं स्वात्मनः क्वापि न कुर्याद्धैर्य्यधारिणी
A mulher virtuosa deve permanecer de ânimo igual na prosperidade e na adversidade. Firme na fortaleza, não deve jamais, em situação alguma, permitir que se deturpe a sua própria natureza interior.
Verse 42
सर्पिर्लवणतैलादिक्षयेपि च पतिव्रता । पतिं नास्तीति न ब्रूयादायासेषु न योजयेत्
Ainda que se esgotem o ghee, o sal, o óleo e outras provisões do lar, a esposa devotada (pativratā) não deve dizer: “Meu marido não serve / não está para mim”. Nem deve constrangê-lo a labores extenuantes; assim preserva a harmonia e o dharma da casa.
Verse 43
विधेर्विष्णोर्हराद्वापि पतिरेकोधिको मतः । पतिव्रताया देवेशि स्वपतिश्शिव एव च
Mesmo entre Brahmā (o Ordenador), Viṣṇu ou Hara, considera-se que o esposo, e só ele, é o supremo. Ó Deusa, para a esposa casta e devota, o seu próprio marido é, em verdade, o próprio Śiva.
Verse 44
व्रतोपवासनियमम्पतिमुल्लंघ्य या चरेत् । आयुष्यं हरते भर्तुर्मृता निरयमृच्छति
A mulher que, transgredindo a autoridade do marido, assume por vontade própria votos (vrata), jejuns e observâncias religiosas, diz-se que diminui a longevidade do esposo; e, após a morte, cai em estados infernais. Assim, a disciplina deve ser praticada em harmonia com o dharma conjugal.
Verse 45
उक्ता प्रत्युत्तरन्दद्याद्या नारी क्रोधतत्परा । सरमा जायते ग्रामे शृगाली निर्जने वने
A mulher que, ao ser interpelada, devolve resposta cortante e permanece presa à ira, diz-se que nasce como cão na aldeia e como chacal na mata solitária.
Verse 46
उच्चासनं न सेवेत न व्रजेद्दुष्टसन्निधौ । न च कातरवाक्यानि वदेन्नारी पतिं क्वचित्
A esposa não deve tomar assento mais alto que o do marido, nem ir à companhia dos maus. E jamais deve dirigir ao esposo palavras tímidas e vacilantes, em tempo algum.
Verse 47
अपवादं न च ब्रूयात्कलहं दूरतस्त्यजेत् । गुरूणां सन्निधौ क्वापि नोच्चैर्ब्रूयान्न वै हसेत्
Não se deve proferir calúnia e deve-se manter bem longe da contenda. Na presença dos Gurus, em lugar algum se deve falar em voz alta, nem entregar-se ao riso.
Verse 48
बाह्यादायान्तमालोक्य त्वरितान्नजलाशनैः । ताम्बूलैर्वसनैश्चापि पादसम्वाहनादिभिः
Ao vê-lo voltar de fora, apressaram-se em servi-lo: oferecendo alimento e água, apresentando o betel (tâmbula), providenciando vestes e atendendo-o com massagem nos pés e outros atos de hospitalidade devocional.
Verse 49
तथैव चाटुवचनैः स्वेदसन्नोदनैः परैः । या प्रियं प्रीणयेत्प्रीता त्रिलोकी प्रीणता तया
Do mesmo modo, com palavras doces e afetuosas e com outros serviços íntimos—como aliviar o suor—ela que, estando contente, agrada ao seu amado: por meio dela, os três mundos ficam satisfeitos.
Verse 50
मितन्ददाति जनको मितं भ्राता मितं सुतः । अमितस्य हि दातारं भर्तारम्पूजयेत्सदा
O pai dá apenas com medida; o irmão dá apenas com medida; o filho também dá apenas com medida. Por isso, deve-se sempre venerar o esposo—aquele que se torna o doador sem limites e o sustentador firme.
Verse 51
भर्ता देवो गुरुर्भर्ता धर्मतीर्थव्रतानि च । तस्मात्सर्वम्परित्यज्य पतिमेकं समर्चयेत्
Para a esposa, o marido deve ser considerado sua deidade; o marido é seu Guru; e o marido é seu dharma, suas peregrinações e seus votos. Portanto, deixando todo o resto, ela deve adorar somente o marido com reverência plena.
