Upanishads - Atma
vedic_generalAtharva31 Verses

Atma

vedic_generalAtharva

O Atma Upanishad (atribuído na tradição tardia ao Atharvaveda) é um texto breve e denso de Advaita Vedānta sobre a natureza do Si (ātman). Ensina que o ātman não é corpo, sentidos, mente ou ego, mas a consciência auto-luminosa e a testemunha (sākṣin) de toda experiência. Por meio do discernimento (viveka) e da negação ‘neti-neti’, desfaz-se a identificação com o visto e o conhecido, revelando a consciência pura. No seu contexto histórico, reflete um Vedānta posterior em que a libertação (mokṣa) é entendida sobretudo como conhecimento (jñāna), e não como produto do ritual. Os três estados—vigília, sonho e sono profundo—são apresentados como campos testemunhados, enquanto o Si os transcende como turīya. A conclusão é que mokṣa não é um resultado produzido, mas a cessação da superimposição (adhyāsa) causada pela ignorância (avidyā). A realização direta da identidade ātman–brahman corta a raiz do medo e do sofrimento.

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Key Teachings

- Ātman is self-luminous consciousness (cit)

the witness (sākṣin) of all states.

- Discrimination (viveka): the Self is distinct from body

senses

mind

and ego.

- Neti-neti (negation): whatever is seen/known is not the seer/knower.

- Non-duality (advaita): ātman is brahman; multiplicity is nāma-rūpa dependent on avidyā.

- Transcendence of the three states (waking

dream

deep sleep) and the three guṇas.

- Freedom from doership/enjoyership (kartṛtva/bhoktṛtva) as a mark of realization.

- Renunciation (sannyāsa) as inner disidentification

culminating in jñāna-mokṣa.

- Liberation is immediate knowledge (aparokṣa-jñāna)

not a produced result of action.

Verses of the Atma

31 verses with Sanskrit text, transliteration, and translation.

Verse 1

ॐ अथाङ्गिरास्त्रिविधः पुरुषोऽजायत—आत्मा, अन्तरात्मा, परमात्मा चेति। त्वक्-चर्म-मांस-रोम-अङ्गुष्ठ-अङ्गुल्यः, पृष्ठ-वंश-नख-गुल्फ-उदर-नाभि-मेढ्र-कटि-ऊरु-कपोल-श्रोत्र-भ्रू-ललाट-बाहु-पार्श्व-शिरः-अक्षीणि भ...

Om. Então Āṅgiras declarou que o ser humano é tríplice: o ātman (o eu individual), o antarātman (o eu interior) e o paramātman (o Eu supremo). Pele, couro, carne, pelos, polegares e dedos, costas, coluna, unhas, tornozelos, ventre, umbigo, órgãos genitais, cintura, coxas, faces, ouvidos, sobrancelhas, testa, braços, flancos, cabeça e olhos vêm a existir; nasce e morre—este é o ātman enquanto individualidade encarnada. Agora, o “eu interior” é denominado como terra, águas, fogo, vento e espaço; como desejo e aversão, prazer e dor, cobiça, ilusão, construções conceituais, marcas de memória sem começo; como tons alto e baixo, sons breves, longos e prolongados; e como gaguejar, bramir, romper, alegrar-se, dançar, cantar, música instrumental, dissolução, expansão e semelhantes—(como) ouvinte, olfator, degustador, condutor, agente, o eu cognoscente, a pessoa; e ele realiza as funções específicas de ouvir, cheirar, atrair e agir, e se ocupa dos Purāṇas, Nyāya, Mīmāṃsā e Dharmaśāstras—este é o antarātman. Agora, o paramātman deve ser adorado como a sílaba imperecível. E ele é buscado por prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna, samādhi, yoga, inferência e contemplação do Si—tão sutil quanto uma semente de figueira-da-Índia ou um grão de painço, ou imaginando-o dividido em cem mil partes da ponta de um fio de cabelo; é alcançado—e, contudo, não é apreendido. Não nasce nem morre; não seca nem umedece, não é queimado; não treme, não se parte, não é cortado; sem atributos, estabelecido como Testemunha, puro, Si sem partes, único, sutil, sem possessividade, imaculado, sem transformação; isento de som, tato, forma, sabor e odor; sem conceituação, sem anseio, onipenetrante; inconcebível e indizível; purifica o impuro e o não purificado. Sendo inativo, para ele não há saṃsāra. Chamado “Si”, auspicioso (Śiva), puro, um só, sempre não-dual—somente Brahman aparece como de natureza brahmânica.

