Adhyaya 37
Uttara BhagaAdhyaya 37164 Verses

Adhyaya 37

Devadāru (Dāruvana) Forest: The Delusion of Ritual Pride, the Liṅga Crisis, and the Teaching of Jñāna–Pāśupata Yoga

Em resposta à pergunta dos sábios, Sūta narra como Śiva, acompanhado por Viṣṇu em forma feminina, entra na floresta de Devadāru/Dāruvana para expor o apego dos rishis à ação ritual externa e ao orgulho ascético. Suas casas ficam confundidas; os sábios, irados, amaldiçoam Śiva na forma de um mendicante nu, culminando no episódio dramático do liṅga arrancado/caído e em presságios cósmicos. Alarmados, procuram Brahmā, que identifica o visitante como Mahādeva e enuncia uma teologia não sectária: Rudra permeia os três guṇa como Agni/Brahmā/Viṣṇu, e a consorte revela-se como Nārāyaṇa—afirmação vigorosa da unidade Śaiva–Vaiṣṇava. Brahmā prescreve a restauração por meio da confecção e adoração de um liṅga, da recitação do Śatarudrīya e de mantras védicos śaivas. Śiva reaparece com a Deusa; os sábios oferecem longos hinos, recebem uma teofania e pedem um caminho duradouro de culto. Śiva ensina uma hierarquia de meios: o Yoga é incompleto sem conhecimento puro (jñāna); o Sāṃkhya unido ao Yoga conduz à libertação; e o voto secreto Pāśupata é concedido aos devotos do jñāna-yoga. O capítulo encerra com a investigação contemplativa contínua, a manifestação fulgurante da Deusa, a realização da unidade Śiva–Śakti e a promessa de mérito pela recitação, abrindo para o discurso adhyātma e a prática libertadora.

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Shlokas

Verse 1

इती श्रीकूर्मपुराणे षट्साहस्त्र्यां संहितायामुपरिविभागे षट्त्रिशो ऽध्यायः ऋषय ऊचुः कथं दारुवनं प्राप्तो भगवान् गोवृषध्वजः / मोहयामास विप्रेन्द्रान् सूत वक्तुमिहार्हसि

Os sábios disseram: “Como o Senhor Bem-aventurado—cujo estandarte traz o touro—chegou à Floresta de Dāru? E como ele confundiu ali os mais eminentes brâmanes? Ó Sūta, deves narrar-nos isso aqui.”

Verse 2

सूत उवाच पुरा दारुवन् रम्ये देवसिद्धनिषेविते / सपुत्रदारा मुनयस्तपश्चेरुः सहस्रशः

Sūta disse: Outrora, na encantadora floresta de Daruvana, frequentada por deuses e seres realizados (siddhas), milhares de sábios—com seus filhos e esposas—praticavam austeridades.

Verse 3

प्रवृत्तं विविधं कर्म प्रकुर्वाणा यथाविधि / यजन्ति विविधैर्यज्ञैस्तपन्ति च महर्षयः

Empenhados nas múltiplas obras do dever, cumprindo-as segundo a regra, os grandes sábios adoravam por meio de diversos sacrifícios (yajñas) e também praticavam austeridades.

Verse 4

तेषां प्रवृत्तिविन्यस्तचेतसामथ शूलधृक् / ख्यापयन् स महादोषं ययौ दारुवनं हरः

Então Hara, o portador do tridente, vendo que suas mentes estavam fixas na atividade exterior, partiu para a Floresta de Dāru a fim de lhes expor a grande falha.

Verse 5

कृत्वा विश्वगुरुं विष्णुं पार्श्वे देवो महेश्वरः / ययौ निवृत्तविज्ञानस्थापनार्थं च शङ्करः

Tendo colocado Viṣṇu—o Mestre do mundo—ao seu lado, o Senhor Maheśvara (Śiva) partiu; e Śaṅkara foi com o propósito de estabelecer a sabedoria da renúncia, o nivṛtti-jñāna.

Verse 6

आस्थाय विपुलं वेशमूनविंशतिवत्सरः / लीलालसो महाबाहुः पीनाङ्गश्चारुलोचनः

Assumindo um traje esplêndido, ele surgiu como um jovem que ainda não completara vinte anos—de ânimo brincalhão, de braços poderosos, de membros largos e bem formados, com belos olhos.

Verse 7

चामीकरवपुः श्रीमान् पूर्णचन्द्रनिभाननः / मत्तमातङ्गगामनो दिग्वासा जगदीश्वरः

De corpo dourado e radiante de esplendor auspicioso, seu rosto era como a lua cheia; movia-se com o passo majestoso de um elefante embriagado—tendo as próprias direções por veste—ele é Jagadīśvara, o Senhor do universo.

Verse 8

कुशेशयमयीं मालं सर्वरत्नैरलङ्कृताम् / दधानो भगवानीशः समागच्छति सस्मितः

Trazendo uma guirlanda feita de flores de lótus, ornada com toda espécie de joias, o Senhor Bem-aventurado—o próprio Īśa—aproximou-se com um sorriso suave.

Verse 9

यो ऽनन्तः पुरुषो योनिर्लोकानामव्ययो हरिः / स्त्रीवेषं विष्णुरास्थाय सो ऽनुगच्छति शूलिनम्

Esse Hari imperecível—Viṣṇu—o Purusha infinito e o ventre-fonte dos mundos, assume a forma de mulher e segue Śūlin (Śiva), o portador do tridente.

Verse 10

सम्पूर्णचन्द्रवदनं पीनोन्नतपयोधरम् / शुचिस्मितं सुप्रसन्नं रणन्नुपुरकद्वयम्

Seu rosto era como a lua cheia; seu seio, pleno e elevado. Com um sorriso puro e suave e um semblante sereno e gracioso, trazia um par de tornozeleiras que tilintavam ao mover-se.

Verse 11

सुपीतवसनं दिव्यं श्यामलं चारुलोचनम् / उदारहंसचलनं विलासि सुमनोहरम्

Revestido de esplêndidas vestes amarelas, radiante e divino—de tez escura, de belos olhos—movia-se com o passo gracioso de um nobre cisne; de porte brincalhão e inteiramente encantador para a mente.

Verse 12

एवं स भगवानीशो देवदारुवने हरः / चचार हरिणा भिक्षां मायया मोहयन् जगत्

Assim, o Senhor Bem-aventurado—Īśa, Hara—vagou pela floresta de Devadāru, pedindo esmolas com um cervo como disfarce/companheiro; e, por sua māyā, confundiu o mundo inteiro.

Verse 13

दृष्ट्वा चरन्तं विश्वेशं तत्र तत्र पिनाकिनम् / मायया मोहिता नार्यो देवदेवं समन्वयुः

Ao verem o Senhor do universo, o portador do arco Pināka, vagando aqui e ali, as mulheres—enfeitiçadas pela māyā—seguiram o Deus dos deuses.

Verse 14

विस्त्रस्तवस्त्राभरणास्त्यक्त्वा लज्जां पतिव्रताः / सहैव तेन कामार्ता विलासिन्यश्चरन्तिहि

Com as vestes e ornamentos em desalinho, lançando fora o pudor—ainda que presas ao voto da esposa fiel—essas mulheres amantes do deleite, atormentadas pelo desejo, vagavam em galanteio junto dele, de fato.

Verse 15

ऋषीणां पुत्रका ये स्युर्युवानो जितमानसाः / अन्वगच्छन् हृषीकेशं सर्वे कामप्रपीडिताः

Os jovens filhos dos ṛṣis—ainda que disciplinados e senhores da mente—seguiram Hṛṣīkeśa, o Senhor dos sentidos; todos, oprimidos pela força do desejo.

Verse 16

गायन्ति नृत्यन्ति विलासबाह्या नारीगणा मायिनमेकमीशम् / दृष्ट्वा सपत्नीकमतीवकान्त- मिच्छन्त्यथालिङ्गनमाचरन्ति

Cantando e dançando com gestos brincalhões, os grupos de mulheres viram o único Senhor supremo—Īśvara, o maravilhoso Encantador que opera pela māyā. Mesmo com sua Consorte ao lado, Ele se mostrava de beleza exquisita; e, tomadas de anseio, desejaram abraçá‑lo e assim o fizeram.

