
The Deliverance of Nalakūvara and Maṇigrīva (Yamala-Arjuna Līlā Prelude and Culmination)
Atendendo à pergunta de Parīkṣit, Śukadeva explica por que Nalakūvara e Maṇigrīva, filhos de Kuvera, foram amaldiçoados pelo devarṣi Nārada. Embriagados com Vāruṇī e deslumbrados pela opulência celestial num jardim às margens do Mandākinī, perto do Kailāsa, permaneceram nus e sem pudor até diante do sábio, ao contrário das mulheres acompanhantes que se cobriram. Nārada, movido por misericórdia e não por vingança, diagnostica a ilusão gerada pela riqueza—orgulho, crueldade e escravidão dos sentidos—e prescreve uma maldição corretiva: tornar-se-ão duas árvores arjuna gêmeas, conservando a memória da queda, e após cem anos divinos obterão o darśana direto do Senhor e a bhakti. Mais tarde, para cumprir as palavras de Nārada, o Menino Kṛṣṇa—ainda preso ao pilão desde o episódio de Dāmodara—engatinha entre as duas árvores; o pilão fica entalado e, com um puxão poderoso, Ele as arranca pela raiz. Os dois semideuses surgem, oferecem preces profundas que afirmam a supremacia de Kṛṣṇa, recebem Sua garantia sobre o poder libertador do sādhu-saṅga e partem firmes em bhakti, conduzindo a narrativa a novos passatempos em Vraja onde Sua doçura e soberania continuam a se revelar.
Verse 1
श्रीराजोवाच कथ्यतां भगवन्नेतत्तयो: शापस्य कारणम् । यत्तद् विगर्हितं कर्म येन वा देवर्षेस्तम: ॥ १ ॥
O rei Parīkṣit perguntou: Ó venerável, narra a causa da maldição que recaiu sobre aqueles dois. Que ato tão censurável cometeram para que até o devarṣi Nārada se irasse?
Verse 2
श्रीशुक उवाच रुद्रस्यानुचरौ भूत्वा सुदृप्तौ धनदात्मजौ । कैलासोपवने रम्ये मन्दाकिन्यां मदोत्कटौ ॥ २ ॥ वारुणीं मदिरां पीत्वा मदाघूर्णितलोचनौ । स्त्रीजनैरनुगायद्भिश्चेरतु: पुष्पिते वने ॥ ३ ॥
Śukadeva Gosvāmī disse: Ó rei, os dois filhos de Kuvera, por terem se tornado acompanhantes de Rudra (Śiva), encheram-se de orgulho. No belo jardim junto ao Kailāsa, à margem do Mandākinī, embriagavam-se bebendo o licor Vāruṇī; seguidos por mulheres que cantavam, vagavam pela mata florida com os olhos revirando de intoxicação.
Verse 3
श्रीशुक उवाच रुद्रस्यानुचरौ भूत्वा सुदृप्तौ धनदात्मजौ । कैलासोपवने रम्ये मन्दाकिन्यां मदोत्कटौ ॥ २ ॥ वारुणीं मदिरां पीत्वा मदाघूर्णितलोचनौ । स्त्रीजनैरनुगायद्भिश्चेरतु: पुष्पिते वने ॥ ३ ॥
Śukadeva Gosvāmī disse: Ó rei, os dois filhos de Kuvera, por terem se tornado acompanhantes de Rudra (Śiva), encheram-se de orgulho. No belo jardim junto ao Kailāsa, à margem do Mandākinī, embriagavam-se bebendo o licor Vāruṇī; seguidos por mulheres que cantavam, vagavam pela mata florida com os olhos revirando de intoxicação.
Verse 4
अन्त: प्रविश्य गङ्गायामम्भोजवनराजिनि । चिक्रीडतुर्युवतिभिर्गजाविव करेणुभि: ॥ ४ ॥
Dentro das águas do Ganges Mandākinī, repletas de fileiras de jardins de lótus, os dois filhos de Kuvera divertiam-se com jovens donzelas, como dois elefantes machos folgando na água com suas elefantas.
