
विनायकोत्पत्तिः / ताण्डव-प्रसङ्गः (दारुक-वधः, काली-उत्पत्तिः, क्षेत्रपालोत्पत्तिः)
Os rishis perguntam a causa de Śambhu (Śiva) iniciar a dança e desejam ouvir o episódio ligado ao irmão mais velho de Skanda. Sūta descreve o asura Dāruka: fortalecido por tapas, ele aflige os devas e os brâmanes. Brahmā e os demais deuses buscam refúgio em Umāpati e pedem a morte de Dāruka. Śiva suplica a Girijā; a Devī entra no corpo do Senhor e se torna uma śakti terrível. Do terceiro olho, Śiva manifesta Kālī (Kālakāṇṭhī); ela mata Dāruka, mas o fogo de sua ira perturba o mundo. Então Śiva aparece no śmaśāna como um menino que chora; a Deusa o amamenta e apazigua a fúria. O menino torna-se Kṣetrapāla, guardião do lugar sagrado, e são indicadas as oito formas (Aṣṭamūrti). Por fim, ao entardecer, Mahādeva executa o Tāṇḍava com as hostes de pretas; a Devī bebe o “amṛta da dança” e se alegra. Os devas reverenciam Kālī e Pārvatī; este relato prepara a explicação seguinte sobre Vināyaka e a linhagem das divindades protetoras.
Verse 1
इति श्रीलिङ्गमहापुराणे पूर्वभागे विनायकोत्पत्तिर्नाम पञ्चाधिकशततमो ऽध्यायः ऋषय ऊचुः नृत्यारम्भः कथं शंभोः किमर्थं वा यथातथम् वक्तुमर्हसि चास्माकं श्रुतः स्कन्दाग्रजोद्भवः
Assim, no Śrī Liṅga Mahāpurāṇa, na seção Pūrvabhāga, inicia-se o capítulo cento e seis, chamado “A Origem de Vināyaka”. Disseram os sábios: “Ó Śambhu (Śiva), como começou a Tua dança e com que propósito—conta-nos exatamente como ocorreu. Ouvimos falar da manifestação do primogênito de Skanda (Vināyaka); por isso, explica-nos.”
Verse 2
सूत उवाच दारुको ऽसुरसम्भूतस् तपसा लब्धविक्रमः सूदयामास कालाग्निर् इव देवान्द्विजोत्तमान्
Sūta disse: Dāruka, nascido dos asuras e fortalecido pela austeridade (tapas), começou a afligir e a destruir os devas e os mais eminentes dos duas-vezes-nascidos, como o fogo de Kālâgni no fim de uma era. Quando o dharma é assim oprimido, os paśu (almas cativas) são empurrados mais fundo no pāśa (laço do cativeiro) até buscarem refúgio no Pati, o Senhor: Śiva.
Verse 3
दारुकेण तदा देवास् ताडिताः पीडिता भृशम् ब्रह्माणं च तथेशानं कुमारं विष्णुमेव च
Então, golpeados e duramente atormentados por Dāruka, os devas, em sua aflição, aproximaram-se de Brahmā, de Īśāna (o Senhor), de Kumāra (Skanda) e também de Viṣṇu.
Verse 4
यममिन्द्रमनुप्राप्य स्त्रीवध्य इति चासुरः स्त्रीरूपधारिभिः स्तुत्यैर् ब्रह्माद्यैर्युधि संस्थितैः
Ao chegarem a Yama e a Indra, aquele asura foi declarado “aquele que deve ser morto”. No campo de batalha, Brahmā e os demais deuses ali permaneciam entoando hinos, tendo assumido formas femininas.
Verse 5
बाधितास्तेन ते सर्वे ब्रह्माणं प्राप्य वै द्विजाः विज्ञाप्य तस्मै तत्सर्वं तेन सार्धमुमापतिम्
Afligidos por ele, todos aqueles duas-vezes-nascidos foram até Brahmā e lhe relataram tudo—juntamente com o relato acerca de Umāpati (Śiva), o Senhor unido a Umā.
Verse 6
सम्प्राप्य तुष्टुवुः सर्वे पितामहपुरोगमाः ब्रह्मा प्राप्य च देवेशं प्रणम्य बहुधा नतः
Tendo chegado a Ele, todos—guiados por Pitāmaha (Brahmā)—louvaram o Senhor dos deuses; e Brahmā, aproximando-se de Deva-īśa, prostrou-se repetidas vezes com reverente devoção.
Verse 7
दारुणो भगवान्दारुः पूर्वं तेन विनिर्जिताः निहत्य दारुकं दैत्यं स्त्रीवध्यं त्रातुमर्हसि
Ó Bhagavān, ó Senhor terrível chamado “Dāru”, outrora fomos subjugados por ele. Tendo abatido o daitya Dāruka, deves proteger as mulheres marcadas para o sacrifício da morte.