Verse 17

पदे निपेतुः स्मितमाचरन्ति गायन्ति गीतानि मुनीशपुत्राः / आलोक्य पद्मापतिमादिदेवं भ्रूभङ्गमन्ये विचरन्ति तेन

Alguns caíram a seus pés; outros sorriram em reverência jubilosa; os filhos dos grandes sábios cantaram hinos. E, ao contemplarem Padmāpati—o Deus Primordial—outros andavam de um lado a outro com as sobrancelhas cerradas, tomados por aquela visão avassaladora.

Verse 18

आसामथैषामपि वासुदेवो मायी मुरारिर्मनसि प्रविष्टः / करोति भोगान् मनसि प्रवृत्तिं मायानुभूयन्त इतिव सम्यक्

Também para esses seres, Vāsudeva—Murāri, o portador da Māyā—ao entrar na mente, faz surgir as experiências (bhoga) e o movimento do pensamento para fora. Assim, por assim dizer, eles vivenciam a Māyā em plena conformidade com o seu modo próprio de agir.

Verse 19

विभाति विश्वामरभूतभर्ता स माधवः स्त्रीगणमध्यविष्टः / अशेषशक्त्यासनसंनिविष्टो यथैकशक्त्या सह देवदेवः

Mādhava—sustentáculo do mundo inteiro, dos deuses e de todos os seres—resplandece, sentado no meio das hostes de Śaktis. Firmado no trono de poderes sem limite, como o Deus dos deuses que permanece com a única Śakti suprema.

Verse 20

करोति नृत्यं परमप्रभावं तदा विरूढः पुनरेव भूयः / ययौ समारुह्य हरिः स्वभावं तदीशवृत्तामृतमादिदेवः

Então executou uma dança de supremo poder; e, erguendo-se de novo, Hari—o Deus Primordial—ascendeu ao seu estado natural e partiu, deixando como néctar o relato da conduta divina do Senhor.

Verse 21

दृष्ट्वा नारीकुलं रुद्रं पुत्राणामपि केशवम् / मोहयन्तं मुनिश्रेष्ठाः कोपं संदधिरे भृशम्

Ao verem Rudra enfeitiçando o grupo das mulheres, e Keśava (Viṣṇu) iludindo até mesmo os próprios filhos delas, os mais excelsos sábios inflamaram-se de ira intensa.

Verse 22

अतीव परुषं वाक्यं प्रोचुर्देवं कपर्दिनम् / शेषुश्च शापैर्विविधैर्मायया तस्य मोहिताः

Proferiram palavras duríssimas ao deus Kapardin (Śiva); e os demais também—enfeitiçados por sua Māyā—investiram contra ele com diversas maldições.

Verse 23

तपांसि तेषां सर्वेषां प्रत्याहन्यन्त शङ्करे / यथादित्यप्रकाशेन तारका नभसि स्थिताः

Diante de Śaṅkara, as austeridades de todos eles foram tornadas sem vigor—como as estrelas no céu, ofuscadas pelo fulgor do sol.

Verse 24

ते भग्नतपसो विप्राः समेत्य वृषभध्वजम् / को भवानिति देवेशं पृच्छन्ति स्म विमोहिताः

Aqueles sábios brāhmaṇas, com suas austeridades desfeitas, aproximaram-se do Senhor do estandarte do Touro (Śiva) e, aturdidos, perguntaram ao Soberano dos deuses: “Quem és tu?”

Verse 25

सो ऽब्रवीद् भगवानीशस्तपश्चर्तुमिहागतः / इदानीं भार्यया देशे भवद्भिरिह सुव्रताः

Então o Senhor Bem-aventurado, Īśvara, disse: “Vim aqui para praticar austeridade. Agora, ó vós de excelentes votos, permanecerei nesta terra juntamente com minha esposa, na vossa própria presença.”

Verse 26

तस्य ते वाक्यमाकर्ण्य भृग्वाद्या मुनिपुङ्गवाः / ऊचुर्गृहीत्वा वसनं त्यक्त्वा भार्यां तपश्चर

Ao ouvirem tuas palavras, os mais excelsos sábios—Bhṛgu e os demais—disseram: «Toma a veste do asceta, renuncia à esposa e pratica o tapas (austeridade).»

Verse 27

अथोवाच विहस्येशः पिनाकी नीललोहितः / संप्रेक्ष्य जगतो योनिं पार्श्वस्थं च जनार्दनम्

Então o Senhor—portador do Pināka, de tonalidade azul e rubra—sorriu e falou, após contemplar o Ventre do universo e Janārdana ao seu lado.

Verse 28

कथं भवद्भिरुदितं स्वभार्यापोषणोत्सुकैः / त्यक्तव्या मम भार्येति धर्मज्ञैः शान्तमानसैः

Como podeis vós—zelosos em sustentar as vossas próprias esposas—dizer que «minha esposa deve ser abandonada», sendo conhecedores do dharma e de mente serena?

Verse 29

ऋषय ऊचुः व्यभिचाररता नार्यः संत्याज्याः पतिनेरिताः / अस्माभिरेषा सुभगा तादृशी त्यागमर्हति

Os sábios disseram: «As mulheres que se deleitam no adultério devem ser abandonadas, conforme é prescrito aos maridos. Em nosso entender, esta mulher afortunada também—sendo de tal espécie—merece ser repudiada.»

Verse 30

महादेव उवाच न कदाचिदियं विप्रा मनसाप्यन्यमिच्छति / नाहमेनामपि तथा विमुञ्चामि कदाचन

Mahādeva disse: «Ó brāhmaṇas, ela nunca—nem mesmo em pensamento—deseja outro; e do mesmo modo eu também jamais a abandono.»

Verse 31

ऋषय ऊचुः दृष्ट्वा व्यभिचरन्तीह ह्यस्माभिः पुरुषाधम / उक्तं ह्यसत्यं भवता गम्यतां क्षिप्रमेव हि

Os sábios disseram: «Tendo visto aqui tua conduta desviada, ó o mais vil dos homens, bem o sabemos. Proferiste falsidade; portanto, parte já—sem demora.»

Verse 32

एवमुक्ते महादेवः सत्यमेव मयेरितम् / भवतां प्रतिभात्येषेत्युक्त्वासौ विचचार ह

Tendo isso sido dito, Mahādeva (Śiva) respondeu: «Em verdade, o que por mim foi proferido é somente verdade. Se isso vos parece correto»,—e, dizendo assim, seguiu o seu caminho.

Verse 33

सो ऽगच्छद्धरिणा सार्धं मुनिन्द्रस्य महात्मनः / वसिष्ठस्याश्रमं पुण्यं भिक्षार्थो परमेश्वरः

Então o Senhor Supremo, Parameśvara, buscando esmolas, foi juntamente com o veado ao santo eremitério do grande sábio Vasiṣṭha, o primeiro entre os rishis.

Verse 34

दृष्ट्वा समागतं देवं भिक्षमाणमरुन्धती / वसिष्ठस्य प्रिया भार्या प्रत्युद्गम्य ननाम नम्

Vendo o deus chegar como mendicante a pedir esmolas, Arundhatī—amada esposa de Vasiṣṭha—adiantou-se para recebê-lo e inclinou-se em reverência.

Verse 35

प्रक्षाल्य पादौ विमलं दत्त्वा चासनमुत्तमम् / संप्रेक्ष्य शिथिलं गात्रमभिघातहतं द्विजैः / संधयामास भैषज्यैर्विष्णा वदना सती

Ela lavou-lhe os pés até ficarem puros e ofereceu-lhe um assento excelente. Então Satī—cujo rosto resplandecia com brilho semelhante ao de Viṣṇu—vendo os membros frouxos, feridos pelos golpes dos duas-vezes-nascidos, recompôs-os com remédios curativos.

Verse 36

चकार महतीं पूजां प्रार्थयामास भार्यया / को भवान् कुत आयातः किमाचारो भवानिति / उवाच तां महादेवः सिद्धानां प्रवरो ऽस्म्यहम्

Ele realizou uma grande adoração e, junto com sua esposa, suplicou com reverência: “Quem és tu? De onde vieste? Qual é a tua regra de conduta?” Então Mahādeva lhe disse: “Eu sou o mais eminente entre os Siddhas.”

Verse 37

यदेतन्मण्डलं शुद्धं भाति ब्रह्ममयं सदा / एषैव देवता मह्यं धारयामि सदैव तत्

Esse maṇḍala puro, que sempre resplandece pleno de Brahman, é a única Divindade que escolho; nele me firmo e o contemplo continuamente, em todos os tempos.