Verse 5
यदृच्छया च देवर्षिर्भगवांस्तत्र कौरव । अपश्यन्नारदो देवौ क्षीबाणौ समबुध्यत ॥ ५ ॥
Ó Mahārāja Parīkṣit, por uma ocasião auspiciosa para aqueles dois rapazes, o grande sábio Devarṣi Nārada apareceu ali por acaso. Ao vê-los embriagados, com os olhos revirando, compreendeu sua condição.
Verse 6
तं दृष्ट्वा व्रीडिता देव्यो विवस्त्रा: शापशङ्किता: । वासांसि पर्यधु: शीघ्रं विवस्त्रौ नैव गुह्यकौ ॥ ६ ॥
Ao ver Nārada, as jovens semideusas, nuas, envergonharam-se e, temendo uma maldição, cobriram-se depressa com suas vestes. Mas os dois filhos de Kuvera não o fizeram; sem se importar com Nārada, permaneceram nus.
Verse 7
तौ दृष्ट्वा मदिरामत्तौ श्रीमदान्धौ सुरात्मजौ । तयोरनुग्रहार्थाय शापं दास्यन्निदं जगौ ॥ ७ ॥
Vendo os dois filhos dos semideuses nus, embriagados e cegos pela opulência e pelo falso prestígio, Devarṣi Nārada, para lhes conceder uma misericórdia especial, desejou dar-lhes uma maldição especial. Então falou assim.
Verse 8
श्रीनारद उवाच न ह्यन्यो जुषतो जोष्यान्बुद्धिभ्रंशो रजोगुण: । श्रीमदादाभिजात्यादिर्यत्र स्त्री द्यूतमासव: ॥ ८ ॥
Disse Śrī Nārada: Entre todos os atrativos do gozo material, o fascínio da riqueza é o que mais confunde a inteligência, mais do que beleza, nascimento nobre e erudição. Quando alguém é inculto, mas se incha pelo orgulho do dinheiro, emprega seus bens em vinho, mulheres e jogo.
Verse 9
हन्यन्ते पशवो यत्र निर्दयैरजितात्मभि: । मन्यमानैरिमं देहमजरामृत्यु नश्वरम् ॥ ९ ॥
Incapazes de controlar os sentidos, os tolos que se orgulham falsamente de sua riqueza ou de seu nascimento nobre são tão cruéis que, para manter seus corpos perecíveis—que julgam não envelhecer nem morrer—matam pobres animais sem misericórdia.
Verse 10
देवसंज्ञितमप्यन्ते कृमिविड्भस्मसंज्ञितम् । भूतध्रुक्तत्कृते स्वार्थं किं वेद निरयो यत: ॥ १० ॥
Enquanto vive, por orgulho do corpo, alguém se julga grande homem, ministro, governante ou até como um deva; mas ao fim este corpo torna-se alimento de vermes, excremento ou cinza. Assim, quem mata pobres animais para satisfazer os caprichos temporários do corpo não conhece o sofrimento do próximo nascimento; tal pecador cai no inferno e padece o fruto de seus atos.
Verse 11
देह: किमन्नदातु: स्वं निषेक्तुर्मातुरेव च । मातु: पितुर्वा बलिन: क्रेतुरग्ने: शुनोऽपि वा ॥ ११ ॥
De quem é este corpo—do que o alimenta, de si mesmo, do pai, da mãe ou do avô materno? Do que o toma à força, do senhor que o compra, ou dos filhos que o queimam no fogo? E se não for queimado, pertence aos cães que o devoram? Entre tantos pretendentes, quem é o legítimo dono? Sem discernir isso, não é bom sustentar o corpo por atividades pecaminosas.