Verse 8
विज्ञप्तिं ब्रह्मणः श्रुत्वा भगवान् भगनेत्रहा देवीमुवाच देवेशो गिरिजां प्रहसन्निव
Tendo ouvido a súplica de Brahmā, o Senhor Bem-aventurado—Bhaganetraghna, o destruidor do olho de Bhaga, Senhor dos deuses—falou à Deusa Girijā como que com um suave sorriso.
Verse 9
भवतीं प्रार्थयाम्यद्य हिताय जगतां शुभे वधार्थं दारुकस्यास्य स्त्रीवध्यस्य वरानने
Ó Auspiciosa, para o bem-estar dos mundos eu te suplico hoje—ó Senhora de belo semblante—faz que se cumpra a morte deste Dāruka, destinado a ser morto pela mão de uma mulher.
Verse 10
अथ सा तस्य वचनं निशम्य जगतो ऽरणिः विवेश देहे देवस्य देवेशी जन्मतत्परा
Então ela—Deveśī, a Senhora divina, como o araṇi (vara de fricção) dos mundos—ao ouvir a ordem dele, entrou no corpo do Deus, inteiramente voltada para a manifestação do nascimento que haveria de surgir.
Verse 11
एकेनांशेन देवेशं प्रविष्टा देवसत्तमम् न विवेद तदा ब्रह्मा देवाश्चेन्द्रपुरोगमाः
Ao adentrarem no Senhor dos Devas por apenas uma ínfima fração do Seu poder, não puderam compreendê‑Lo de modo algum—nem Brahmā, nem os Devas conduzidos por Indra perceberam a Divindade Suprema tal como Ela é.
Verse 12
गिरिजां पूर्ववच्छंभोर् दृष्ट्वा पार्श्वस्थितां शुभाम् मायया मोहितस्तस्याः सर्वज्ञो ऽपि चतुर्मुखः
Ao ver Girijā, como antes, de pé e auspiciosa ao lado de Śambhu, Brahmā de quatro faces—embora onisciente—foi iludido por Sua māyā.
Verse 13
सा प्रविष्टा तनुं तस्य देवदेवस्य पार्वती कण्ठस्थेन विषेणास्य तनुं चक्रे तदात्मनः
Pārvatī entrou no corpo daquele Deus dos deuses; e, pelo veneno retido em Sua garganta, moldou o Seu corpo à própria semelhança do seu ser, manifestando a sua unidade com Ele.
Verse 14
तां च ज्ञात्वा तथाभूतां तृतीयेनेक्षणेन वै ससर्ज कालीं कामारिः कालकण्ठीं कपर्दिनीम्
Sabendo-a nesse estado, o inimigo de Kāma (Śiva), de fato, pelo poder do Seu terceiro olho, fez surgir Kālī—de tez escura, devoradora do tempo e de cabelos emaranhados—para que o Senhor (Pati) subjugasse as forças que prendem os mundos.
Verse 15
जाता यदा कालिमकालकण्ठी जाता तदानीं विपुला जयश्रीः देवेतराणामजयस्त्वसिद्ध्या तुष्टिर्भवान्याः परमेश्वरस्य
Quando Kālimā—de tez escura, consorte de Nīlakaṇṭha—se manifestou, naquele mesmo instante ergueu-se abundante glória de vitória. Os não-devas (as hostes asúricas) foram derrotados pela frustração de seus intentos; e Bhavānī ficou satisfeita—assim como Parameśvara, o Senhor Supremo.
Verse 16
जातां तदानीं सुरसिद्धसंघा दृष्ट्वा भयाद् दुद्रुवुर् अग्निकल्पाम् कालीं गरालंकृतकालकण्ठीम् उपेन्द्रपद्मोद्भवशक्रमुख्याः
Então, ao verem Kālikā recém-manifestada—ardente como o fogo, com a garganta escura ornada por uma terrível guirlanda—os exércitos de Devas e Siddhas fugiram de medo, liderados por Upendra (Viṣṇu), Padmodbhava (Brahmā) e Śakra (Indra).
Verse 17
तथैव जातं नयनं ललाटे सितांशुलेखा च शिरस्युदग्रा कण्ठे करालं निशितं त्रिशूलं करे करालं च विभूषणानि
Do mesmo modo, manifestou-se um olho na testa; e no alto da cabeça surgiu uma faixa elevada como o branco brilho da lua. Na garganta apareceu um tridente terrível e afiado; e na mão também surgiram ornamentos de assombrosa majestade—sinais do Senhor como Pati, o soberano transcendente além de todo laço (pāśa).
Verse 18
सार्धं दिव्यांबरा देव्याः सर्वाभरणभूषिताः सिद्धेन्द्रसिद्धाश् च तथा पिशाचा जज्ञिरे पुनः
Junto com a Deusa, radiante em vestes divinas e adornada com todos os ornamentos, tornaram a surgir os Siddhas—com os Siddhas senhoriais—e também nasceram os Piśācas. Assim, no desdobrar da criação sob Pati (Śiva) e Śakti, até as ordens sutis de seres se manifestaram segundo sua própria natureza e seus laços kármicos (pāśa).