Threefold analysis of self (deha-jīva/antarātmā/paramātmā), nirguṇa Brahman as sākṣin; negation of saṃsāra for the actionless Self

Verse 2

जगद्रूपतयाप्येतद्ब्रह्मैव प्रतिभासते । विद्याविद्यादिभेदेन भावाभावादिभेदतः॥२॥

Mesmo na forma do mundo, isto é somente Brahman que aparece—pela distinção entre conhecimento e ignorância, pela distinção entre ser e não-ser, e assim por diante.

Māyā/avidyā-based appearance (pratibhāsa) of jagat upon Brahman

Verse 3

गुरुशिष्यादिभेदेन ब्रह्मैव प्रतिभासते । ब्रह्मैव केवलं शुद्धं विद्यते तत्त्वदर्शने॥३॥

Pela distinção entre guru e discípulo e semelhantes, somente Brahman aparece. Na visão da Verdade, somente Brahman—puro e único—existe.

Non-duality sublating relational dualities; pedagogical duality (guru–śiṣya) as provisional

Verse 4

न च विद्या न चाविद्या न जगच्च न चापरम् । सत्यत्वेन जगद्भानं संसारस्य प्रवर्तकम्॥४॥

Não há nem conhecimento nem ignorância, nem mundo nem algo outro. A aparência do mundo tomada como real é o que põe o saṃsāra em movimento.

Saṃsāra driven by satya-buddhi (taking appearance as absolute); ultimate negation (paramārtha) of dual categories

Verse 5

असत्यत्वेन भानं तु संसारस्य निवर्तकम् । घटोऽयमिति विज्ञातुं नियमः कोऽन्वपेक्षते॥५॥ विना प्रमाणसुष्ठुत्वं यस्मिन् सति पदार्थधीः । अयमात्मा नित्यसिद्धः प्रमाणे सति भासते॥६॥

Mas a aparência (do mundo) como irreal é o que faz cessar o saṃsāra. Para conhecer “isto é um pote”, de que regra alguém depende? Sem o correto funcionamento de um meio de conhecimento, quando ocorre a cognição de um objeto—este ātman é eternamente realizado; ele resplandece quando um meio de conhecimento está presente.

Pramāṇa and self-revelation; cessation of saṃsāra through asatya-darśana of appearances; nitya-siddha ātman

Verse 6

असत्यत्वेन भानं तु संसारस्य निवर्तकम् । घटोऽयमिति विज्ञातुं नियमः कोऽन्वपेक्षते ॥ विना प्रमाणसुष्ठुत्वं यस्मिन् सति पदार्थधीः । अयमात्मा नित्यसिद्धः प्रमाणे सति भासते ॥५–६॥

A apreensão do mundo como irreal é, de fato, o que faz cessar o saṃsāra. Para saber “isto é um pote”, de que regra ou restrição se depende? Mesmo quando surge a cognição de um objeto sem o pleno operar de um meio válido de conhecimento, este Ātman é eternamente estabelecido; porém, quando há pramāṇa, ele se torna manifesto e é conhecido.

Māyā/Asat-khyāti and Atman as nitya-siddha (ever-established); pramāṇa and aparokṣa-jñāna

Verse 7

न देशं नापि कालं वा न शुद्धिं वाप्यपेक्षते । देवदत्तोऽहमित्येतद्विज्ञानं निरपेक्षकम् ॥७॥

Não depende de lugar, nem de tempo, nem mesmo de pureza ritual. A cognição “eu sou Devadatta” é independente, não requer tais condições.