Verse 12
एवं साधारणं देहमव्यक्तप्रभवाप्ययम् । को विद्वानात्मसात्कृत्वा हन्ति जन्तूनृतेऽसत: ॥ १२ ॥
Este corpo nasce da natureza não manifesta e novamente é destruído e se funde nos elementos; por isso é propriedade comum. Sendo assim, quem, senão um tolo, o reivindica como “meu” e, para mantê-lo, comete pecados como matar seres vivos por mero capricho? Tais atos só um insensato pratica.
Verse 13
असत: श्रीमदान्धस्य दारिद्रयं परमञ्जनम् । आत्मौपम्येन भूतानि दरिद्र: परमीक्षते ॥ १३ ॥
Os tolos descrentes, cegos pelo orgulho da riqueza, não veem as coisas como são; por isso, devolvê-los à pobreza é o unguento supremo para seus olhos. O pobre, por sentir a própria dor, contempla os seres por comparação consigo mesmo e não deseja que outros estejam numa condição dolorosa como a sua.
Verse 14
यथा कण्टकविद्धाङ्गो जन्तोर्नेच्छति तां व्यथाम् । जीवसाम्यं गतो लिङ्गैर्न तथाविद्धकण्टक: ॥ १४ ॥
Assim como quem teve o corpo espetado por espinhos entende, ao ver o rosto alheio, a dor de outros espetados; sabendo que essa dor é a mesma para todos, não quer que ninguém sofra assim. Mas quem nunca foi espetado por espinhos não pode compreender essa dor.
Verse 15
दरिद्रो निरहंस्तम्भो मुक्त: सर्वमदैरिह । कृच्छ्रं यदृच्छयाप्नोति तद्धि तस्य परं तप: ॥ १५ ॥
O pobre, por não ter riqueza para possuir e desfrutar, passa espontaneamente por austeridades e expiações; assim seu falso orgulho é vencido. Necessitando de alimento, roupa e abrigo, contenta-se com o que recebe pela misericórdia da Providência; essa austeridade compulsória o purifica e o liberta do ego ilusório.
Verse 16
नित्यं क्षुत्क्षामदेहस्य दरिद्रस्यान्नकाङ्क्षिण: । इन्द्रियाण्यनुशुष्यन्ति हिंसापि विनिवर्तते ॥ १६ ॥
O pobre, sempre faminto e desejando alimento suficiente, vai ficando cada vez mais fraco. Sem força excedente, seus sentidos se aquietam por si mesmos e cessam também os atos nocivos e invejosos; assim ele obtém naturalmente os frutos da austeridade que os santos adotam voluntariamente.
Verse 17
दरिद्रस्यैव युज्यन्ते साधव: समदर्शिन: । सद्भि: क्षिणोति तं तर्षं तत आराद्विशुद्ध्यति ॥ १७ ॥
Os santos de visão igual associam-se livremente aos pobres, mas não aos ricos. Pela companhia dos virtuosos, a sede de desejos materiais do pobre logo se extingue, e as impurezas no âmago do coração são lavadas; assim ele se purifica rapidamente.
Verse 18
साधूनां समचित्तानां मुकुन्दचरणैषिणाम् । उपेक्ष्यै: किं धनस्तम्भैरसद्भिरसदाश्रयै: ॥ १८ ॥
Os sādhu de mente equânime buscam os pés de Mukunda (Śrī Kṛṣṇa) e lembram-se d’Ele dia e noite. Por que, então, negligenciar a companhia de tais almas excelsas e procurar a de materialistas orgulhosos de sua riqueza, abrigando-se em não devotos e no que é impuro?
Verse 19
तदहं मत्तयोर्माध्व्या वारुण्या श्रीमदान्धयो: । तमोमदं हरिष्यामि स्त्रैणयोरजितात्मनो: ॥ १९ ॥
Portanto, estas duas pessoas, embriagadas pelo licor Mādhvī ou Vāruṇī, cegas pelo orgulho da opulência celestial, incapazes de controlar os sentidos e apegadas às mulheres, eu lhes tirarei essa embriaguez tamásica e o falso prestígio.