Verse 38

हत्युक्त्वा प्रययौ श्रीमाननुगृह्य पतिव्रताम् / ताडयाञ्चक्रिरे दण्डैर्लोष्टिभिर्मुष्टिभिद्विजाः

Tendo proferido aquelas palavras duras, o ilustre partiu, após agraciar a esposa casta. Então os brâmanes começaram a espancar (o tido por ofensor) com varas, torrões e punhos.

Verse 39

दृष्ट्वा चरन्तं गिरिशं नग्नं विकृतलक्षणम् / प्रोचुरेतद् भवांल्लिङ्गमुत्पाटयतु दुर्मते

Ao verem Girīśa (Śiva) vagando nu, com sinais estranhos e alterados, disseram: “Que este de mente perversa arranque o seu liṅga!”

Verse 40

तानब्रवीन्महायोगी करिष्यामीति शङ्करः / युष्माकं मामके लिङ्गे यदि द्वेषो ऽभिजायते

Śaṅkara, o grande Iogue, disse-lhes: “Eu o farei. Se, quanto ao meu liṅga, nascer em vós o ódio…”

Verse 41

इत्युक्त्वोत्पाटयामास भगवान् भगनेत्रहा / नापश्यंस्तत्क्षणेनेशं केशवं लिङ्गमेव च

Tendo assim falado, o Senhor Bem-aventurado—Bhaganetra-hā, o destruidor do olho de Bhaga—arrancou-o de imediato; e, naquele mesmo instante, já não viram nem o Senhor Keśava nem coisa alguma: apenas o Liṅga permaneceu.

Verse 42

तदोत्पाता बभूवुर्हि लोकानां भयशंसिनः / न राजते सहस्रांशुश्चचाल पृथिवी पुनः / निष्प्रभाश्च ग्रहाः सर्वे चुक्षुभे च महोदधिः

Então, de fato, surgiram presságios terríveis que ameaçavam os povos com medo: o Sol de mil raios já não resplandecia; a terra tremeu novamente; todos os planetas ficaram sem brilho; e o grande oceano revolveu-se, agitado.

Verse 43

अपश्यच्चानुसूयात्रेः स्वप्नं भार्या पतिव्रता / कथयामास विप्राणां भयादाकुलितेक्षणा

Anusūyā, a esposa devota e casta de Atri, viu um sonho; e, com os olhos perturbados pelo medo, contou-o aos sábios brāhmaṇas.

Verse 44

तेजसा भासयन् कृत्स्नं नारायणसहायवान् / भिक्षमाणः शिवो नूनं दृष्टो ऽस्माकं गृहेष्विति

“Certamente Śiva foi visto em nossas casas—pedindo esmolas—iluminando tudo com o seu esplendor, e tendo Nārāyaṇa como companheiro ao seu lado.”

Verse 45

तस्या वचनमाकर्ण्य शङ्कमाना महर्षयः / सर्वे जग्मुर्महायोगं ब्रह्माणं विश्वसंभवम्

Ao ouvirem suas palavras, os grandes ṛṣis, tomados pela dúvida, foram todos juntos a Brahmā, o grande yogin, a fonte de onde o universo se origina.

Verse 46

उपास्यमानममलैर्योगिभिर्ब्रह्मवित्तमैः / चतुर्वेदैर्मूर्तिमद्भिः सावित्र्या सहितं प्रभुम्

Eu adoro esse Senhor soberano, venerado por iogues sem mácula, os mais excelsos entre os conhecedores de Brahman; Ele, corporificado como os quatro Vedas, é assistido por Sāvitrī (o mantra Gāyatrī).

Verse 47

आसीनमासने रम्ये नानाश्चर्यसमन्विते / प्रभासहस्रकलिले ज्ञानैश्वर्यादिसंयुते

Assentado num trono encantador, ornado de muitas maravilhas, Ele estava imerso no fulgor de mil esplendores e dotado de conhecimento, soberania (aiśvarya) e demais excelências divinas.

Verse 48

विभ्राजमानं वपुषा सस्तितं शुभ्रलोचनम् / चतुर्मुखं महाबाहुं छन्दोमयमजं परम्

Resplandecente no corpo, firme e bem estabelecido, de olhos brancos e luminosos; de quatro faces e braços poderosos—(contemplou) a Realidade Suprema, não nascida, constituída dos chandas dos Vedas (os metros sagrados).

Verse 49

विलोक्य वेदपुरुषं प्रसन्नवदनं शुभम् / शिरोभिर्धरणीं गत्वा तोषयामासुरीश्वरम्

Ao contemplar o Veda‑Puruṣa, auspicioso e de semblante sereno, ela prostrou-se até tocar a terra com a cabeça e, assim, satisfez Īśvara, o Senhor de todos os seres.

Verse 50

तान् प्रसन्नमना देवश्चतुर्मूर्तिश्चतुर्मुखः / व्याजहार मुनिश्रेष्ठाः किमागमनकारणम्

Então o deus Brahmā—de quatro faces e manifestado em quatro aspectos—com a mente serena, dirigiu-se aos mais excelentes dos sábios: «Qual é a razão da vossa vinda?»

Verse 51

तस्य ते वृत्तमखिलं ब्रह्मणः परमात्मनः / ज्ञापयाञ्चक्रिरे सर्वे कृत्वा शिरसि चाञ्जलिम्

Então, todos, com as mãos unidas em reverência sobre a cabeça, relataram plenamente a Brahmā—o Paramātman, o Ser Supremo—tudo o que havia ocorrido a respeito d’Ele (o Senhor).

Verse 52

ऋषय ऊचुः कश्चिद् दारुवनं पुण्यं पुरुषो ऽतीवशोभनः / भार्यया चारुसर्वाङ्ग्या प्रविष्टो नग्न एव हि

Os sábios disseram: “Certo homem, de beleza extraordinária, entrou na floresta sagrada de Dāru—de fato, entrou nu—acompanhado de sua esposa, cujos membros eram todos graciosos e belos.”

Verse 53

मोहयामास वपुषा नारीणां कुलमीश्वरः / कन्यकानां प्रिया चास्य दूषयामास पुत्रकान्

Assumindo uma forma cativante, aquele Senhor poderoso iludiu os lares das mulheres; e, tornando-se querido às donzelas, levou os jovens filhos à corrupção.

Verse 54

अस्माभिर्विविधाः शापाः प्रदत्ताश्च पराहताः / ताडितो ऽस्माभिरत्यर्थं लिङ्गन्तु विनिपातितम्

“Por nós foram proferidas e lançadas muitas espécies de maldições; e, golpeando com grande força, o próprio Liṅga foi derrubado e feito cair.”

Verse 55

अन्तर्हितश्च भगवान् सभार्यो लिङ्गमेव च / उत्पाताश्चाभवन् घोराः सर्वभूतभयङ्कराः

Então o Senhor Bem-aventurado, juntamente com Sua Consorte, desapareceu da vista—e também o próprio Liṅga. Surgiram presságios terríveis, aterradores para todos os seres.

Verse 56

क एष पुरुषो देव भीताः स्म पुरुषोत्तम / भवन्तमेव शरणं प्रपन्ना वयमच्युत

Ó Senhor, quem é esta Pessoa? Ó Pessoa Suprema, estamos tomados de temor. Ó Acyuta, somente em Ti nos refugiamos, tomando-Te como único amparo.

Verse 57

त्वं हि वेत्सि जगत्यस्मिन् यत्किञ्चिदपि चेष्टितम् / अनुग्रहेण विश्वेश तदस्माननुपालय

Só Tu conheces, neste mundo, todo movimento e toda intenção, seja qual for. Portanto, ó Senhor do universo, por Tua graça misericordiosa, protege-nos.

Verse 58

विज्ञापितो मुनिगणैर्विश्वात्मा कमलोद्भवः / ध्यात्वा देवं त्रिशूलाङ्कं कृताञ्जलिरभाषत

Assim interpelado pela multidão de sábios, o Nascido do Lótus (Brahmā), o Si mesmo que habita o universo, meditou no Deus marcado pelo tridente (Śiva). Com as mãos postas, então falou.

Verse 59

ब्रह्मोवाच हा कष्टं भवतामद्य जातं सर्वार्थनाशनम् / धिग्बलं धिक् तपश्चर्या मिथ्यैव भवतामिह

Brahmā disse: «Ai de vós! Hoje vos sobreveio uma calamidade dolorosa, que destrói todo propósito. Vergonha à mera força! Vergonha à austeridade! Aqui, para vós, tudo se mostrou totalmente vão.»

