
Pulastya narra um caso exemplar de expiação centrado no célebre tīrtha de Raktānubandha. O rei Indrasena, ao regressar da guerra, envia um mensageiro enganoso para testar a firmeza pativratā de sua esposa Sunandā, anunciando falsamente sua morte; Sunandā, descrita como patipraṇā e inabalável na devoção ao marido, morre ao ouvir a notícia. O rei passa então a sofrer a consequência kármica de strī-vadha (morte de uma mulher): surge uma “segunda sombra”, vem a sensação de peso, perde-se o tejas e exala-se mau odor—sinais corporais de impureza moral. Buscando purificação, ele realiza os ritos funerários e empreende longa peregrinação por muitos tīrthas, incluindo Kāśī/Varanasi e Kapālamocana, mas a aflição persiste. Após grande errância, chega ao monte Arbuda e se banha em Raktānubandha; a segunda sombra desaparece e retornam as qualidades auspiciosas. Contudo, ao ultrapassar o limite do tīrtha, o mal reaparece; ele volta imediatamente e se purifica de novo, mostrando a eficácia delimitada do lugar. Reconhecendo sua supremacia, oferece dāna, constrói uma pira e entra no fogo como ato final de renúncia, ascendendo a Śivaloka. As declarações de phala exaltam o tīrtha: oferendas e śrāddha ali são tidos como altamente eficazes; o banho na saṅkrānti solar é dito remover até brahmahatyā; e as doações durante eclipses, especialmente o go-dāna, são creditadas por libertar sete gerações.
Verse 1
पुलस्त्य उवाच । रक्तानुबन्धं वै गच्छेत्तीर्थं त्रैलोक्यविश्रुतम् । यत्र स्नातो नरः सम्यङ्मुच्यते ब्रह्महत्यया
Pulastya disse: “Deve-se, de fato, ir ao tīrtha chamado Raktānubandha, célebre nos três mundos; pois ali, aquele que se banha devidamente é plenamente libertado do pecado de brahmahatyā (o assassinato de um brâmane).”
Verse 2
पुराऽसीत्पार्थिवोनाम इंद्रसेनो महीपतिः । तस्याऽसीत्सुप्रिया भार्या सुनन्दानाम भामिनी । पतिव्रता पतिप्राणा सदा पत्युः प्रिये स्थिता
Em tempos antigos houve um rei chamado Indrasena, senhor da terra. Sua esposa amada era a dama chamada Sunandā—pativratā, tendo o marido como a própria vida, sempre firme naquilo que lhe era querido.
Verse 3
कस्यचित्त्वथ कालस्य स राजा सपरिग्रहः । परदेशं गतो हंतुं शत्रुसंघं दुरासदम्
Então, em certo tempo, aquele rei—com seu séquito e seus aprestos—partiu para uma terra estrangeira a fim de destruir um exército inimigo, difícil de vencer.
Verse 4
तं निहत्य धनं भूरि गृहीत्वा प्रस्थितो गृहम् । ततोऽग्रे प्रेषयामास स दूतं कृत्रिमं नृप
Tendo-os abatido e tomado riquezas em abundância, o rei pôs-se a caminho de casa. Depois, adiante, enviou um mensageiro forjado.
Verse 5
सुनन्दां ब्रूहि गत्वा त्वमिन्द्रसेनो हतो रणे । तदाकारस्ततो लक्ष्यः पातिव्रत्ये ममाज्ञया
“Vai e diz a Sunandā: ‘Indrasena foi morto na batalha.’ Depois, por minha ordem, observa o seu estado—sua fidelidade de esposa.”
Verse 6
यदि सा निश्चयं गच्छेन्मरणं प्रति भामिनी । तदा रक्ष्या प्रयत्नेन वाच्यं हास्यं ममोद्भवम्
Se essa dama resolver firmemente morrer, então deve ser protegida com esforço; e deves dizer palavras que façam nascer o riso, vindas de mim, para desviá-la.
Verse 7
एवमुक्तो गतो दूतस्तत्क्षणान्नृपसत्तम । तस्यै निवेददामास यदुक्तं तेन भूभुजा
Assim instruído, o mensageiro partiu de imediato, ó melhor dos reis, e relatou a ela exatamente o que aquele soberano havia dito.
Verse 8
अथ तस्य वचः श्रुत्वा सुनंदा चारुहासिनी । गतप्राणा नृपश्रेष्ठ पतिप्राणा महासती
Ao ouvir suas palavras, Sunandā—com doce sorriso—perdeu a vida, ó melhor dos reis; aquela grande mulher virtuosa, cujo próprio alento era o esposo.
Verse 9
यस्मिन्काले मृता सा तु सुनन्दा शीलमंडना । तस्मिन्काले नृपः सोऽपि तत्पापेन समाश्रितः
No exato momento em que Sunandā—ornada de nobre caráter—morreu, nesse mesmo momento o rei também foi tomado por aquele pecado.