Immediate self-cognition (aparokṣa-anubhava) and independence from ritual conditions; jñāna over karma

Verse 8

तद्वद्ब्रह्मविदोऽप्यस्य ब्रह्माहमिति वेदनम् । भानुनेव जगत्सर्वं भास्यते यस्य तेजसा ॥८॥

Do mesmo modo, para o conhecedor de Brahman, este saber — “eu sou Brahman” — é imediato e independente. Como pelo sol, assim todo o universo é iluminado pelo esplendor daquele cuja radiância tudo faz brilhar.

Aham Brahmāsmi; consciousness as self-luminous (svayaṃ-prakāśa) and illuminator of all experience

Verse 9

अनात्मकम् असत् तुच्छं किं नु तस्यावभासकम् । वेदशास्त्रपुराणानि भूतानि सकलान्यपि ॥ येनार्थवन्ति तं किं नु विज्ञातारं प्रकाशयेत् । क्षुधां देहव्यथां त्यक्त्वा बालः क्रीडति वस्तुनि ॥ तथैव विद्वान् रमते न...

Aquilo que não é o Si, irreal e insignificante — que poderia, de fato, iluminá-lo? Os Vedas, os śāstras e os Purāṇas, e também todos os seres, tornam-se significativos por Aquele; que poderia iluminar esse Conhecedor? Assim como uma criança, deixando de lado a fome e a dor do corpo, brinca com um objeto, do mesmo modo o sábio deleita-se: sem apego, sem ego, feliz. Movendo-se entre os desejos, permanece de natureza sem desejo; o muni vagueia solitário.

Svayaṃ-prakāśa Atman (self-luminous knower); anātman as dependent appearance; jīvanmukti traits (nirmama, nirahaṃ, niṣkāma)

Verse 10

अनात्मकम् असत् तुच्छं किं नु तस्यावभासकम् । वेदशास्त्रपुराणानि भूतानि सकलान्यपि ॥ येनार्थवन्ति तं किं नु विज्ञातारं प्रकाशयेत् । क्षुधां देहव्यथां त्यक्त्वा बालः क्रीडति वस्तुनि ॥ तथैव विद्वान् रमते न...

Aquilo que não é o Si, irreal e insignificante — que poderia, de fato, iluminá-lo? Os Vedas, os śāstras e os Purāṇas, e também todos os seres, tornam-se significativos por Aquele; que poderia iluminar esse Conhecedor? Assim como uma criança, deixando de lado a fome e a dor do corpo, brinca com um objeto, do mesmo modo o sábio deleita-se: sem apego, sem ego, feliz. Movendo-se entre os desejos, permanece de natureza sem desejo; o muni vagueia solitário.

Svayaṃ-prakāśa Atman; anātman as dependent; jīvanmukti and niṣkāmatā

Verse 11

अनात्मकम् असत् तुच्छं किं नु तस्यावभासकम् । वेदशास्त्रपुराणानि भूतानि सकलान्यपि ॥ येनार्थवन्ति तं किं नु विज्ञातारं प्रकाशयेत् । क्षुधां देहव्यथां त्यक्त्वा बालः क्रीडति वस्तुनि ॥ तथैव विद्वान् रमते न...

O que é não‑Si, irreal e insignificante—como poderia iluminar Aquilo (o Ātman)? Os Vedas, os śāstras, os Purāṇas e também todos os seres tornam‑se plenos de sentido por meio Dele; quem poderia tornar manifesto o Conhecedor desse (Si)? Assim como uma criança, deixando de lado a fome e a dor do corpo, brinca com um objeto, do mesmo modo o sábio deleita‑se—sem apego, sem ego, feliz. Movendo‑se entre as coisas, assumindo a forma do desapego aos desejos, o muni solitário peregrina.