Verse 60

संप्राप्य पुण्यसंस्कारान्निधीनां परमं निधिम् / उपेक्षितं वृथाचारैर्भवद्भिरिह मोहितैः

Tendo alcançado, por impressões meritórias, o Tesouro supremo entre todos os tesouros, vós—iludidos aqui—o negligenciastes, entregues a condutas vãs e sem fruto.

Verse 61

काङ्क्षन्ते योगिनो नित्यं यतन्तो यतयो निधिम् / यमेव तं समासाद्य हा भवद्भिरुपेक्षितम्

Os yogins ascetas, sempre em esforço, anseiam continuamente por esse Tesouro; contudo, tendo alcançado o Próprio Um, ai de vós—vós O negligenciastes.

Verse 62

यजन्ति यज्ञैर्विविधैर्यत्प्राप्त्यैर्वेदवादिनः / महानिधिं समासाद्य हा भवद्भिरुपेक्षितम्

Os debatedores dos Vedas realizam muitos tipos de sacrifícios para alcançá-Lo; mas, tendo encontrado um grande tesouro, ai—vós o negligenciastes.

Verse 63

यं समासाद्य देवानैमैश्वर्यमखिलं जगत् / तमासाद्याक्षयनिधिं हा भवद्भिरुपेक्षितम्

Tendo-O alcançado, os deuses obtiveram o senhorio sobre todo o universo; contudo, chegando ao Mesmo—tesouro imperecível—ai de vós, vós O negligenciastes.

Verse 64

यत्समापत्तिजनितं विश्वेशत्वमिदं मम / तदेवोपेक्षितं दृष्ट्वा निधानं भाग्यवर्जितैः

Este senhorio do universo que é meu—nascido da samāpatti (absorção ióguica perfeita)—esse mesmo tesouro vê-se negligenciado por aqueles desprovidos de boa fortuna.

Verse 65

यस्मिन् समाहितं दिव्यमैश्वर्यं यत् तदव्ययम् / तमासाद्य निधिं ब्राह्म हा भवद्भिर्वृथाकृतम्

Nesse tesouro está reunido e firmemente estabelecido o poder divino do Senhor, imperecível; e, ainda assim, ao alcançar esse tesouro, ó Brāhmaṇa, ai—agiste em vão (sem nele tomar verdadeiro refúgio).

Verse 66

एष देवो महादेवो विज्ञेयस्तु महेश्वरः / न तस्य परमं किञ्चित् पदं समधिगम्यते

Este Deva deve ser conhecido como Mahādeva—de fato, como Maheśvara. Para Ele, não há morada mais alta nem estado último algum que possa ser plenamente alcançado ou compreendido.

Verse 67

देवतानामृषीणां च पितॄणां चापि शाश्वतः / सहस्रयुगपर्यन्ते प्रलये सर्वदेहिनाम् / संहरत्येष भगवान् कालो भूत्वा महेश्वरः

No tempo da dissolução, quando mil yugas completam o seu curso, este Senhor eterno—tornando-se o próprio Tempo como Maheśvara—recolhe em Si todos os seres corporificados, incluindo os deuses, os ṛṣis e os ancestrais.

Verse 68

एष चैव प्रजाः सर्वाः सृजत्येकः स्वतेजसा / एष चक्री च वज्री च श्रीवत्सकृतलक्षणः

Ele só, pelo esplendor inato de Si mesmo, cria todos os seres. É o portador do disco (cakra) e do raio (vajra), marcado pelo auspicioso emblema de Śrīvatsa.

Verse 69

योगी कृतयुगे देवस्त्रेतायां यज्ञ उच्यते / द्वापरे भगवान् कालो धर्मकेतुः कलौ युगे

No Kṛta Yuga, o Divino é dito como o Iogue; no Tretā Yuga, é chamado Yajña, Senhor do sacrifício. No Dvāpara, é o Tempo bem-aventurado (Kāla); e no Kali Yuga, é Dharma-ketu, o estandarte e sinal do Dharma.

Verse 70

रुद्रस्य मूर्तयस्तिस्त्रो याभिर्विश्वमिदं ततम् / तमो ह्यग्नी रजो ब्रह्मा सत्त्वं विष्णुरिति प्रभुः

Rudra tem três manifestações pelas quais este universo inteiro é permeado: como tamas Ele é Agni; como rajas Ele é Brahmā; e como sattva Ele é Viṣṇu—o Senhor soberano.

Verse 71

मूर्तिरन्या स्मृता चास्य दिग्वासा वै शिवा ध्रुवा / यत्र तिष्ठति तद् ब्रह्म योगेन तु समन्वितम्

Outra forma Sua é lembrada como o firme e auspicioso Śiva, vestido com as direções como manto. Onde quer que Ele habite, isso mesmo é Brahman, pleno e realizado pelo Yoga.

Verse 72

या चास्य पार्श्वगा भार्या भवद्भिरभिवीक्षिता / सा हि नारायणो देवः परमात्मा सनातनः

E a esposa que está ao seu lado, que acabastes de contemplar—ela é, de fato, o Senhor Nārāyaṇa: o Paramātman eterno, o Si supremo.

Verse 73

तस्मात् सर्वमिदं जातं तत्रैव च लयं व्रजेत् / स एव मोहयेत् कृत्स्नं स एव परमा गतिः

Dele nasce todo este universo, e nele somente se dissolve. Só Ele ilude todos os seres, e só Ele é o fim supremo, o mais alto refúgio.

Verse 74

सहस्रशीर्षा पुरुषः सहस्राक्षः सहस्रपात् / एकशृङ्गो महानात्मा पुराणो ऽष्टाक्षरो हरिः

Esse Puruṣa supremo tem mil cabeças, mil olhos e mil pés—de um só chifre (único e de foco uno), o Grande Si, o Antigo: Hari, expresso como o sagrado mantra de oito sílabas.

Verse 75

चतुर्वेदश्चतुर्मूर्तिस्त्रिमूर्तिस्त्रिगुणः परः / एकमूर्तिरमेयात्मा नारायण इति श्रुतिः

Ele é os quatro Vedas; é de quatro formas; é o Trimūrti e o Senhor que transcende as três guṇas. Embora apareça em muitas formas, sua essência é Uma—um Si mesmo imensurável. Assim declara a Śruti: «Ele é Nārāyaṇa».

Verse 76

ऋतस्य गर्भो भगवानापो मायातनुः प्रभुः / स्तूयते विविधैर्मन्त्रैर्ब्राह्मणैर्धर्ममोक्षिभिः

O Senhor Bem-aventurado—ventre de Ṛta (a ordem cósmica), as próprias Águas (Āpaḥ), o Soberano cujo corpo é Māyā—é louvado por muitos mantras védicos pelos brâmanes devotos do Dharma e da libertação (moksha).

Verse 77

संहृत्य सकलं विश्वं कल्पान्ते पुरुषोत्तमः / शेते योगामृतं पीत्वा यत् तद् विष्णोः परं पदम्

No fim do kalpa, a Pessoa Suprema recolhe todo o universo; tendo bebido o néctar do Yoga, repousa nesse estado supremo—o mais alto domínio de Vishnu.

Verse 78

न जायते न म्रियते वर्धते न च विश्वसृक् / मूलप्रकृतिरव्यक्ता गीयते वैदिकैरजः

Não nasce, não morre, não cresce, nem é o criador do universo. Os videntes védicos o cantam como o Não-Nascido (Aja), a Raiz-Natureza não manifesta (Mūla-Prakṛti).

Verse 79

ततो निशायां वृत्तायां सिसृक्षुरखिलञ्जगत् / अजस्य नाभौ तद् बीजं क्षिपत्येष महेश्वरः

Então, quando a noite passou, desejando fazer surgir todo o universo, Maheshvara lança essa semente no umbigo do Não-Nascido (Brahmā).

Verse 80

तं मां वित्त महात्मानं ब्रह्माणं विश्वतो मुखम् / महान्तं पुरुषं विश्वमपां गर्भमनुत्तमम्

Sabei que Eu sou esse Brahman de grande alma, o Senhor de faces voltadas a todas as direções; o Grande Purusha que é o próprio universo, o incomparável “Ventre das Águas” (Apāṃ-garbha), a fonte suprema de onde a criação se ergue.

Verse 81

न तं विदाथ जनकं मोहितास्तस्य मायया / देवदेवं महादेवं भूतानामीश्वरं हरम्

Iludidos por Sua māyā, não reconheceis esse Progenitor—Hara—Deus dos deuses, o Grande Senhor (Mahādeva) e Soberano de todos os seres.