Verse 52
या भर्तारम्परित्यज्य रहश्चरति दुर्मतिः । उलूकी जायते क्रूरा वृक्ष कोटरशायिनी
A mulher de entendimento perverso que abandona o marido e anda às ocultas, em nascimento futuro renasce como uma coruja fêmea cruel, que habita as cavidades das árvores.
Verse 53
ताडिता ताडितुं चेच्छेत्सा व्याघ्री वृषदंशिका । कटाक्षयति यान्यम्वै केकराक्षी तु सा भवेत्
Se uma mulher, ao ser golpeada, deseja golpear de volta, é conhecida como “tigresa” — aquela que morde como um touro. Mas a que lança um olhar de esguelha a outro é de fato chamada “kekarākṣī” (a de olhos errantes ou cruzados).
Verse 54
या भर्तारम्परित्यज्य मिष्टमश्नाति केवलम् । ग्रामे वा सूकरी भूयाद्वल्गुर्वापि स्वविड्भुजा
A mulher que abandona o marido e vive apenas para os doces prazeres renasce numa aldeia como porca; ou então como criatura vil, que remexe e se alimenta da própria imundície.
Verse 55
या तुकृत्य प्रियम्ब्रूयान्मूका सा जायते खलु । या सपत्नी सदेर्ष्येत दुर्भगा सा पुनः पुनः
Mas a mulher que, recorrendo a um rito nocivo (kṛtyā), tenta fazer um homem falar docemente, nasce de fato muda. E aquela que inveja continuamente uma coesposa torna-se desditosa vez após vez.
Verse 56
दृष्टिम्विलुप्य भर्त्तुर्या कश्चिदन्यं समीक्षते । काणा च विमुखी चापि कुरूपापि च जायते
Se uma mulher, desviando-se do marido, lança o olhar sobre outro homem, perde a retidão da visão; pode tornar-se de um só olho, ter o rosto desviado (torto) e até ficar de aparência disforme.
Verse 57
जीवहीनो यथा देहः क्षणादशुचिताम्व्रजेत् । भर्तृहीना तथा योषित्सुस्नाताप्यशुचिस्सदा
Assim como um corpo, privado de vida, torna-se impuro num instante, do mesmo modo a mulher sem marido é tida como sempre impura, ainda que tenha tomado bom banho.
Verse 58
सा धन्या जननी लोके स धन्यो जनकः पिता । धन्यस्स च पतिर्यस्य गृहे देवी पतिव्रता
Bendita neste mundo é essa mãe; bendito é o pai que a gerou. E bendito também é o marido em cuja casa a Deusa habita como esposa pativratā, firme no dharma e amorosa no serviço ao seu senhor.
Verse 59
पितृवंश्याः मातृवंश्याः पतिवंश्यास्त्रयस्त्रयः । पतिव्रतायाः पुण्येन स्वर्गे सौख्यानि भुंजते
Pelo mérito do pativratā-dharma da esposa devota, três gerações da linhagem paterna, três da materna e três da linhagem do marido desfrutam das alegrias celestes em Svarga.
Verse 60
शीलभङ्गेन दुर्वृत्ताः पातयन्ति कुलत्रयम् । पितुर्मातुस्तथा पत्युरिहामुत्रापि दुःखिताः
Pela quebra da reta conduta, os maus e depravados fazem cair três linhagens na ruína; e tornam-se causa de tristeza para o pai, a mãe e o esposo—neste mundo e também no além.
Verse 61
पतिव्रतायाश्चरणो यत्र यत्र स्पृशेद्भुवम् । तत्र तत्र भवेत्सा हि पापहन्त्री सुपावनी
Onde quer que o pé de uma esposa casta e devotada ao marido (pativratā) toque a terra, ali mesmo esse lugar se torna supremamente purificador, pois ela é de fato destruidora do pecado e santificadora excelsa.
Verse 62
विभुः पतिव्रतास्पर्शं कुरुते भानुमानपि । सोमो गन्धवहश्चापि स्वपावित्र्याय नान्यथा
Esse Senhor que tudo permeia (Vibhu) faz até o Sol buscar o toque de uma pativratā; a Lua e o Vento também o fazem—não por outro motivo, mas para participar de sua santidade purificadora.
Verse 63
आपः पतिव्रतास्पर्शमभिलष्यन्ति सर्वदा । अद्य जाड्यविनाशो नो जातस्त्वद्यान्यपावनाः
As águas anseiam sempre pelo toque de uma esposa pativratā, fiel e devotada. Hoje a nossa torpeza foi destruída, pois por ti fomos purificados.