Verse 10
अथापश्यद्द्वितीयां स च्छायां गात्रस्य चोपरि । तथा गुरुतरं कायं सालस्यं समपद्यत
Então ele viu uma segunda sombra sobre o próprio corpo; e sua estrutura tornou-se mais pesada, caindo numa torpeza de indolência.
Verse 11
तेजोहीनं सुदुर्गंधि विवर्णं नृपसत्तम । अथ प्राप्तो गृहं राजा श्रुत्वा भार्यासमुद्भवम्
Sem brilho, de odor fétido e descolorido—ó melhor dos reis—então o rei voltou para casa, após ouvir o que se levantara acerca de sua esposa.
Verse 12
विनाशं दुःखशोकार्तः करुणं पर्यदेवयत् । स ज्ञात्वा पापमात्मानं स्त्रीहत्यासुविदूषितम्
Aflito por dor e tristeza, lamentou piedosamente a própria ruína; pois reconheceu-se pecador, gravemente maculado pelo crime de matar uma mulher.
Verse 13
ब्राह्मणानां समादेशात्तथा यात्रापरोऽभवत् । कृत्वौर्द्ध्वदैहिकं तस्या लघुमात्र परिग्रहः । वाराणस्यां गतः पूर्वं तत्र दानं ददौ बहु
Por ordem dos brāhmaṇas, tornou-se dedicado à peregrinação. Tendo realizado por ela os ritos funerários, levando apenas o mínimo de provisões, foi primeiro a Vārāṇasī e ali concedeu abundante caridade.
Verse 14
कपालमोचने तीर्थे सर्वपापप्रणाशने । त्रिनेत्रो यत्र निर्मुक्तः पुरा वै ब्रह्महत्यया
No Tīrtha de Kapālamocana, destruidor de todos os pecados—onde outrora o Senhor de Três Olhos (Trinetra) foi libertado do pecado de brahmahatyā, o homicídio de um brāhmaṇa.
Verse 15
तस्य च्छाया द्वितीया सा न नष्टा तत्र भूपते । ततः कनखलं प्राप्तः सुपुण्यं शुद्धिदं नृणाम्
Contudo, ali, ó rei, a sua segunda sombra não desapareceu. Então ele alcançou Kanakhala, de mérito excelso e doadora de purificação aos homens.
Verse 16
तथैव पुष्करारण्यं तस्मादमरकण्टकम् । कुरुक्षेत्रं ततो राजन्प्राप्तोऽसौ नृपसत्तमः
Do mesmo modo, foi à floresta de Puṣkara; de lá a Amarakantaka; e então, ó rei, esse excelente soberano chegou a Kurukṣetra.
Verse 17
प्रभासं सोमतीर्थं च ततस्तु कृमिजांगले । एकहंसं ततो राजन्पुण्यपारिप्लवं ततः
Ele foi a Prabhāsa e a Somatīrtha; depois a Kṛmijāṅgala; em seguida, ó rei, a Ekahaṃsa; e daí por diante a Puṇyapāriplava.
Verse 18
रुद्रकोटिं विरूपाक्षं ततः पंचनदं नृप । एवमादीनि तीर्थानि पुण्यान्यायतनानि च । परिभ्रमन्महीपाल परिश्रांतो नराधिपः
A Rudrakoṭi e a Virūpākṣa, e depois a Pañcanada, ó rei—assim ele peregrinou por estes e outros tīrthas santos e santuários meritórios. Vagueando pela terra, o soberano dos homens tornou-se cansado, ó protetor do mundo.
Verse 19
ततो वर्षसहस्रांते संप्राप्तोऽर्बुदपर्वते । तत्रापश्यन्नरपतिस्तीर्थान्यायतनानि च
Então, ao fim de mil anos, chegou ao Monte Arbuda. Ali o rei contemplou também tīrthas sagrados e santuários santos.
Verse 20
तपस्विसंघान्विविधान्ब्राह्मणान्वेदपारगान् । ददौ दानानि बहुशो ब्राह्मणेभ्यो यदृच्छया
Ele, repetidas vezes, conforme a ocasião surgia, ofereceu dádivas a muitas assembleias de ascetas—brāhmaṇas que haviam alcançado a plena mestria dos Vedas.
Verse 21
प्राप्तो रक्तानुबंधं च तीर्थं तत्रैव पर्वते । तत्र स्नातो विनिष्क्रांतो यावत्पश्यति भूमिपः
Ele chegou ao tīrtha sagrado chamado Raktānubandha, naquele mesmo monte. Banhou-se ali e, ao sair, o rei olhou ao redor, como quem observa a própria condição.
Verse 22
तावन्न दृश्यते च्छाया द्वितीया स्त्रीवधोद्भवा । लघुत्वं सर्वगात्राणि संप्राप्तानि महीपते
Então já não se via aquela segunda sombra—nascida do pecado de matar uma mulher—; e uma leveza tomou todos os seus membros, ó senhor da terra.