Verse 82

एष देवो महादेवो ह्यनादिर्भगवान् हरः / विष्णुना सह संयुक्तः करोति विकरोति च

Este mesmo Deva é Mahādeva—Hara, o Senhor bem-aventurado, verdadeiramente sem começo. Unido a Viṣṇu, Ele realiza a criação e também efetua a transformação e a dissolução.

Verse 83

न तस्य विद्यते कार्यं न तस्माद् विद्यते परम् / स वेदान् प्रददौ पूर्वं योगमायातनुर्मम

Para Ele não há obra obrigatória a cumprir, e além d’Ele nada existe mais elevado. No princípio, Ele concedeu os Vedas—Ele cujo corpo é a minha própria Yogamāyā.

Verse 84

स मायी मायया सर्वं करोति विकरोति च / तमेव मुक्तये ज्ञात्वा व्रजेत शरणं भवम्

Esse Senhor, portador da māyā, por Sua māyā faz surgir todas as coisas e também as transforma e dissolve. Sabendo que só Ele é o meio de libertação, busque-se refúgio em Bhava (Śiva).

Verse 85

इतीरिता भगवता मरीचिप्रमुखा विभुम् / प्रणम्य देवं ब्रह्माणं पृच्छन्ति स्म सुदुः खिताः

Assim instruídos pelo Senhor bem-aventurado, os sábios chefiados por Marīci prostraram-se diante do divino Brahmā, o poderoso, e, profundamente aflitos, começaram a interrogá-lo.

Verse 86

मुनय ऊचुः कथं पश्येम तं देवं पुनरेव पिनाकिनम् / ब्रूहि विश्वामरेशान त्राता त्वं शरणैषिणाम्

Os sábios disseram: “Como poderemos contemplar novamente esse Deus—Pinākin (Śiva), o portador do arco—mais uma vez? Dize-nos, ó Senhor dos deuses do universo; tu és o protetor dos que buscam refúgio.”

Verse 87

पितामह उवाच यद् दृष्टं भवता तस्य लिङ्गं भुवि निपातितम् / तल्लिङ्गानुकृतीशस्य कृत्वा लिङ्गमनुत्तमम्

Pitāmaha (Brahmā) disse: “Aquele liṅga que vistes—caído sobre a terra—, moldai um liṅga insuperável, como imitação desse mesmo liṅga de Īśa (Śiva)…”

Verse 88

पूजयध्वं सपत्नीकाः सादरं पुत्रसंयुताः / वैदिकैरेव नियमैर्विविधैर्ब्रह्मचारिणः

“Prestai culto com reverência—junto de vossas esposas e acompanhados de vossos filhos—; e que os brahmacārins ajam somente segundo as diversas disciplinas e observâncias védicas.”

Verse 89

संस्थाप्य शाङ्करैर्मन्त्रैरृग्यजुः सामसंभवैः / तपः परं समास्थाय गृणन्तः शतरुद्रियम्

Tendo estabelecido devidamente o rito com mantras śaivas nascidos dos Vedas Ṛg, Yajus e Sāma, assumiram a austeridade suprema e recitaram o hino Śatarudrīya em louvor a Rudra.

Verse 90

समाहिताः पूजयध्वं सपुत्राः सह बन्धुभिः / सर्वे प्राञ्जलयो भूत्वा शूलपाणिं प्रपद्यथ

Com a mente serena, adorai-O—junto com vossos filhos e parentes. Todos vós, de mãos postas, tomai refúgio em Śūlapāṇi, o Senhor que empunha o tridente.

Verse 91

ततो द्रक्ष्यथ देवेशं दुर्दर्शमकृतात्मभिः / यं दृष्ट्वा सर्वमज्ञानमधर्मश्च प्रणश्यति

Então contemplareis o Senhor dos deuses—difícil de perceber para aqueles cujo eu interior não foi disciplinado. Ao vê-Lo, toda ignorância e todo adharma são destruídos.

Verse 92

ततः प्रणम्य वरदं ब्रह्माणममितौजसम् / जग्मुः संहृष्टमनसो देवदारुवनं पुनः

Então, após se prostrarem diante de Brahmā—doador de dádivas, de esplendor incomensurável—partiram novamente para a floresta de Devadāru, com a mente repleta de alegria.

Verse 93

आराधयितुमारब्धा ब्रह्मणा कथितं यथा / अजानन्तः परं देवं वीतरागा विमत्सराः

Eles iniciaram a disciplina da adoração exatamente como Brahmā havia instruído; embora ainda não reconhecessem o Deus Supremo, estavam livres do apego e livres da inveja.

Verse 94

स्थण्डिलेषु विचित्रेषु पर्वतानां गुहासु च / नदीनां च विविक्तेषु पुलिनेषु शुभेषु च

Em diversos terrenos abertos e retirados, nas cavernas das montanhas e nos bancos de areia auspiciosos e solitários ao longo dos rios—ali se deve habitar e praticar a contemplação.

Verse 95

शैवालभोजनाः केचित् केचिदन्तर्जलेशयाः / केचिदभ्रावकाशास्तु पादाङ्गुष्ठाग्रविष्ठिताः

Alguns vivem de algas como alimento; alguns jazem submersos nas águas; alguns permanecem expostos sob o céu aberto; e alguns ficam de pé, equilibrados na ponta dos dedos grandes dos pés.

Verse 96

दन्तो ऽलूखलिनस्त्वन्ये ह्यश्मकुट्टास्तथा परे / शाकपर्णाशिनः केचित् संप्रक्षाला मरीचिपाः

Alguns vivem do que conseguem mastigar apenas com os dentes; outros socam o alimento no almofariz; outros o esmagam com pedras. Alguns se sustentam de legumes e folhas; alguns comem somente após lavar tudo com extremo cuidado; e alguns mantêm a vida bebendo apenas os raios do sol—na mais severa austeridade.

Verse 97

वृक्षमूलनिकेताश्च शिलाशय्यास्तथा परे / कालं नयन्ति तपसा पूजयन्तो महेश्वरम्

Uns moram junto às raízes das árvores; outros repousam sobre a pedra nua como leito. Assim passam o tempo em austeridade, adorando Maheśvara (Śiva) com tapas disciplinado.

Verse 98

ततस्तेषां प्रसादार्थं प्रपन्नार्तिहरो हरः / चका भगवान् बुद्धिं प्रबोधाय वृषध्वजः

Então, para lhes conceder a Sua graça, Hara—aquele que remove a aflição dos que se refugiam—moveu o seu entendimento; o Senhor Bem-aventurado, o do estandarte do Touro (Vṛṣadhvaja), despertou neles a inteligência discriminativa.

Verse 99

देवः कृतयुगे ह्यस्मिन् शृङ्गे हिमवतः शुभे / देवदारुवनं प्राप्तः प्रसन्नः परमेश्वरः

Neste Kṛta Yuga, o Deus—Parameśvara, sereno e gracioso—chegou ao cume auspicioso do Himavat e entrou na floresta de Devadāru.

Verse 100

भस्मपाण्डुरदिग्धाङ्गो नग्नो विकृतलक्षणः / उल्मुकव्यग्रहस्तश्च रक्तपिङ्गललोचनः

Seus membros, ungidos com cinza, tornam-se pálidos como o pó sagrado; ele vai nu, com sinais exteriores incomuns, próprios de uma áspera renúncia. Com as mãos ocupadas em sustentar um tição ardente e com olhos castanho‑avermelhados, aparece na figura feroz de um asceta.

Verse 101

क्वचिच्च हसते रौद्रं क्वचिद् गायति विस्मितः / क्वचिन्नृत्यति शृङ्गारी क्वचिद्रौति मुहुर्मुहुः

Ora ele ri com semblante feroz e irado; ora canta, tomado de espanto e perplexidade. Agora dança, tocado pelo devaneio do desejo; e, repetidas vezes, rompe em pranto.

Verse 102

आश्रमे ऽभ्यागतो भिक्षां याचते च पुनः पुनः / मायां कृत्वात्मनो रूपं देवस्तद् वनमागतः

Tendo chegado ao eremitério, pediu esmolas repetidas vezes. Por māyā, assumindo uma forma própria, aquele Deva veio a essa floresta.

Verse 103

कृत्वा गिरिसुतां गौरीं पार्श्वेदेवः पिनाकधृक् / सा च पूर्ववद् देवेशी देवदारुवनं गता

Empunhando o arco Pināka, Śiva—ali conhecido como Pārśvadeva—manifestou Gaurī, a Filha da Montanha. E essa Deusa, Senhora dos deuses, foi novamente, como antes, à floresta de Devadāru.