Verse 64
भार्या मूलं गृहस्थास्य भार्या मूलं सुखस्य च । भार्या धर्मफलावाप्त्यै भार्या सन्तानवृद्धये
A esposa é o próprio fundamento da vida do chefe de família; é também o fundamento da felicidade. Pela esposa alcançam-se os frutos do dharma, e por ela a linhagem se amplia.
Verse 65
गृहे गृहे न किं नार्य्यो रूपलावण्यगर्विताः । परम्विश्वेशभक्त्यैव लभ्यते स्त्री पतिव्रता
Em cada lar, não há mulheres orgulhosas de sua beleza e encanto? Contudo, a verdadeira pativratā, a esposa plenamente fiel, só é alcançada pela devoção suprema a Parama-Viśveśa (o Senhor Śiva), Soberano do universo.
Verse 66
परलोकस्त्वयं लोको जीयते भार्य या द्वयम् । देवपित्रतिथीज्यादि नाभार्यः कर्म चार्हति
Este mundo e o outro são ambos sustentados pela esposa. Sem esposa, ninguém está apto a cumprir devidamente os ritos de culto aos deuses, aos ancestrais (pitṛ), aos hóspedes e aos deveres sagrados correlatos.
Verse 67
गृहस्थस्स हि विज्ञेयो यस्य गेहे पतिव्रता । ग्रस्यतेऽन्यान्प्रतिदिनं राक्षस्या जरया यथा
Só deve ser reconhecido como verdadeiro chefe de família aquele em cuja casa há uma esposa pativratā, fiel e devotada ao marido; pois ela, como uma demonesa chamada “Velhice” (Jarā), devora os outros dia após dia.
Verse 68
यथा गंगावगाहेन शरीरं पावनं भवेत् । तथा पतिव्रतां दृष्ट्वा सकलम्पावनं भवेत्
Assim como o banho no Gaṅgā torna o corpo puro, do mesmo modo, ao contemplar uma esposa pativratā, todo o ser se purifica.
Verse 69
न गङ्गाया तया भेदो या नारी पतिदेवता । उमाशिवसमौ साक्षात्तस्मात्तौ पूजयेद्बुधः
A mulher que considera o marido como sua própria divindade (pati-devatā) em nada difere da Deusa Gaṅgā. De fato, ela é diretamente igual a Umā e a Śiva; por isso, o sábio deve venerar esse casal.
Verse 70
तारः पतिश्श्रुतिर्नारी क्षमा सा स स्वयन्तपः । फलम्पतिः सत्क्रिया सा धन्यौ तौ दम्पती शिवे
No caminho sagrado de Śiva, o marido é “tāra” — o salvador — e a esposa é a própria “śruti”; ela é a tolerância, e ele é a austeridade de si. Ele é o fruto da vida, ela é a reta conduta; bem-aventurado é esse casal em Śiva.
Verse 71
एवम्पतिव्रताधर्मो वर्णितस्ते गिरीन्द्रजे । तद्भेदाञ् शृणु सुप्रीत्या सावधानतयाऽद्य मे
Assim, ó filha do Senhor das montanhas, descrevi-te o dharma da esposa devotada (pativratā). Agora, com alegria e atenta cautela, ouve hoje de mim as suas diversas divisões.
Verse 72
चतुर्विधास्ताः कथिता नार्यो देवि पतिव्रताः । उत्तमादिविभेदेन स्मरतां पापहारिकाः
Ó Deusa, as esposas devotadas (pativratās) foram assim descritas como quatro tipos, distinguidas como a mais elevada e assim por diante; para os que as recordam, tornam-se destruidoras do pecado.
Verse 73
उत्तमा मध्यमा चैव निकृष्टातिनिकृष्टिका । ब्रुवे तासां लक्षणानि सावधानतया शृणु
“(Elas são) a mais elevada, a mediana, a inferior e a muito inferior. Descreverei seus sinais distintivos; ouve com cuidadosa atenção.”
Verse 74
स्वप्नेपि यन्मनो नित्यं स्वपतिं पश्यति ध्रुवम् । नान्यम्परपतिं भद्रे उत्तमा सा प्रकीर्तिता
Mesmo em sonho, aquela cuja mente, sempre e sem falhar, contempla apenas o próprio esposo—e não o esposo de outra, ó auspiciosa—é declarada a mais elevada.