Verse 20
यदिमौ लोकपालस्य पुत्रौ भूत्वा तम:प्लुतौ । न विवाससमात्मानं विजानीत: सुदुर्मदौ ॥ २० ॥ अतोऽर्हत: स्थावरतां स्यातां नैवं यथा पुन: । स्मृति: स्यान्मत्प्रसादेन तत्रापि मदनुग्रहात् ॥ २१ ॥ वासुदेवस्य सान्निध्यं लब्ध्वा दिव्यशरच्छते । वृत्ते स्वर्लोकतां भूयो लब्धभक्ती भविष्यत: ॥ २२ ॥
Nalakūvara e Maṇigrīva, embora filhos de Kuvera, por orgulho e loucura nascidos da bebida, caíram tão baixo que, estando nus, nem percebem a própria nudez. Portanto, como punição apropriada—pois as árvores estão nuas e não têm consciência—devem receber um corpo imóvel, o corpo de uma árvore. Ainda assim, por Minha misericórdia, mesmo nesse corpo conservarão a lembrança de seus pecados passados; e por Meu favor especial, após cem anos segundo a medida dos devas, poderão ver Vāsudeva face a face e recuperar sua verdadeira condição de devotos.
Verse 21
यदिमौ लोकपालस्य पुत्रौ भूत्वा तम:प्लुतौ । न विवाससमात्मानं विजानीत: सुदुर्मदौ ॥ २० ॥ अतोऽर्हत: स्थावरतां स्यातां नैवं यथा पुन: । स्मृति: स्यान्मत्प्रसादेन तत्रापि मदनुग्रहात् ॥ २१ ॥ वासुदेवस्य सान्निध्यं लब्ध्वा दिव्यशरच्छते । वृत्ते स्वर्लोकतां भूयो लब्धभक्ती भविष्यत: ॥ २२ ॥
Portanto, para que não recaiam no mesmo orgulho e delírio, são dignos da condição imóvel. Por Minha misericórdia, mesmo no corpo de árvore conservarão a memória de suas faltas passadas; e por Minha graça, no tempo devido serão libertos.
Verse 22
यदिमौ लोकपालस्य पुत्रौ भूत्वा तम:प्लुतौ । न विवाससमात्मानं विजानीत: सुदुर्मदौ ॥ २० ॥ अतोऽर्हत: स्थावरतां स्यातां नैवं यथा पुन: । स्मृति: स्यान्मत्प्रसादेन तत्रापि मदनुग्रहात् ॥ २१ ॥ वासुदेवस्य सान्निध्यं लब्ध्वा दिव्यशरच्छते । वृत्ते स्वर्लोकतां भूयो लब्धभक्ती भविष्यत: ॥ २२ ॥
Após cem anos segundo a medida dos devas, obterão a presença direta de Vāsudeva; e então, mesmo recuperando a condição celeste, alcançarão a bhakti e se tornarão devotos verdadeiros.
Verse 23
श्रीशुक उवाच एवमुक्त्वा स देवर्षिर्गतो नारायणाश्रमम् । नलकूवरमणिग्रीवावासतुर्यमलार्जुनौ ॥ २३ ॥
Śukadeva disse: Tendo falado assim, o grande sábio Devarṣi Nārada retornou ao seu āśrama, chamado Nārāyaṇa-āśrama, e Nalakūvara e Maṇigrīva tornaram-se duas árvores arjuna gêmeas.
Verse 24
ऋषेर्भागवतमुख्यस्य सत्यं कर्तुं वचो हरि: । जगाम शनकैस्तत्र यत्रास्तां यमलार्जुनौ ॥ २४ ॥
Para tornar verdadeiras as palavras de Nārada, o principal dos bhāgavatas, Hari—Śrī Kṛṣṇa—foi lentamente ao lugar onde estavam de pé as duas árvores arjuna gêmeas.