Verse 23
विगन्धता प्रणष्टा च तेजोवृद्धिः पराभवत् । ततो हृष्टमना भूत्वा दत्त्वा दानानि भूरिशः । स्तूयमानश्चतुर्दिक्षु बंदिभिः प्रस्थितो गृहम्
Seu mau odor desapareceu, e seu esplendor (tejas) aumentou grandemente. Então, com o coração jubiloso, concedeu dádivas em abundância; e, louvado nas quatro direções pelos arautos, partiu de volta para o lar.
Verse 24
ततो रक्तानुबंधस्य सोमातिक्रमणं नृप । यावत्करोति राजेन्द्र तावदस्य पुनस्तथा
Então, ó rei, sempre que ele transgredia a regra do beber Soma, ó senhor dos reis, por todo o tempo em que assim fazia, a aflição chamada Raktānubandha voltava a ele do mesmo modo.
Verse 25
सा च्छाया दृश्यते देहे द्वितीया नृपसत्तम । स एव गन्धो गात्रेषु तेजोहानिश्च सा नृप
Ó melhor dos reis, aquela segunda sombra foi novamente vista sobre o seu corpo. O mesmo odor voltou aos seus membros, e o seu esplendor diminuiu, ó rei.
Verse 26
ततो दुःखाभिसंतप्तो गतस्तत्रैव तत्क्षणात् । रक्तबंधमनुप्राप्तो विपाप्मा सोऽभवत्पुनः
Então, consumido pela tristeza, voltou para lá naquele mesmo instante. Ao alcançar novamente Raktabandha, tornou-se outra vez livre de pecado.
Verse 27
स ज्ञात्वा तीर्थमाहात्म्यं परं पार्थिवसत्तमः । तत्र दारूणि चाहृत्य चितां कृत्वा ततो नृप । दानं दत्त्वा द्विजाग्रेभ्यः प्रविष्टो हव्यवाहनम्
Sabendo da suprema grandeza daquele tīrtha, o melhor dos reis trouxe lenha e ergueu a pira funerária (citā). Então, ó rei, após oferecer dádivas aos mais eminentes brāhmaṇas, entrou no fogo sacrificial, Havyavāhana (Agni).
Verse 28
ततो विमानमारुह्य परित्यज्य कलेवरम् । दिव्यमाल्यांबरधरः शिवलोकमुपागमत्
Então, subindo ao vimāna celeste e deixando o corpo mortal, ornado com guirlandas e vestes divinas, ele alcançou o mundo de Śiva.
Verse 29
शिवलोकमनुप्राप्ते तस्मिन्पार्थिवसत्तमे । देवर्षयस्तदा वाक्यमिदमाहुः सुविस्मयात्
Quando aquele rei, o melhor dos soberanos, alcançou o mundo de Śiva, os sábios divinos, tomados de assombro, disseram então estas palavras.
Verse 30
तीर्थेभ्यस्तु परं तीर्थमिदं वै पावनं परम् । इन्द्रसेनो ह्यतः पापात्तीर्थसंगाद्व्यमुच्यत
Este, de fato, é o tīrtha supremo, mais elevado que os demais lugares sagrados—excelentíssimo em poder de purificação. Pois Indrasena foi libertado do pecado precisamente pelo contato com este tīrtha.
Verse 31
ततः प्रभृति तत्तीर्थं ख्यातं च धरणीतले । रक्तानां प्राणिनां यस्मादनुबन्धं करोति यत्
Desde então, esse tīrtha tornou-se célebre sobre a terra, porque cria um “vínculo” com os seres de sangue, isto é, com as criaturas encarnadas.
Verse 32
रक्तानुबन्धमित्येव तस्मात्तत्कीर्त्त्यते क्षितौ । तत्र सन्तर्प्य वै देवान्यः श्राद्धं कुरुते नृप
Por isso, na terra ele é celebrado pelo próprio nome de “Raktānubandha”. Ó Rei, quem ali primeiro satisfaz os deuses com oferendas e depois realiza o śrāddha—
Verse 33
तत्र संक्रमणे भानोर्यः स्नानं कुरुते नरः । श्रद्धया परया युक्तो मुच्यते ब्रह्महत्यया
Ali, no saṅkramaṇa do Sol (trânsito solar), quem se banha com a fé suprema é libertado até do pecado de brahmahatyā.
Verse 34
पितृक्षेत्रे गयायां च श्राद्धं यः कुरुते नरः । गयाश्राद्धसमं प्राहुः फलं तस्य महर्षयः
E em Gayā, o célebre “campo dos ancestrais”, quem realiza o śrāddha—os grandes ṛṣis declaram que o seu fruto é igual ao do śrāddha feito em Gayā.
Verse 35
चन्द्रसूर्योपरागे वा गोदानं नृपसत्तम । यः करोति नरस्तत्र स कुलान्सप्त तारयेत्
Ó melhor dos reis, ali, durante um eclipse lunar ou solar, quem doa uma vaca em caridade salva sete gerações de sua linhagem.