Ātman as self-luminous (svayaṃ-prakāśa); jīvanmukti; vairāgya

Verse 12

स्वात्मनैव सदा तुष्टः स्वयं सर्वात्मना स्थितः । निर्धनोऽपि सदा तुष्टोऽप्यसहायो महाबलः ॥

Sempre satisfeito pelo Si mesmo apenas, estabelecido por si como o Si de todos; embora sem riquezas, permanece sempre contente; embora sem auxílio, é de grande força.

Ātma-tṛpti (self-sufficiency); sarvātma-bhāva; aparigraha

Verse 13

नित्यतृप्तोऽप्यभुञ्जानोऽप्यसमः समदर्शनः । कुर्वन्नपि न कुर्वाणश्चाभोक्ता फलभोग्यपि ॥

Embora sempre pleno, é como se não desfrutasse; sem igual, e contudo vê com igualdade. Embora aja, não é agente; embora não‑gozador, é como se experimentasse os frutos.

Akartṛtva/abhoktṛtva; samadarśana; jīvanmukta-lakṣaṇa

Verse 14

शरीर्यप्यशरीर्येष परिच्छिन्नोऽपि सर्वगः । अशरीरं सदा सन्तमिदं ब्रह्मविदं क्वचित् ॥ प्रियाप्रिये न स्पृशतस्तथैव च शुभाशुभे । तमसा ग्रस्तवद्भानादग्रस्तोऽपि रविर्जनैः ॥ ग्रस्त इत्युच्यते भ्रान्त्या ह्यज्...

Embora encarnado, este é sem corpo; embora limitado, é onipenetrante. Sempre sem corpo, este conhecedor de Brahman aparece aqui e ali como se tivesse corpo. O querido e o não‑querido não o tocam, nem do mesmo modo o auspicioso e o inauspicioso. O sol não é eclipsado; contudo, por causa da escuridão, as pessoas dizem: “está eclipsado”. Chama‑se “eclipsado” por ilusão, por não se conhecer a natureza da coisa. Assim também o supremo conhecedor de Brahman, liberto dos vínculos que começam com o corpo—os tolos, ao verem a aparência de um corpo, percebem‑no como se fosse um ser corpóreo. Como a pele abandonada de uma serpente, ele permanece com o corpo apenas como resíduo‑aparência, já liberto.

Jīvanmukti; asaṅga (non-contact); adhyāsa (superimposition); prārabdha-body as appearance

Verse 15

शरीर्यप्यशरीर्येष परिच्छिन्नोऽपि सर्वगः । अशरीरं सदा सन्तमिदं ब्रह्मविदं क्वचित् ॥ प्रियाप्रिये न स्पृशतस्तथैव च शुभाशुभे । तमसा ग्रस्तवद्भानादग्रस्तोऽपि रविर्जनैः ॥ ग्रस्त इत्युच्यते भ्रान्त्या ह्यज्...

Embora encarnado, este é sem corpo; embora limitado, é onipenetrante. Sempre sem corpo, este conhecedor de Brahman aparece aqui e ali como se tivesse corpo. O querido e o não‑querido não o tocam, nem do mesmo modo o auspicioso e o inauspicioso. O sol não é eclipsado; contudo, por causa da escuridão, as pessoas dizem: “está eclipsado”. Chama‑se “eclipsado” por ilusão, por não se conhecer a natureza da coisa. Assim também o supremo conhecedor de Brahman, liberto dos vínculos que começam com o corpo—os tolos, ao verem a aparência de um corpo, percebem‑no como se fosse um ser corpóreo. Como a pele abandonada de uma serpente, ele permanece com o corpo apenas como resíduo‑aparência, já liberto.