Verse 104

दृष्ट्वा समागतं देवं देव्या सह कपर्दिनम् / प्रणेमुः शिरसा भूमौ तोषयामासुरीश्वरम्

Ao verem o Senhor Kapardin (Śiva) chegar com a Deusa, prostraram-se com a cabeça no chão e assim agradaram ao Senhor dos deuses.

Verse 105

वैदिकैर्विविधैर्मन्त्रैः सूक्तैर्माहेश्वरैः शुभैः / अथर्वशिरसा चान्ये रुद्राद्यैर्ब्रह्मभिर्भवम्

Com diversos mantras védicos e hinos mahāśaivas auspiciosos; e outros com o Atharvaśiras, adoraram Bhava (Śiva) por meio de fórmulas sagradas como os Rudra-mantras e hinos brahmânicos correlatos.

Verse 106

नमो देवादिदेवाय महादेवाय ते नमः / त्र्यम्बकाय नमस्तुभ्यं त्रिशूलवरधारिणे

Saudações a Ti, Deus dos deuses, o Grande Senhor Mahādeva. Saudações a Ti, ó Tryambaka, o de três olhos, portador do excelso tridente.

Verse 107

नमो दिग्वाससे तुभ्यं विकृताय पिनाकिने / सर्वप्रणतदेहाय स्वयमप्रणतात्मने

Saudações a Ti, o revestido do céu (Digvāsas), o maravilhoso e terrível Senhor Pinākin, portador do arco Pināka. Saudações a Ti: todos se curvam diante do Teu corpo, mas o Teu próprio Ser não se curva a ninguém.

Verse 108

अन्तकान्तकृते तुभ्यं सर्वसंहरणाय च / नमो ऽस्तु नृत्यशीलाय नमो भैरवरूपिणे

Saudações a Ti, destruidor da Morte, e a Ti que realizas a dissolução de tudo. Reverência a Ti, que te deleitas na dança cósmica; reverência a Ti, que assumes a forma de Bhairava.

Verse 109

नरनारीशरीराय योगिनां गुरवे नमः / नमो दान्ताय शान्ताय तापसाय हराय च

Saudações Àquele cujo corpo é homem e mulher ao mesmo tempo, o Guru dos yogins. Saudações novamente a Hara: o autocontrolado, o sereno, o asceta.

Verse 110

विभीषणाय रुद्राय नमस्ते कृत्तिवाससे / नमस्ते लेलिहानाय शितिकण्ठाय ते नमः

Saudações a Ti, Rudra terrível, ó portador da veste de pele. Saudações a Ti que ardes como fogo devorador; saudações a Ti, ó Śitikaṇṭha, o de garganta azul—repetidas vezes, minha reverência a Ti.

Verse 111

अघोरघोररूपाय वामदेवाय वै नमः / नमः कनकमालाय देव्याः प्रियकराय च

Saudações a Vāmadeva, cuja forma é ao mesmo tempo não terrível e terrível. Saudações também a Kanakamālā, querido da Deusa e aquele que lhe traz deleite.

Verse 112

गङ्गासलिलधाराय शम्भवे परमेष्ठिने / नमो योगाधिपतये ब्रह्माधिपतये नमः

Saudações a Śambhu, o Senhor supremo, sobre quem desce a corrente das águas do Gaṅgā. Homenagem ao Senhor do Yoga; homenagem ao Senhor do Brahman, o Absoluto.

Verse 113

प्राणाय च नमस्तुभ्यं नमो भस्माङ्गरागिने / नमस्ते घनवाहाय दंष्ट्रिणे वह्निरेतसे

Saudação a Ti como Prāṇa, o próprio sopro da vida; saudação a Ti, ungido com cinza sagrada. Saudação a Ti que cavalgas as nuvens; saudação ao de presas de elefante, cuja semente é Fogo.

Verse 114

ब्रह्मणश्च शिरो हर्त्रे नमस्ते कालरूपिणे / आगतिं ते न जनीमो गतिं नैव च नैव च / विश्वेश्वर महादेव यो ऽसि सो ऽसि नमो ऽस्तु ते

Saudações a Ti—aquele que tomou a cabeça de Brahmā, cuja forma é Kāla, o Tempo. Não conhecemos a tua vinda, nem de fato a tua partida. Ó Viśveśvara, ó Mahādeva—seja o que fores, isso és; que haja reverência a Ti.

Verse 115

नमः प्रमथनाथाय दात्रे च शुभसंपदाम् / कपालपाणये तुभ्यं नमो मीढुष्टमाय ते / नमः कनकलिङ्गाय वारिलिङ्गाय ते नमः

Saudações ao Senhor dos Pramathas, doador de prosperidade auspiciosa. Saudações a Ti que trazes o crânio na mão; saudações a Ti, ó o mais gracioso concedente de dádivas. Saudações ao Liṅga de Ouro; saudações a Ti como o Liṅga das Águas.

Verse 116

नमो वह्न्यर्कलिङ्गाय ज्ञानलिङ्गाय ते नमः / नमो भुजङ्गहाराय कर्णिकारप्रियाय च / किरीटिने कुण्डलिने कालकालाय ते नमः

Saudações a Ti como o Liṅga do fogo e do sol; saudações a Ti como o Liṅga do conhecimento espiritual. Saudações Àquele que traz serpentes como ornamento, e Àquele que é querido às flores karṇikāra. Saudações ao Senhor coroado, portador de brincos—saudações a Ti, Kālakāla, a Morte da morte, Aquele que transcende o Tempo.

Verse 117

वामदेव महेशान देवदेव त्रिलोचन / क्षम्यतां यत्कृतं मोहात् त्वमेव शरणं हि नः

Ó Vāmadeva, ó Maheśāna, ó Deus dos deuses, ó Senhor de três olhos—perdoa o que quer que tenha sido feito por ilusão. Só Tu és, de fato, o nosso refúgio.

Verse 118

चरितानि विचित्राणि गुह्यानि गहनानि च / ब्रह्मादीनां च सर्वेषां दुर्विज्ञेयो ऽसि शङ्कर

Teus feitos são maravilhosos—secretos e profundamente insondáveis; mesmo para Brahmā e para todos os demais deuses, Tu permaneces difícil de compreender, ó Śaṅkara.

Verse 119

अज्ञानाद् यदि वा ज्ञानाद् यत्किञ्चित्कुरुते नरः / तत्सर्वं भगवानेन कुरुते योगमायया

Quer por ignorância, quer por conhecimento, o que quer que uma pessoa faça—tudo isso é realizado pelo próprio Bhagavān, pelo poder de sua Yoga-māyā.

Verse 120

एवं स्तुत्वा महादेवं प्रहृष्टेनान्तरात्मना / ऊचुः प्रणम्य गिरिशं पश्यामस्त्वां यथा पुरा

Assim, tendo louvado Mahādeva com o íntimo repleto de júbilo, prostraram-se diante de Girīśa e disseram: “Que possamos contemplar-Te, como outrora.”

Verse 121

तेषां संस्तवमाकर्ण्य सोमः मोमविभूषणः / स्वमेव परमं रूपं दर्शयामास शङ्करः

Ao ouvir o hino de louvor deles, Soma—ornado com a lua crescente—Śaṅkara revelou-lhes a sua própria forma suprema.

Verse 122

तं ते दृष्ट्वाथ गिरिशं देव्या सह पिनाकिनम् / यथा पूर्वं स्थिता विप्राः प्रणेमुर्हृष्टमानसाः

Então, ao verem Girīśa—Śiva, o portador do arco Pināka—junto da Deusa, aqueles sábios brâmanes, permanecendo como antes, prostraram-se com reverência, com o coração transbordando de alegria.

Verse 123

ततस्ते मुनयः सर्वे संस्तूय च महेश्वरम् / भृग्वङ्गिरोवसिष्ठास्तु विश्वामित्रस्तथैव च

Depois, todos aqueles sábios, tendo entoado louvores a Maheśvara, permaneceram ali—Bhṛgu, Aṅgiras, Vasiṣṭha e também Viśvāmitra.

Verse 124

गौतमो ऽत्रिः सुकेशश्च पुलस्त्यः पुलहः क्रतुः / मरीचिः कश्यपश्चापि संवर्तश्च महातपाः / प्रणम्य देवदेवेशमिदं वचनमब्रुवन्

Gautama, Atri, Sukeśa, Pulastya, Pulaha, Kratu, Marīci, Kaśyapa e Saṃvarta—grandes ascetas—prostraram-se diante do Senhor dos senhores e então disseram estas palavras.