Verse 75
या पितृभ्रातृसुतवत् परम्पश्यति सद्धिया । मध्यमा सा हि कथिता शैलजे वै पतिव्रता
Ó filha da Montanha! A esposa devota, de entendimento puro e discernente, que vê outros homens como veria seu pai, seu irmão ou seu filho, é de fato declarada como de grau mediano (madhyamā) entre as pativratā.
Verse 76
बुद्ध्वा स्वधर्मं मनसा व्यभिचारं करोति न । निकृष्टा कथिता सा हि सुचरित्रा च पार्वति
Conhecendo o seu próprio dharma, ela não comete transgressão nem mesmo na mente. Tal mulher não é dita vil; em verdade, ó Pārvatī, ela é de conduta nobre e bom caráter.
Verse 77
पत्युः कुलस्य च भयाद्व्यभिचारं करोति न । पतिव्रताऽधमा सा हि कथिता पूर्वसूरिभिः
Por medo do marido e da honra de sua família, ela não comete adultério; tal mulher foi descrita pelos sábios antigos como a mais baixa espécie de pativratā.
Verse 78
चतुर्विधा अपि शिवे पापहन्त्र्यः पतिव्रताः । पावनास्सर्वलोकानामिहामुत्रापि हर्षिताः
Ó Śivā (Pārvatī), as esposas devotas—embora sejam de quatro tipos—são destruidoras do pecado. Elas santificam todos os mundos e permanecem jubilosas tanto aqui quanto na vida futura.
Verse 79
पातिव्रत्यप्रभावेणात्रिस्त्रिया त्रिसुरार्थनात् । जीवितो विप्र एको हि मृतो वाराहशापतः
Pelo poder de sua perfeita devoção de esposa, e porque aquela senhora da linhagem de Atri suplicou aos três deuses, um brāhmaṇa foi de fato trazido de volta à vida—embora tivesse morrido devido à maldição ligada a Varāha, o Javali divino.
Verse 80
एवं ज्ञात्वा शिवे नित्यं कर्तव्यम्पतिसेवनम् । त्वया शैलात्मज प्रीत्या सर्वकामप्रदं सदा
Assim, ó Śivā (Devī), tendo compreendido isto, deves sempre prestar serviço devoto ao teu esposo. Ó filha da Montanha, esse serviço feito com amor sincero torna-se eternamente o doador de todos os desejos dignos.
Verse 81
जगदम्बा महेशी त्वं शिवस्साक्षात्पतिस्तव । तव स्मरणतो नार्यो भवन्ति हि पतिव्रताः
Tu és Jagadambā, a grande Rainha (Maheśī). O próprio Śiva é, em verdade, o teu Senhor. Pela simples lembrança de ti, as mulheres tornam-se pativratā, firmes no voto de devoção e fidelidade aos seus maridos.
Verse 82
त्वदग्रे कथनेनानेन किं देवि प्रयोजनम् । तथापि कथितं मेऽद्य जगदाचारतः शिवे
Ó Deusa, que proveito há em narrar tudo isto diante de Ti? Ainda assim, ó Śivā auspiciosa, hoje eu o declarei a Ti conforme a reta conduta e a tradição do mundo.
Verse 83
ब्रह्मोवाच । इत्युक्त्वा विररामासौ द्विजस्त्री सुप्रणम्य ताम् । शिवा मुदमतिप्राप पार्वती शङ्करप्रिया
Brahmā disse: Tendo assim falado, aquela senhora brāhmaṇa prostrou-se com profunda reverência diante dela e então silenciou. Em seguida, Śivā—Pārvatī, amada de Śaṅkara—alcançou uma alegria transbordante.
The Saptarṣis’ prompting of Himālaya to arrange Girijā’s appropriate yātrā/ceremonial preparation, followed by Menā’s organization of rites and Girijā’s adornment, setting the stage for her destined marital-divine transition.
It reframes household fidelity as a Shaiva soteriology: service to the husband with Parameśvara-bhāva becomes an embodied form of bhakti that purifies karma and culminates in śiva-gati (attainment of Śiva’s state).
Girijā is presented as the ideal recipient of dharmic formation; the pātivratā is elevated as world-purifying; and Parameśvara/Śiva is invoked as the archetype through whom marital devotion is sacralized.