Jīvanmukti; asaṅga; adhyāsa; prārabdha-body

Verse 16

शरीर्यप्यशरीर्येष परिच्छिन्नोऽपि सर्वगः । अशरीरं सदा सन्तमिदं ब्रह्मविदं क्वचित्॥ प्रियाप्रिये न स्पृशतस्तथैव च शुभाशुभे । तमसा ग्रस्तवद्भानादग्रस्तोऽपि रविर्जनैः॥ ग्रस्त इत्युच्यते भ्रान्त्या ह्यज्ञा...

Embora pareça encarnado, é na verdade desencarnado; embora pareça limitado, é onipenetrante. Este conhecedor de Brahman, sempre existente sem corpo, é por alguns visto como se tivesse corpo. O agradável e o desagradável não o tocam; do mesmo modo o auspicioso e o inauspicioso. Assim como o sol não é realmente eclipsado, mas as pessoas o chamam de “eclipsado” por parecer tomado pela escuridão, assim também por ilusão, sem conhecer a marca real da coisa, diz-se que foi “tomado”. Do mesmo modo, o supremo conhecedor de Brahman, liberto de vínculos como o corpo, é visto pelos confusos como se fosse um indivíduo encarnado, por perceberem apenas uma aparência corporal. Como a pele deixada pela serpente, ele permanece: corpo como que abandonado, livre.

Jīvanmukti; Atman as aśarīra (bodiless) and asaṅga (untouched); avidyā and adhyāsa (superimposition)

Verse 17

शरीर्यप्यशरीर्येष परिच्छिन्नोऽपि सर्वगः । अशरीरं सदा सन्तमिदं ब्रह्मविदं क्वचित्॥ प्रियाप्रिये न स्पृशतस्तथैव च शुभाशुभे । तमसा ग्रस्तवद्भानादग्रस्तोऽपि रविर्जनैः॥ ग्रस्त इत्युच्यते भ्रान्त्या ह्यज्ञा...

Embora pareça encarnado, é na verdade desencarnado; embora pareça limitado, é onipenetrante. Este conhecedor de Brahman, sempre existente sem corpo, é por alguns visto como se tivesse corpo. O agradável e o desagradável não o tocam; do mesmo modo o auspicioso e o inauspicioso. Assim como o sol não é realmente eclipsado, mas as pessoas o chamam de “eclipsado” por parecer tomado pela escuridão, assim também por ilusão, sem conhecer a marca real da coisa, diz-se que foi “tomado”. Do mesmo modo, o supremo conhecedor de Brahman, liberto de vínculos como o corpo, é visto pelos confusos como se fosse um indivíduo encarnado, por perceberem apenas uma aparência corporal. Como a pele deixada pela serpente, ele permanece: corpo como que abandonado, livre.

Asaṅga-ātman; adhyāsa; jñānī’s freedom amid appearance

Verse 18

इतस्ततश्चाल्यमानो यत्किञ्चित्प्राणवायुना । स्रोतसा नीयते दारु यथा निम्नोन्नतस्थलम्॥

Tudo o que é agitado para cá e para lá pelo vento vital (prāṇa) é levado pela corrente, como um pedaço de madeira arrastado pelo curso d’água por terrenos baixos e altos.

Prārabdha and the momentum of prāṇa; non-agency (akartṛtva) of the Self; body as instrument

Verse 19

दैवेन नीयते देहो यथा कालोपभुक्तिषु । लक्ष्यालक्ष्यगतिं त्यक्त्वा यस्तिष्ठेत्केवलात्मना॥ शिव एव स्वयं साक्षादयं ब्रह्मविदुत्तमः । जीवन्नेव सदा मुक्तः कृतार्थो ब्रह्मवित्तमः॥

O corpo é conduzido pelo destino (daiva), como nas experiências a serem fruídas no tempo. Aquele que, abandonando o ir em direção ao “visado” e ao “não visado”, permanece somente como o Si‑mesmo—ele é, de fato, o próprio Śiva, diretamente; é o mais alto conhecedor de Brahman. Mesmo vivendo, está sempre liberto, realizado; o supremo conhecedor de Brahman.