Verse 25
देवर्षिर्मे प्रियतमो यदिमौ धनदात्मजौ । तत्तथा साधयिष्यामि यद् गीतं तन्महात्मना ॥ २५ ॥
O devarṣi Nārada é Meu devoto mais querido; por isso, para a libertação destes dois filhos de Kuvera, cumprirei exatamente o que ele desejou.
Verse 26
इत्यन्तरेणार्जुनयो: कृष्णस्तु यमयोर्ययौ । आत्मनिर्वेशमात्रेण तिर्यग्गतमुलूखलम् ॥ २६ ॥
Tendo dito isso, Kṛṣṇa entrou depressa entre as duas árvores arjuna, e o grande pilão ao qual estava amarrado virou de lado e ficou preso entre elas.
Verse 27
बालेन निष्कर्षयतान्वगुलूखलं तद् दामोदरेण तरसोत्कलिताङ्घ्रिबन्धौ । निष्पेततु: परमविक्रमितातिवेप- स्कन्धप्रवालविटपौ कृतचण्डशब्दौ ॥ २७ ॥
O menino Dāmodara arrastou com grande força o pilão de madeira amarrado ao Seu ventre. Pelo poder do Senhor Supremo, as duas árvores tremeram com troncos, folhas e ramos e tombaram ao chão com um estrondo tremendo.
Verse 28
तत्र श्रिया परमया ककुभ: स्फुरन्तौ सिद्धावुपेत्य कुजयोरिव जातवेदा: । कृष्णं प्रणम्य शिरसाखिललोकनाथं बद्धाञ्जली विरजसाविदमूचतु: स्म ॥ २८ ॥
Então, no mesmo lugar onde as duas árvores arjuna haviam caído, surgiram dois grandes siddhas, perfeitos, como fogo personificado. O esplendor de sua beleza iluminava todas as direções. De cabeça baixa, ofereceram reverências a Kṛṣṇa, Senhor de todos os mundos, e, com as mãos postas, disseram o seguinte.
Verse 29
कृष्ण कृष्ण महायोगिंस्त्वमाद्य: पुरुष: पर: । व्यक्ताव्यक्तमिदं विश्वं रूपं ते ब्राह्मणा विदु: ॥ २९ ॥
Ó Kṛṣṇa, Kṛṣṇa, grande Iogue! Tu és a Pessoa original e suprema. Este universo, manifesto e não manifesto, grosseiro e sutil, é a Tua forma; assim o sabem os brāhmaṇas versados nos Vedas.
Verse 30
त्वमेक: सर्वभूतानां देहास्वात्मेन्द्रियेश्वर: । त्वमेव कालो भगवान् विष्णुरव्यय ईश्वर: ॥ ३० ॥ त्वं महान् प्रकृति: सूक्ष्मा रज:सत्त्वतमोमयी । त्वमेव पुरुषोऽध्यक्ष: सर्वक्षेत्रविकारवित् ॥ ३१ ॥
Tu és o Único Senhor interior de todos os seres: do corpo, da vida, do ego e dos sentidos. Tu mesmo és o Bhagavān Viṣṇu imperecível, e és o Tempo que tudo governa.
Verse 31
त्वमेक: सर्वभूतानां देहास्वात्मेन्द्रियेश्वर: । त्वमेव कालो भगवान् विष्णुरव्यय ईश्वर: ॥ ३० ॥ त्वं महान् प्रकृति: सूक्ष्मा रज:सत्त्वतमोमयी । त्वमेव पुरुषोऽध्यक्ष: सर्वक्षेत्रविकारवित् ॥ ३१ ॥
Tu és a sutil Mahat‑Prakṛti, composta dos três guṇas: rajas, sattva e tamas. Tu és o Puruṣa que preside, o Paramātmā, que conhece todas as transformações no campo do coração de cada ser.
Verse 32
गृह्यमाणैस्त्वमग्राह्यो विकारै: प्राकृतैर्गुणै: । को न्विहार्हति विज्ञातुं प्राक्सिद्धं गुणसंवृत: ॥ ३२ ॥
Ó Senhor, Tu existes antes da criação; então quem, neste mundo, envolto nas transformações dos guṇas materiais num corpo, poderia compreender-Te?