Verse 19
आज्ञया दारुकं तस्याः पार्वत्याः परमेश्वरी दानवं सूदयामास सूदयन्तं सुराधिपान्
Pela ordem daquela Pārvatī, a suprema Mahēśvarī, a Deusa abateu o Dānava Dāruka, que afligia os senhores dos Devas. Assim, Śakti, sempre una com Pati (Śiva), protegeu a ordem cósmica ao remover a força do vínculo (pāśa) que oprimia as hostes divinas.
Verse 20
संरंभातिप्रसंगाद् वै तस्याः सर्वमिदं जगत् क्रोधाग्निना च विप्रेन्द्राः संबभूव तदातुरम्
Ó melhor dos brâmanes, devido ao ímpeto avassalador de sua ira impetuosa, este mundo inteiro ficou aflito—escaldado e angustiado pelo fogo da cólera.
Verse 21
भवो ऽपि बालरूपेण श्मशाने प्रेतसंकुले रुरोद मायया तस्याः क्रोधाग्निं पातुम् ईश्वरः
Até Bhava (Śiva), assumindo a forma de uma criança, chorou—por sua própria māyā—num campo de cremação repleto de espíritos, para que o Senhor bebesse, absorvesse e extinguisse o fogo da ira dela.
Verse 22
तं दृष्ट्वा बालमीशानं मायया तस्य मोहिता उत्थाप्याघ्राय वक्षोजं स्तनं सा प्रददौ द्विजाः
Ao ver Īśāna surgir como uma criança, ela foi iludida por Sua Māyā. Erguendo-O e trazendo-O ao peito, ofereceu-Lhe o leite de seu seio—ó sábios duas-vezes-nascidos.
Verse 23
स्तनजेन तदा सार्धं कोपमस्याः पपौ पुनः क्रोधेनानेन वै बालः क्षेत्राणां रक्षको ऽभवत्
Então, junto com o leite de seu seio, ele voltou a beber também a sua ira. Por essa mesma cólera, o menino tornou-se o guardião dos campos sagrados—como kṣetrapāla que afasta o mal do domínio de Śiva.
Verse 24
मूर्तयो ऽष्टौ च तस्यापि क्षेत्रपालस्य धीमतः एवं वै तेन बालेन कृता सा क्रोधमूर्छिता
Mesmo para esse sábio Kṣetrapāla há oito formas manifestas. Assim foi feito pelo menino; ela ficou dominada e entorpecida pela vertigem da ira.
Verse 25
कृतमस्याः प्रसादार्थं देवदेवेन ताण्डवम् संध्यायां सर्वभूतेन्द्रैः प्रेतैः प्रीतेन शूलिना
Para conceder-lhe graça, o Deus dos deuses executou o Tāṇḍava ao crepúsculo; e o Senhor portador do tridente, satisfeito, foi assistido por todos os chefes dos bhūtas e pelas hostes de pretas.
Verse 26
पीत्वा नृत्यामृतं शंभोर् आकण्ठं परमेश्वरी ननर्त सा च योगिन्यः प्रेतस्थाने यथासुखम्
Tendo bebido até à garganta o néctar da dança de Śambhu, a Deusa Suprema dançou; e as yoginīs também dançaram à vontade no campo de cremação, morada dos espíritos.
Verse 27
तत्र सब्रह्मका देवाः सेन्द्रोपेन्द्राः समन्ततः प्रणेमुस्तुष्टुवुः कालीं पुनर्देवीं च पार्वतीम्
Ali, todos os deuses—com Brahmā, e com Indra e Upendra (Viṣṇu) por todos os lados—prostraram-se em reverência e louvaram Kāḷī; e, de novo, exaltaram a Deusa como Pārvatī.
Verse 28
एवं संक्षेपतः प्रोक्तं ताण्डवं शूलिनः प्रभोः योगानन्देन च विभोस् ताण्डवं चेति चापरे
Assim, em resumo, foi declarado o Tāṇḍava do Senhor que empunha o tridente. Alguns, porém, chamam a esta mesma dança do Senhor que tudo permeia o “Tāṇḍava da Bem-aventurança Ióguica (Yogānanda)”.
Kali is manifested to accomplish the destruction of the boon-protected Daruka (notably framed as ‘strī-vadhya’), signifying Shiva’s controlled release of Shakti’s fierce power for dharma-protection—followed by the necessity of pacifying that power to restore cosmic balance.
It dramatizes divine upaya (skillful means): Shiva uses māyā to redirect and absorb the destructive ‘krodhāgni’ into a protective function, transforming uncontrolled fury into kshetra-raksha (guardianship), a template for inner anger’s sublimation in sadhana.
The text presents Tandava as a prasāda-hetu act that delights and pacifies, while also being described as ‘yogānanda-tāṇḍava’—linking outward divine dance with inward yogic bliss and restoration of sattva.