Jīvanmukti; prārabdha (kālopabhukti); tyāga of saṅkalpa; kevalātma-niṣṭhā; identification of realized Self with Śiva/Brahman

Verse 20

दैवेन नीयते देहो यथा कालोपभुक्तिषु । लक्ष्यालक्ष्यगतिं त्यक्त्वा यस्तिष्ठेत्केवलात्मना॥ शिव एव स्वयं साक्षादयं ब्रह्मविदुत्तमः । जीवन्नेव सदा मुक्तः कृतार्थो ब्रह्मवित्तमः॥

O corpo é levado pelo destino (daiva) para fruições e experiências no tempo. Quem, abandonando o movimento rumo ao visado e ao não visado, permanece como o Si‑mesmo apenas—esse é verdadeiramente o próprio Śiva, diretamente; o mais alto conhecedor de Brahman. Mesmo enquanto vive, é sempre liberto, plenamente realizado—o supremo conhecedor de Brahman.

Kevalātma-niṣṭhā; jīvanmukti; prārabdha exhaustion; non-dual Śiva/Brahman identity

Verse 21

उपाधिनाशाद् ब्रह्मैव सद् ब्रह्माप्येति निर्द्वयम् । शैलूषो वेषसद्भावाभावयोश्च यथा पुमान् ॥२१॥

Pela destruição dos upādhis, os condicionamentos limitadores, o Real é somente Brahman; e o conhecedor alcança Brahman, o não‑dual, assim como o ator permanece o mesmo com ou sem o traje.

Upādhi-nāśa (negation of limiting adjuncts) and non-duality (advaita)

Verse 22

तथैव ब्रह्मविच्छ्रेष्ठः सदा ब्रह्मैव नापरः । घटे नष्टे यथा व्योम व्योमैव भवति स्वयम् ॥२२॥

Do mesmo modo, o mais excelente conhecedor de Brahman é sempre Brahman apenas, não outro; como, ao quebrar-se o pote, o espaço (dentro) torna-se o próprio espaço, por si mesmo.

Jīva–Brahman identity; ghaṭākāśa–mahākāśa illustration; liberation as recognition

Verse 23

तथैवोपाधिविलये ब्रह्मैव ब्रह्मवित्स्वयम् । क्षीरं क्षीरे यथा क्षिप्तं तैलं तैले जलं जले ॥२३॥

Assim também, com a dissolução dos upādhis, o conhecedor de Brahman é ele mesmo somente Brahman; como leite vertido em leite, óleo em óleo, água em água—tornam-se um.

Upādhi-vilaya; non-difference (abheda) of jñānī and Brahman

Verse 24

संयुक्तमेकतां याति तथात्मन्यात्मविन्मुनिः । एवं विदेहकैवल्यं सन्मात्रत्वमखण्डितम् ॥२४॥

O que está unido alcança unidade; assim também, no Si mesmo, o sábio que conhece o Si mesmo permanece uno. Assim é a solidão libertadora sem corpo (videha‑kaivalya), o estado indiviso de puro Ser (sat‑mātratva).

Videha-kaivalya; akhaṇḍa-sat (undivided Being)

Verse 25

ब्रह्मभावं प्रपद्यैष यतिर्नावर्तते पुनः । सदात्मकत्वविज्ञानदग्धा विद्यादिवर्ष्मणः ॥२५॥

Tendo alcançado o estado de Brahman, este renunciante não retorna novamente; os corpos formados por ignorância e afins são queimados pelo conhecimento de que sua natureza é o Ser (sat).

Mokṣa as non-return (apunarāvṛtti); jñāna as destroyer of avidyā

Verse 26

अमुष्य ब्रह्मभूतत्त्वाद् ब्रह्मणः कुत उद्भवः । मायाक्लृप्तौ बन्धमोक्षौ न स्तः स्वात्मनि वस्तुतः ॥ यथा रज्जौ निष्क्रियायां सर्पाभासविनिर्गमौ । अवृतेः सदसत्त्वाभ्यां वक्तव्ये बन्धमोक्षणे ॥ २६–२७ ॥

Sendo este (Si mesmo) da natureza de Brahman, como poderia haver origem para Brahman? Cativeiro e libertação, forjados por māyā, não existem de fato no próprio Si mesmo. Assim como, numa corda inerte, se fala do surgir e do desaparecer da aparência de serpente por haver ou não haver o véu (ignorância), do mesmo modo se fala de vínculo e de libertação.