Verse 33
तस्मै तुभ्यं भगवते वासुदेवाय वेधसे । आत्मद्योतगुणैश्छन्नमहिम्ने ब्रह्मणे नम: ॥ ३३ ॥
Por isso oferecemos reverências a Bhagavān Vāsudeva, o Criador (Vedhas), cuja glória é velada pelos guṇas de Sua própria energia; a esse Parabrahman supremo nos prostramos.
Verse 34
यस्यावतारा ज्ञायन्ते शरीरेष्वशरीरिण: । तैस्तैरतुल्यातिशयैर्वीर्यैर्देहिष्वसङ्गतै: ॥ ३४ ॥ स भवान्सर्वलोकस्य भवाय विभवाय च । अवतीर्णोंऽशभागेन साम्प्रतं पतिराशिषाम् ॥ ३५ ॥
Ainda que Teus avatāras apareçam em corpos como peixe, tartaruga e javali, Tu permaneces transcendental ao corpo material; és reconhecido por feitos e poderes incomparáveis, impossíveis às criaturas comuns. Tu mesmo desceste agora para o bem de todos os mundos e para expandir Tua glória, como Senhor de toda bênção.
Verse 35
यस्यावतारा ज्ञायन्ते शरीरेष्वशरीरिण: । तैस्तैरतुल्यातिशयैर्वीर्यैर्देहिष्वसङ्गतै: ॥ ३४ ॥ स भवान्सर्वलोकस्य भवाय विभवाय च । अवतीर्णोंऽशभागेन साम्प्रतं पतिराशिषाम् ॥ ३५ ॥
Embora apareças em corpos como os de um peixe, uma tartaruga e um javali comuns, manifestas lilas impossíveis para tais criaturas — feitos extraordinários, incomparáveis e transcendentais, de poder ilimitado. Portanto, esses corpos não são feitos de elementos materiais, mas são encarnações da Tua própria Personalidade Suprema. Tu és o mesmo Senhor Supremo que agora desceu com plena potência para o benefício de todos os seres neste mundo, ó Senhor das bênçãos.
Verse 36
नम: परमकल्याण नम: परममङ्गल । वासुदेवाय शान्ताय यदूनां पतये नम: ॥ ३६ ॥
Ó supremamente auspicioso, ó Bem supremo, oferecemos nossas reverentes reverências. Ó filho de Vasudeva, o mais pacífico, senhor da dinastia dos Yadu, inclinamo-nos repetidas vezes diante de Teus pés de lótus.
Verse 37
अनुजानीहि नौ भूमंस्तवानुचरकिङ्करौ । दर्शनं नौ भगवत ऋषेरासीदनुग्रहात् ॥ ३७ ॥
Ó Senhor supremo, somos servos dos Teus servos, especialmente do sábio Nārada Muni. Concede-nos agora permissão para voltar ao nosso lar. Foi pela graça de Nārada Muni que pudemos ver-Te face a face.
Verse 38
वाणी गुणानुकथने श्रवणौ कथायां हस्तौ च कर्मसु मनस्तव पादयोर्न: । स्मृत्यां शिरस्तव निवासजगत्प्रणामे दृष्टि: सतां दर्शनेऽस्तु भवत्तनूनाम् ॥ ३८ ॥
Doravante, que nossas palavras descrevam Tuas qualidades e lilas; que nossos ouvidos se ocupem em ouvir Tuas glórias; que nossas mãos, pés e sentidos se engajem em ações que Te agradem; e que nossa mente pense sempre em Teus pés de lótus. Que Tu habites em nossa memória; que nossa cabeça se incline diante de tudo no mundo, pois tudo é também uma forma Tua; e que nossos olhos vejam os santos vaiṣṇavas, não diferentes de Ti.