Verse 125

कथं त्वां देवदेवेश कर्मयोगेन वा प्रभो / ज्ञानेन वाथ योगेन पूजयामः सदैव हि

Ó Senhor dos deuses, ó Soberano supremo: como poderemos adorar-Te sempre—pelo Karma-yoga, pelo conhecimento (jñāna) ou pelo Yoga?

Verse 126

केन वा देवमार्गेण संपूज्यो भगवानिह / किं तत् सेव्यमसेव्यं वा सर्वमेतद् ब्रवीहि नः

Por qual senda divina deve o Senhor Bem-aventurado ser aqui perfeitamente adorado? O que deve ser seguido e o que deve ser evitado? Dize-nos tudo isto.

Verse 127

देवदेव उवाच एतद् वः संप्रवक्ष्यामि गूढं गहनमुत्तमम् / ब्रह्मणे कथितं पूर्वमादावेव महर्षयः

Devadeva disse: “Ó grandes sábios, agora vos declararei este ensinamento supremo—secreto, profundo e excelentíssimo—que outrora foi ensinado a Brahmā no próprio início.”

Verse 128

सांख्ययोगो द्विधा ज्ञेयः पुरुषाणां हि साधनम् / योगेन सहितं सांख्यं पुरुषाणां विमुक्तिदम्

Sāṃkhya e Yoga devem ser compreendidos como dois modos, meios para os seres encarnados. Contudo, o Sāṃkhya, unido ao Yoga, torna-se doador de libertação às pessoas.

Verse 129

न केवलेन योगेन दृश्यते पुरुषः परः / ज्ञानं तु केवलं सम्यगपवर्गफलप्रदम्

A Pessoa Suprema não é realizada apenas pelo yoga; antes, somente o verdadeiro conhecimento—quando perfeitamente estabelecido—concede o fruto da libertação (apavarga).

Verse 130

भवन्तः केवलं योगं समाश्रित्य विमुक्तये / विहाय सांख्यं विमलमकुर्वन्त परिश्रमम्

Vós vos apoiastes apenas no Yoga em busca de libertação; ao abandonar o Sāṃkhya puro e sem mácula, empreendestes apenas esforço penoso e vão.

Verse 131

एतस्मात् कारणाद् विप्रानृणां केवलधर्मिणाम् / आगतो ऽहमिमं देशं ज्ञापयन् मोहसंभवम्

Por esta mesma razão, ó brâmanes—homens devotados somente ao dharma—vim a esta região para tornar conhecida a origem e o surgimento de moha, a ilusão.

Verse 132

तस्माद् भवद्भिर्विमलं ज्ञानं कैवल्यसाधनम् / ज्ञातव्यं हि प्रयत्नेन श्रोतव्यं दृश्यमेव च

Portanto, deveis cultivar o conhecimento imaculado, o meio para o kaivalya (a libertação na solidão). De fato, ele deve ser realizado com esforço: aprende-se pela escuta e também deve ser visto diretamente por si mesmo.

Verse 133

एकः सर्वत्रगो ह्यात्मा केवलश्चितिमात्रकः / आनन्दो निर्मलो नित्यं स्यादेतत् सांख्यदर्शनम्

O Ātman é um só, onipresente e solitário—nada além de pura consciência. É bem-aventurança, imaculado e eterno: esta é a visão do Sāṃkhya.

Verse 134

एतदेव परं ज्ञानमेष मोक्षो ऽत्र गीयते / एतत् कैवल्यममलं ब्रह्मभावश्च वर्णितः

Só isto é o conhecimento supremo; esta é a libertação proclamada aqui. Este é o Kaivalya sem mancha, também descrito como o estado de Brahman (brahma-bhāva).

Verse 135

आश्रित्य चैतत् परमं तन्निष्ठास्तत्परायणाः / पश्यन्ति मां महात्मानो यतयो विश्वमीश्वरम्

Tomando refúgio nesta Realidade suprema—firmes nela e totalmente devotados a ela—os grandes ascetas contemplam a Mim, Īśvara, o Senhor que permeia e governa todo o universo.

Verse 136

एतत् तत् परमं ज्ञानं केवलं सन्निरञ्जनम् / अहं हि वेद्यो भगवान् मम मूर्तिरियं शिवा

Isto é, de fato, o conhecimento supremo—puro, único e sem mácula. Eu só sou o Bhagavān que deve ser conhecido; e esta Śivā é a minha própria manifestação (forma).

Verse 137

बहूनि साधनानीह सिद्धये कथितानि तु / तेषामभ्यधिकं ज्ञानं मामकं द्विजपुङ्गवाः

Aqui foram ensinadas muitas disciplinas (sādhanas) para alcançar a realização (siddhi). Contudo, ó melhor entre os duas-vezes-nascidos, superior a todas é o conhecimento que é Meu—a própria sabedoria do Senhor.

Verse 138

ज्ञानयोगरताः शान्ता मामेव शरणं गताः / ये हि मां भस्मनिरता ध्यायन्ति सततं हृदि

Aqueles que se dedicam ao Yoga do conhecimento, serenos e tendo tomado refúgio somente em Mim—sim, aqueles que, absorvidos na cinza sagrada (bhasma), meditam em Mim continuamente no coração.

Verse 139

मद्भक्तिपरमा नित्यं यतयः क्षीणकल्मषाः / नाशयाम्यचिरात् तेषां घोरं संसारसागरम्

Aos ascetas sempre firmes na devoção a Mim, cujas impurezas se consumiram, Eu destruo sem demora o terrível oceano do saṃsāra.

Verse 140

प्रशान्तः संयतमना भस्मोद्धूलितविग्रहः / ब्रह्मचर्यरतो नग्नो व्रतं पाशुपतं चरेत्

Sereno e tranquilo, com a mente refreada, o corpo coberto de cinza sagrada (bhasma); dedicado ao brahmacarya, e nu (livre de posses e de ostentação), deve-se cumprir o voto Pāśupata.

Verse 141

निर्मितं हि मया पूर्वं व्रतं पाशुपतं परम् / गुह्याद् गुह्यतमं सूक्ष्मं वेदसारं विमुक्तये

De fato, em tempos antigos Eu mesmo estabeleci o voto supremo de Pāśupata — mais secreto que o secreto, sutil em seu método interior, a própria essência do Veda — destinado à libertação final.

Verse 142

यद् वा कौपीनवसनः स्याद् वैकवसनो मुनिः / वेदाभ्यासरतो विद्वान् ध्यायेत् पशुपतिं शिवम्

Ou então, o sábio, vestido apenas com um pano de lombo—ou com uma única veste—, erudito e dedicado à recitação e ao estudo dos Vedas, deve meditar em Śiva, Paśupati, Senhor dos seres.

Verse 143

एष पाशुपतो योगः सेवनीयो मुमुक्षुभिः / भस्मच्छन्नैर्हि सततं निष्कामैरिति विश्रुतिः

Este é o Yoga de Pāśupata, a ser praticado com diligência por aqueles que buscam a libertação. A tradição declara que deve ser seguido constantemente por quem está ungido com cinza sagrada e livre de desejo egoísta.

Verse 144

वीतरागभयक्रोधा मन्मया मामुपाश्रिताः / बहवो ऽनेन योगेन पूता मद्भावमागताः

Livres de apego, medo e ira—absorvidos em Mim e refugiados em Mim—muitos foram purificados por este mesmo Yoga e alcançaram o Meu estado.

Verse 145

अन्यानि चैव शास्त्राणि लोके ऽस्मिन् मोहनानितु / वेदवादविरुद्धानि मयैव कथितानि तु

E há também neste mundo outros tratados—de fato, de natureza ilusória—contrários às doutrinas do Veda; contudo, também eles foram proclamados somente por Mim.

Verse 146

वामं पाशुपतं सोमं लाकुलं चैव भैरवम् / असेव्यमेतत् कथितं वेदवाह्यं तथेतरम्

Os caminhos Vāma, Pāśupata, Sauma, Lākula e Bhairava foram declarados impróprios de serem seguidos — por estarem fora do Veda e também em oposição à correta conduta védica.

Verse 147

वेदमुर्तिरहं विप्रा नान्यशास्त्रार्थवेदिभिः / ज्ञायते मत्स्वरूपं तु मुक्त्वा वेदं सनातनम्

Ó brâmanes, Eu sou verdadeiramente a própria forma do Veda. Minha natureza real não é conhecida por aqueles que apenas entendem o sentido de outros tratados; ela é conhecida somente pelo Veda eterno — e não ao abandoná-lo.