Māyā/avidyā as the basis of bandha–mokṣa; ajāti (non-origination) of Brahman; rope–snake adhyāsa

Verse 27

अमुष्य ब्रह्मभूतत्त्वाद् ब्रह्मणः कुत उद्भवः । मायाक्लृप्तौ बन्धमोक्षौ न स्तः स्वात्मनि वस्तुतः ॥ यथा रज्जौ निष्क्रियायां सर्पाभासविनिर्गमौ । अवृतेः सदसत्त्वाभ्यां वक्तव्ये बन्धमोक्षणे ॥ २६–२७ ॥

Assim como, numa corda inerte, se fala do aparecer e do recolher-se da aparência de serpente por causa da presença ou ausência do véu (ignorância), do mesmo modo se fala de cativeiro e de libertação — apenas nesse sentido.

Adhyāsa (superimposition) and nivṛtti (sublation) as the basis for speaking of bandha–mokṣa

Verse 28

नावृत्तिर्ब्रह्मणः क्वाचिदन्याभावादनावृतम् । अस्तीति प्रत्ययो यश्च यश्च नास्तीति वस्तुनि ॥ बुद्धेरेव गुणावेतौ न तु नित्यस्य वस्तुनः । अतस्तौ मायया क्लृप्तौ बन्धमोक्षौ न चात्मनि ॥ २८–२९ ॥

Não há véu algum sobre Brahman em parte alguma; pois, não havendo nada além Dele, Ele permanece sem cobertura. A cognição “existe” e a cognição “não existe” a respeito de uma coisa — ambas são qualidades apenas do intelecto (buddhi), não da Realidade eterna.

Non-duality (absence of a second); epistemic status of existence/nonexistence judgments; māyā as cognitive construction

Verse 29

नावृत्तिर्ब्रह्मणः क्वाचिदन्याभावादनावृतम् । अस्तीति प्रत्ययो यश्च यश्च नास्तीति वस्तुनि ॥ बुद्धेरेव गुणावेतौ न तु नित्यस्य वस्तुनः । अतस्तौ मायया क्लृप्तौ बन्धमोक्षौ न चात्मनि ॥ २८–२९ ॥

Ambas são, de fato, qualidades apenas do intelecto (buddhi), e não da Realidade eterna. Por isso, esses dois — cativeiro e libertação — são construções de māyā e não pertencem ao Si mesmo (Ātman).

Buddhi-dharma vs. Ātma-svarūpa; nitya-śuddha-buddha-mukta nature of Self

Verse 30

निष्कले निष्क्रिये शान्ते निरवद्ये निरञ्जने । अद्वितीये परे तत्त्वे व्योमवत् कल्पना कुतः ॥ ३० ॥

Na suprema Realidade, sem partes, sem ação, pacífica, irrepreensível, imaculada, não-dual — semelhante ao espaço — de onde poderia surgir qualquer imaginação, qualquer construção conceitual?

Nirvikalpatva of Brahman; nirguṇa/advitīya nature; ākāśa (space) analogy

Verse 31

न निरोधो न चोत्पत्तिर्न बद्धो न च साधकः । न मुमुक्षुर्न वै मुक्त इत्येषा परमार्थता ॥३१॥

Não há cessação nem, de fato, origem; ninguém está preso, nem há praticante do caminho. Não há buscador de libertação, nem alguém realmente liberto — esta é a Verdade suprema (Realidade última).

Ajātivāda (non-origination) and paramārtha-sattā (ultimate reality) in Advaita Vedānta

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