Verse 39
श्रीशुक उवाच इत्थं सङ्कीर्तितस्ताभ्यां भगवान्गोकुलेश्वर: । दाम्ना चोलूखले बद्ध: प्रहसन्नाह गुह्यकौ ॥ ३९ ॥
Śukadeva Gosvāmī continuou: Assim, aqueles dois jovens semideuses glorificaram Bhagavān, o Senhor de Gokula. Embora Śrī Kṛṣṇa seja o Senhor Supremo e certamente o mestre de Gokula, Ele estava amarrado ao pilão de madeira pelas cordas das gopīs; então, sorrindo amplamente, falou aos filhos de Kuvera, os guhyakas, as seguintes palavras.
Verse 40
श्रीभगवानुवाच ज्ञातं मम पुरैवैतदृषिणा करुणात्मना । यच्छ्रीमदान्धयोर्वाग्भिर्विभ्रंशोऽनुग्रह: कृत: ॥ ४० ॥
Disse o Senhor Supremo: Eu já sabia de tudo isso desde o princípio; o compassivo sábio Nārada o havia disposto antes. Vós dois, cegos pela embriaguez da opulência, recebestes por sua maldição o maior favor; embora caísseis de Svarga e vos tornásseis árvores, fostes grandemente agraciados por ele.
Verse 41
साधूनां समचित्तानां सुतरां मत्कृतात्मनाम् । दर्शनान्नो भवेद् बन्ध: पुंसोऽक्ष्णो: सवितुर्यथा ॥ ४१ ॥
Ao estar diante de um sādhu de mente equânime, e ainda mais de um devoto plenamente rendido a Mim, o homem já não fica sujeito ao cativeiro material; como diante do sol não permanece a escuridão nos olhos.
Verse 42
तद्गच्छतं मत्परमौ नलकूवर सादनम् । सञ्जातो मयि भावो वामीप्सित: परमोऽभव: ॥ ४२ ॥
Ó Nalakūvara e Maṇigrīva, agora, tendo-Me como vosso supremo amparo, retornai ao vosso lar. O bhāva—o amor mais elevado—que desejáveis por Mim foi realizado; doravante jamais caireis dessa posição.
Verse 43
श्रीशुक उवाच इत्युक्तौ तौ परिक्रम्य प्रणम्य च पुन: पुन: । बद्धोलूखलमामन्त्र्य जग्मतुर्दिशमुत्तराम् ॥ ४३ ॥
Śukadeva Gosvāmī disse: Tendo o Senhor falado assim aos dois semideuses, eles circundaram o Senhor, preso ao pilão de madeira, e prostraram-se repetidas vezes. Após obterem a permissão de Śrī Kṛṣṇa, retornaram às suas moradas na direção norte.
Nārada cursed them as an act of compassion (anugraha-śāpa). Their intoxication with Vāruṇī and pride in wealth made them shameless and spiritually blind. By becoming trees—externally “naked” and inert—they would lose false prestige, remember their wrongdoing, and ultimately receive direct darśana of Vāsudeva, reviving devotion.
In Bhāgavata theology, a devotee’s intervention may appear punitive but aims at purification and restoration of bhakti. The curse removes enabling conditions for sin (opulence and arrogance), imposes corrective austerity, and—when issued by a mahā-bhāgavata like Nārada—can include a guaranteed spiritual outcome, such as remembrance, darśana, and devotion.
The twin arjuna trees were Nalakūvara and Maṇigrīva transformed by Nārada’s curse. When toddler Kṛṣṇa, bound to a wooden mortar, dragged it between them, the mortar lodged crosswise and Kṛṣṇa pulled with divine strength, uprooting both trees. The two demigods emerged in effulgent forms, offered prayers, and were blessed to return home established in devotional service.
The episode teaches that wealth and status can intensify ignorance and shamelessness, while saintly association and divine grace restore clarity. It also shows that Kṛṣṇa becomes ‘bound’ by devotees’ love (Dāmodara mood) yet remains the supreme controller, delivering even the fallen when devotion and a devotee’s mercy converge.