Verse 148

स्थापयध्वमिदं मार्गं पूजयध्वं महेश्वरम् / अचिरादैश्वरं ज्ञानमुत्पत्स्यति न संशयः

Estabelecei este caminho sagrado e adorai Mahēśvara. Em breve surgirá o conhecimento nascido do Senhor, concedido por Īśvara — disso não há dúvida.

Verse 149

मयि भक्तिश्च विपुला भवतामस्तु सत्तमाः / ध्यातमात्रो हि सान्निध्यं दास्यामि मुनिसत्तमाः

Ó melhores entre os virtuosos, que em vós surja uma devoção abundante a Mim. Pois, pelo simples recordar e meditar, ó supremos sábios, Eu vos concederei a Minha presença imediata.

Verse 150

इत्युक्त्वा भगवान् सोमस्तत्रैवान्तरधीयत / तो ऽपि दारुवने तस्मिन् पूजयन्ति स्म शङ्करम् / ब्रह्मचर्यरताः शान्ता ज्ञानयोगपरायणाः

Tendo assim falado, o bem-aventurado Soma desapareceu ali mesmo. E eles, naquela floresta de Daru, continuaram a adorar Śaṅkara — firmes no brahmacarya, serenos na mente e totalmente devotados ao yoga do conhecimento.

Verse 151

समेत्य ते महात्मानो मुनयो ब्रह्मवादिनः / वितेनिरे बहून् वादान्नध्यात्मज्ञानसंश्रयान्

Tendo-se reunido, aqueles sábios de grande alma—expositores de Brahman—propuseram muitos debates, alicerçados no conhecimento do Eu interior (adhyātma-jñāna).

Verse 152

किमस्य जगतो मूलमात्मा चास्माकमेव हि / को ऽपि स्यात् सर्वभावानां हेतुरीश्वर एव च

«Qual é a raiz deste universo? E o Ātman é, de fato, o nosso próprio Ser? Quem poderia ser a causa de todos os modos de existência? Somente o Senhor, Īśvara.»

Verse 153

इत्येवं मन्यमानानां ध्यानमार्गावलम्बिनाम् / आविरासीन्महादेवी देवी गिरिवरात्मजा

Quando aqueles firmados no caminho da meditação pensavam assim, manifestou-se diante deles a Mahādevī— a Deusa, filha do mais excelso dos montes.

Verse 154

कोटिसूर्यप्रतीकाशा ज्वालामालासमावृता / स्वभाभिर्विमलाभिस्तु पूरयन्ती नभस्तलम्

Resplandecendo com o fulgor de dez milhões de sóis, envolta por grinaldas de chamas, ela, com suas radiâncias imaculadas, preenchia toda a vastidão do céu.

Verse 155

तामन्वपश्यन् गिरिजाममेयां ज्वालासहस्रान्तरसन्निविष्टाम् / प्रणेमुरेकामखिलेशपत्नीं जानन्ति ते तत् परमस्य बीजम्

Ao contemplarem a incomensurável Girijā, estabelecida no seio de mil chamas, prostraram-se diante da Única—consorte do Senhor de tudo. Os que verdadeiramente sabem reconhecem nela a semente suprema (bīja) do Altíssimo.

Verse 156

असमाकमेषा परमेशपत्नी गतिस्तथात्मा गगनाभिधाना / पश्यन्त्यथात्मानमिदं च कृत्स्नं तस्यामथैते मुनयश्च विप्राः

Ela é o nosso refúgio supremo—a consorte de Parameśvara—conhecida como “Gaganā”, qual céu que tudo permeia, e é, de fato, o próprio Si (Ātman). N’Ela, esses sábios e brâmanes contemplam o Si e também este universo inteiro em sua totalidade.

Verse 157

निरीक्षितास्ते परमेशपत्न्या तदन्तरे देवमशेषहेतुम् / पश्यन्ति शंभुं कविमीशितारं रुद्रं बृहन्तं पुरुषं पुराणम्

Enquanto eram contemplados pela consorte do Senhor Supremo, nesse mesmo intervalo viram o Deus que é a causa de todas as causas—Śambhu, o vidente-poeta e Soberano: Rudra, o Vasto, o Puruṣa primordial.

Verse 158

आलोक्य देवीमथ देवमीशं प्रणेमुरानन्दमवापुरग्र्यम् / ज्ञानं तदैशं भगवत्प्रसादा- दाविर्बभौ जन्मविनाशहेतु

Ao contemplarem a Deusa e o Senhor, prostraram-se e alcançaram a bem-aventurança suprema. Então, pela graça do Senhor Bem-aventurado, manifestou-se o conhecimento divino—conhecimento que destrói a causa do renascimento.

Verse 159

इयं हि सा जगतो योनिरेका सर्वात्मिका सर्वनियामिका च / माहेश्वरीशक्तिरनादिसिद्धा व्योमाभिधाना दिवि राजतीव

Ela é, de fato, o único ventre do universo—presente como o Si de todos e como reguladora de tudo. Esta Potência Maheshvarī, sem começo e eternamente estabelecida, chamada “Vyomā” (Espaço), resplandece nos céus como se estivesse soberanamente entronizada.

Verse 160

अस्या महत्परमेष्ठी परस्ता- न्महेश्वरः शिव एको ऽथ रुद्रः / चकार विश्वं परशक्तिनिष्ठां मायामथारुह्य स देवदेवः

Para além do mahat e para além do supremo Criador (Parameṣṭhin) está o único Maheśvara—Śiva, isto é, Rudra. Montando Māyā, que repousa na Parā-śakti, esse Deus dos deuses fez surgir o universo.

Verse 161

एको देवः सर्वभूतेषु गूढो मायी रुद्रः सकलो निष्कलश्च / स एव देवी न च तद्विभिन्न- मेतज्ज्ञात्वा ह्यमृतत्वं व्रजन्ति

Um só Deus—oculto em todos os seres—é Rudra, senhor da māyā, ao mesmo tempo com atributos e além de todo atributo. Ele próprio é a Deusa (Śakti) e não é diferente dela. Conhecendo esta verdade, de fato os seres alcançam a imortalidade.

Verse 162

अन्तर्हितो ऽभूद् भगवानथेशो देव्या भर्गः सह देवादिदेवः / आराधयन्ति स्म तमेव देवं वनौकसस्ते पुनरेव रुद्रम्

Então o Senhor Bem-aventurado—Īśa, o radiante Bharga, o Deus dos deuses—tornou-se invisível juntamente com a Deusa. Assim, aqueles moradores da floresta voltaram a adorar essa mesma Divindade: o próprio Rudra.

Verse 163

एतद् वः कथितं सर्वं देवदेवविचेष्टितम् / देवदारुवने पूर्वं पुराणे यन्मया श्रुतम्

Assim vos contei tudo isto—os feitos maravilhosos do Deus dos deuses—como outrora os ouvi no Purāṇa acerca da floresta de Devadāru.

Verse 164

यः पठेच्छृणुयान्नित्यं मुच्यते सर्वपातकैः / श्रावयेद् वा द्विजान् शान्तान् स याति परमां गतिम्

Quem o recita ou o escuta diariamente é libertado de todos os pecados; e quem o faz ouvir aos dvija serenos (os ‘nascidos duas vezes’) alcança o destino supremo.

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Frequently Asked Questions

Their minds are said to be fixed on outward action and austerity-as-status; the episode exposes that ritual correctness and tapas, without inner discernment and surrender, can become moha (delusion) rather than liberation.

It states that yoga alone does not yield realization of the Supreme; liberation is granted by perfectly established knowledge (jñāna). Sāṃkhya-style discernment, when joined with yogic discipline, becomes liberating.

Brahmā presents Rudra as pervading the universe through guṇa-forms (including Viṣṇu as sattva) and explicitly identifies the consort at Śiva’s side as Nārāyaṇa, grounding a strong unity theology rather than sectarian separation.

The sages are instructed to fashion an imitation liṅga, establish worship with Vedic Śaiva mantras, practice austerity, and recite the Śatarudrīya, culminating in renewed darśana and the arising of Īśvara-given knowledge.

A secret, liberative discipline emphasizing restraint, ash-bearing, celibacy, minimal clothing/possessions, and constant meditation on Paśupati—presented as Pāśupata Yoga supportive of the yoga of knowledge.